"A música é a única coisa que ainda faz sentido."
A casa de shows estava abarrotada. Centenas de pessoas se espremiam na espera pela estreia da nova banda, uma mistura de novos fãs ávidos por algo inédito e velhos seguidores da Bloodstone. Enquanto alguns já se acomodavam no interior, outros se refugiam sob a marquise do estabelecimento, buscando se proteger da chuva torrencial que desabava sobre as ruas de Nova York. Paparazzis e curiosos tentavam, freneticamente, arrancar informações e até alguma notícia bombástica sobre a mais nova banda dos filhos do astro de rock, Andy McLean.
Dentro do camarim, o clima era de correria. Funcionários e produtores se moviam apressados de um lado para o outro, pressionados pelo relógio que contava os minutos até a estreia dos meninos. Andrew observava tudo de um canto, sentado no sofá de couro preto. Seus braços estavam relaxados sobre o estofado, e seu olhar transmitia uma calmaria inquietante, como se estivesse em um estado de contemplação distante.
— Meu cabelo tá um saco, mãe! – Hunter resmungava enquanto analisava seu reflexo no espelho. Do outro lado do camarim, Eddie afinava sua Gibson vermelha, enquanto Klaus retocava a maquiagem preta ao redor de seus olhos.
— Não está, Hunter. — Simone aproximou-se do filho mais novo e ajeitou seus longos fios louro-escuros.
Hunter era o caçula da família e o vocalista da Echos of Midnight. O garoto parecia uma perfeita mistura de Andy e Simone: seus olhos azuis e o nariz marcante lembravam muito o pai.
— Não sei se deixo solto ou prendo... — comentou, dando de ombros e virando-se para Andy.
Andrew levantou-se lentamente e caminhou em direção ao filho. Com 1,93 metros de altura muito bem distribuídos, Andy era uma figura imponente. Seu corpo era coberto por diversas tatuagens espalhadas em padrões distintos. Seu rosto angular, com o maxilar bem definido, era complementado por sua característica aparência limpa, sempre livre de pelos. Além de um corte de cabelo curto que já o mantinha há anos.
— Não se importe com isso, filho. Saiba que você e... - encarou Eddie e Klaus, sorrindo – seus irmãos farão um show inesquecível.
Puxou os dois mais velhos e abraçou o trio com ternura. Seu coração estava calmo, realizado com tudo o que havia conquistado, seu legado perpetuaria daquele momento em diante. Andrew manteve os braços em volta dos filhos por um instante mais longo do que o habitual, como se quisesse gravar aquele momento na memória.
— Vocês são o melhor de mim. Não importa o que aconteça, nunca se esqueçam disso.
Hunter, com a testa franzida, olhou para o pai.
— Tá falando como se fosse se despedir, pai.
Andy sorriu de canto, mas havia algo nos olhos dele, uma melancolia quase imperceptível.
— Não é uma despedida, garoto. É um começo.
Antes que Hunter pudesse responder, Simone entrou na conversa, segurando o cronômetro que trazia na mão.
— Faltam quinze minutos. É hora de vocês irem para o palco.
O trio se afastou, os nervos visíveis em pequenos gestos: Eddie passou a palheta de guitarra entre os dedos, Klaus ajeitou a gola da jaqueta de couro, e Hunter mexeu mais uma vez no cabelo, agora decidido a deixá-lo solto.
Andrew os seguiu até a porta do camarim, parando no limiar. Ele observou os filhos desaparecer pelo corredor, sentindo um misto de orgulho e inquietação. Simone percebeu o olhar distante do marido e aproximou-se, tocando de leve seu braço.
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O Reflexo do Diabo
General FictionUm homem morre. Um velório acontece. E ainda assim, algo não se encerra. Entre silêncios desconfortáveis, memórias fragmentadas e versões que não se encaixam, uma história começa a se formar - não pelo que é dito, mas pelo que foi escondido por temp...
