O cheiro a cloro atingiu-me antes mesmo de ver a água. Sempre adorei a piscina assim: silenciosa, só o som do líquido a ondular, reflexos de luz a dançar nas paredes como se cada raio fosse um segredo guardado. Mas hoje não estava só.
Ele estava lá. Daniel. O mesmo que me ensinou a nadar anos atrás, que transformou simples braçadas em momentos que nunca esquecerei. Aos 14, não sabia sequer o que sentia. Agora, aos 22, sabia que tudo aquilo ainda me afetava — só de o ver.
Não mudou muito. Tronco firme, ombros largos, postura que impunha respeito sem esforço, e aqueles músculos definidos que sempre me fizeram perder a concentração. Mas agora eu podia controlar-me... ou pelo menos tentar.
O nosso olhar cruzou-se. Um segundo que parecia durar uma eternidade. Eu respirei fundo, tentando soar casual, mas o coração disparava. Ele sorriu, discreto, um gesto pequeno que carregava mais anos de silêncio do que qualquer palavra poderia conter.
Continuei a nadar, cada braçada uma tentativa de afastar pensamentos que me traíam. Ele aproximou-se da borda, apoiando os braços, observando-me. Não precisava de falar; cada olhar seu transmitia tudo: atenção, curiosidade, e aquele peso silencioso de memórias que insistiam em voltar.
— O teu professor de natação adaptada disse que ainda gostas de desafios — comentou ele, com aquele tom calmo, firme, mas ligeiramente provocador.
— Sim... sempre gostei de desafios — respondi, controlando a voz, tentando soar adulta, segura.
Ele inclinou a cabeça, estudando-me. E naquele instante, o silêncio entre nós falou mais do que qualquer frase. Havia tensão, sim, mas também algo mais profundo: anos de recordações, de pequenas fascinações, de limites nunca ultrapassados.
Saí da piscina e enrolei a toalha à cintura. Respirei fundo, tentando não parecer vulnerável. Ele aproximou-se, passo discreto, atento a cada movimento meu. Senti o calor da sua presença mesmo sem encostar-me.
— Então... a vida tratou-te bem? — perguntou casualmente, mas havia algo no tom que fazia o meu coração saltar.
— Mais ou menos. E tu? — consegui responder, com um sorriso que tentava parecer natural.
Ele olhou para mim, e percebi: não precisávamos de palavras. Cada gesto, cada pausa, cada sombra no seu rosto transmitia o que anos de silêncio não disseram. O reencontro era assim: silencioso, carregado de tensão, impossível de ignorar.
Um flash de memória veio à tona: a primeira vez que me empurrou suavemente para dentro da água, a sensação de medo misturado com excitação, e o olhar dele, tão atento, tão presente. Agora, adulto, aquele olhar tinha outra força — quase como se cada movimento meu fosse estudado e guardado, e eu estivesse de novo à mercê da sua atenção.
Enquanto nos despedíamos, um último olhar trocado fez-me sentir aquela mistura de fascínio e confusão de anos atrás. O tempo tinha passado, mas o deus que ficou no silêncio continuava a existir, intacto, dentro do meu mundo. E eu ainda não estava preparada para ignorá-lo.
O silêncio da piscina permaneceu depois da sua partida, mas agora era diferente. Cada reflexo na água parecia murmurar o mesmo aviso: algumas presenças nunca desaparecem. Algumas memórias nunca se apagam. E algumas tensões... nunca devem ser ignoradas.
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O Deus Que Ficou No Silêncio
FanfictionO passado nunca desaparece. Quando ele reaparece na piscina depois de oito anos, tudo volta à tona: memórias que deviam estar esquecidas, olhares que queimam mais do que a água que nos rodeia, e um silêncio que fala mais do que mil palavras. Ele é...
