O silêncio das masmorras não era vazio.
Era pesado. Antigo. Vivo.
Severus Snape caminhava pelos corredores de pedra como fazia todas as noites, a capa negra deslizando atrás de si com um som quase imperceptível. O castelo dormia, mas ele não. Nunca dormia cedo. Havia sempre algo a ser revisado, corrigido, vigiado. Poções que exigiam precisão. Alunos que exigiam controle.
E pensamentos que exigiam... repressão.
Ele parou diante da porta da sala de Poções. Observou-a por um instante a mais do que o necessário. Um hábito recente - e irritante. Girou a maçaneta, entrou, e fechou a porta com um estalo seco que ecoou pelo ambiente.
Tudo estava exatamente como deveria estar.
Caldeirões alinhados. Bancadas limpas. O cheiro residual de ingredientes cuidadosamente armazenados. Ordem. Disciplina. Previsibilidade.
Silêncio.
Snape inspirou fundo, como se pudesse absorver aquele silêncio e usá-lo como antídoto. Aproximou-se da própria mesa, pousou alguns pergaminhos e começou a corrigi-los sem pressa. A pena riscava o papel com firmeza, impaciente com erros óbvios.
Até que ele sentiu.
Não um som.
Não um movimento.
Uma presença.
Severus ergueu o olhar lentamente, os olhos negros estreitando-se. O canto da sala permanecia mergulhado em sombras, mas ele conhecia Hogwarts bem demais para ignorar alterações sutis no ar.
- Saia - disse, a voz baixa e cortante, sem levantar-se.
Nada aconteceu.
O silêncio respondeu.
Irritado, ele empurrou a cadeira para trás e ficou de pé. A capa acompanhou o movimento como uma extensão do próprio corpo. Deu alguns passos calculados até a lateral da sala.
E então a viu.
Você estava ali, imóvel, como se tivesse sido esculpida da própria escuridão. Não parecia surpresa por ter sido descoberta - apenas... alerta. Os olhos atentos, o corpo tenso, como alguém que sabe exatamente o perigo que corre.
- A menos que tenha se tornado invisível por incompetência - murmurou Snape -, está fora de lugar.
Você respirou fundo antes de responder.
- Não pretendia interromper.
Ele observou cada detalhe: a postura defensiva, as mãos cerradas, o cuidado excessivo em manter distância. Um comportamento conhecido. Familiar demais.
- Pretensão não altera fatos - respondeu friamente. - Esta sala está fechada.
Você deu um passo à frente, hesitante.
- Eu precisava... de um ingrediente. Para a enfermaria.
Snape arqueou uma sobrancelha, cético.
- Precisar não é permissão.
O silêncio voltou a se instalar entre vocês. Um silêncio diferente agora. Carregado. Avaliador.
Ele não gostava de interrupções. Não gostava de exceções. E definitivamente não gostava de como seus olhos insistiam em acompanhar cada mínimo movimento seu.
- Pegue o que veio buscar - disse por fim, virando-se de costas. - E saia.
Você se moveu com cuidado, quase em reverência ao ambiente. O som leve dos seus passos parecia alto demais naquele espaço. Severus manteve-se imóvel, mas cada sentido estava alerta. O estalo suave de um frasco sendo aberto. O fechar cuidadoso da tampa.
Quando você passou por ele, Snape sentiu algo raro: hesitação.
- Professor... - sua voz foi baixa. - Obrigada.
Ele não respondeu.
A porta se fechou atrás de você, e o silêncio retornou ao seu estado original. Denso. Profundo.
Snape permaneceu parado por alguns segundos a mais do que admitiria. Então, lentamente, virou-se para o lugar onde você estivera.
Nada fora deixado fora do lugar.
Nada visível.
Ainda assim, algo havia mudado.
Ele fechou os olhos por um instante - um erro - e os abriu imediatamente depois.
- Ridículo - murmurou para si mesmo.
Voltou à mesa, retomou os pergaminhos. Mas a pena já não se movia com a mesma precisão.
O silêncio, naquela noite, não obedecia mais.
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IMAGINES: O Príncipe Mestiço
FanfictionEste é um imagines contado através de múltiplos POVs. Você, Severus Snape e aqueles que observam tudo de fora. Entre aulas de Poções, detenções duvidosas e interações nada normais, você acaba se envolvendo com o professor mais rabugento de Hogwarts...
