𝗖𝗮𝗽𝗶𝘁𝘂𝗹𝗼 𝗨́𝗻𝗶𝗰𝗼 - 𝖤𝗇𝗍𝗋𝖾 𝗂𝗋 𝖾 𝖿𝗂𝖼𝖺𝗋.

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O som do motor do carro em que Wooyoung seguia vibrava baixo e constante, um ronco metálico que se infiltrava na base de seu crânio, tornando impossível o silêncio que ele tanto almejava. Cada redução de marcha nas curvas sinuosas parecia puxá-lo fisicamente para trás, arrastando-o para memórias que ele preferia manter sob sete chaves. Sua mente, traidora, insistia em antecipar cenários: o tom de voz decepcionado, os olhares de varredura, as perguntas que eram, na verdade, julgamentos.

O caminho até Costa Serena se estendia longo e quase hipnótico. Árvores altas e antigas formavam corredores irregulares ao redor da estrada, projetando sombras que dançavam lentamente sobre o asfalto aquecido. Entre os troncos, surgiam casas isoladas, pintadas em tons pastéis agora desbotados pelo sol impiedoso e pela maresia corrosiva. Eram estruturas que pareciam suspirar, como se cada parede descascada carregasse camadas de histórias nunca contadas. O lugar tinha memória. E, para Wooyoung, ela não era gentil.

Mesmo ainda distante, ele sentia o peso familiar comprimir seu peito, uma âncora invisível afundando em seus pulmões. Estava perigosamente perto do espaço onde crescera cercado por expectativas que nunca foram suas, onde aprendeu cedo a arte dolorosa de se podar para caber em moldes alheios. O ar que invadiu a janela aberta trouxe o cheiro inconfundível de sal, iodo e vegetação úmida. Quando a brisa tocou seu rosto, carregada de umidade, ele fechou os olhos.

Deixou que o vento bagunçasse seus cabelos, que o calor do sol mordesse sua pele, tentando usar aquele instante roubado para se ancorar no presente. Inspirou fundo, sentindo o gosto de sal na língua. E, ao expirar, tentou soltar junto o medo infantil que insistia em pegar carona no banco do passageiro.

🌊'

A casa de dois andares surgiu na visão do garoto, com seus tons de verde musgo agora entregues ao cinza do tempo. Um calafrio, que nada tinha a ver com a temperatura, percorreu sua espinha. Não era apenas nervosismo; era uma angústia antiga, residente.

A estrutura física não havia mudado quase nada. Apenas algumas plantas no jardim pareciam diferentes - talvez as antigas tivessem morrido por falta de cuidado ou sua mãe simplesmente enjoara delas. A janela da sala estava escancarada, assim como a porta da frente, como uma boca pronta para engoli-lo.

O táxi partiu, deixando apenas a poeira e o silêncio. Wooyoung caminhou com passos hesitantes até a entrada, engolindo em seco, a garganta árida. Bateu levemente na madeira gasta e, quase imediatamente, a voz estridente cortou o ar:

- Jae? Vê quem está na porta pra mim? - a voz de sua mãe ecoou vinda da cozinha, chamando pelo pai que, previsivelmente, estaria na sala.

A figura paterna surgiu. Um homem de cabelos grisalhos, óculos de aro fino escorregando pelo nariz e uma pele alva que parecia nunca ter visto o sol daquela cidade litorânea. Seus olhos cor de mel se estreitaram com a claridade. Usava uma regata azul surrada e bermuda de brim. Nos pés, nada. O contato direto com o chão frio parecia ser o único traço de despojamento que aquele homem permitia.

- Wooyoung? - seu pai disse, o tom oscilando entre o espanto e uma formalidade rígida.

- Wooyoung?! - a mãe surgiu logo atrás, secando as mãos em um pano de prato bordado. O sorriso em seu rosto era uma máscara bem treinada de alegria e calmaria doméstica. - Entre, querido! Não fique aí fora como uma visita, acredito que sua viagem foi exaustiva!

Ela o puxou para dentro com uma euforia que não alcançava os olhos. Ji-Ae usava um vestido florido rosa que contrastava com a mobília escura. Seus cabelos, tingidos de um preto intenso, estavam presos por uma presilha de flor, e o cheiro de detergente de limão emanava de suas mãos úmidas.

ONDE A MARÉ DECIDE FICAR | Woosan.Mga kuwentong kahuhumalingan mo. Tumuklas ngayon