Prólogo

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O cheiro de ferro chega antes do som.

Minjeong reconhece imediatamente. Sangue fresco tem uma densidade própria no ar, algo quente e metálico que se agarra ao fundo da garganta. Ela inspira devagar, controlando o ritmo do corpo como aprendeu a fazer desde criança, quando precisava fingir que estava tudo bem mesmo com o mundo desmoronando ao redor.

O homem ainda está vivo quando ela se aproxima.

Amarrado à cadeira, ele se debate o suficiente para fazer o móvel ranger contra o chão sujo do galpão. A fita sobre a boca já está encharcada de saliva e lágrimas. Os olhos estão vermelhos, arregalados demais, desesperados demais. Sempre chegam a esse ponto. Sempre acham que ainda existe negociação.

Minjeong observa em silêncio.

Ela não sente pressa. Nunca sente.

Lembra vagamente do pai segurando sua mão quando era pequena, dizendo para não chorar, dizendo que tudo ia ficar bem. Lembra da mãe tentando sorrir mesmo com medo. Lembra do sangue — não desse jeito, não tão explícito — mas lembra da cor. Do vermelho escuro que parecia errado demais em um corpo que deveria estar vivo.

Ela pisca uma vez, afastando a memória.

O homem murmura algo ininteligível. Implora. A voz sai quebrada, falha, atravessada pelo pânico. Minjeong se agacha à frente dele, ficando na altura de seus olhos. Ela inclina a cabeça levemente, como se estivesse ouvindo com atenção.

Não está.

Ela só quer ver o momento exato em que ele entende.

O primeiro corte não é profundo. Nunca é. A lâmina desliza pela pele do antebraço, abrindo uma linha limpa que demora um segundo inteiro para reagir. Depois o sangue brota, escuro, espesso, escorrendo em fios irregulares até pingar no chão. O homem grita contra a fita, o corpo inteiro se contorcendo.

Minjeong observa a reação com cuidado quase clínico.

Ela sabe exatamente onde tocar para provocar dor sem causar morte imediata. Sabe como o corpo responde, como os músculos se contraem, como o desespero acelera a respiração até virar um soluço patético. Aprendeu tudo isso com o tempo. Com repetição.

Ela só mata homens.

Não porque decidiu um dia.
Porque sempre foram eles.

Nojentos.

Idiotas.

Uma espécie que não deveria existir.

Outro corte. Mais profundo agora. A pele se abre com facilidade, revelando camadas internas que o corpo humano insiste em esconder. O sangue escorre mais rápido, quente, respingando em sua mão. Minjeong não se incomoda. Não limpa. Não se afasta.

O homem começa a tremer.

Ela se levanta, caminhando lentamente ao redor dele. O som de seus passos ecoa no galpão vazio. O chão já está manchado, pequenas poças se formando onde o sangue pinga sem parar. O cheiro fica mais forte. Mais pesado.

Minjeong respira fundo.

Não há raiva em seus movimentos. Não há prazer explícito. O que existe é algo muito mais assustador: calma. Uma calma absoluta, quase gentil, enquanto ela decide o próximo passo.

Ela se posiciona atrás da cadeira.

O corte seguinte atinge o ombro. O grito agora é mais agudo, atravessando a fita, fazendo o corpo inteiro arquear para frente. O sangue escorre pela lateral do tronco, manchando a camisa, colando o tecido à pele. O homem começa a perder força. Ela percebe. Sempre percebe.

"Para... por favor..."

A palavra sai distorcida, quase irreconhecível. Minjeong se inclina novamente, aproxima o rosto do dele. Seus olhos não demonstram nada além de atenção silenciosa. Ela remove a fita da boca dele de uma vez só, o som da pele sendo puxada misturando-se ao choro desesperado.

Ela espera ele falar.

Ele fala demais.

Minjeong se endireita e, sem hesitar, enfia a lâmina abaixo da clavícula. O impacto é seco. Preciso. O corpo reage violentamente, um espasmo forte o suficiente para quase derrubar a cadeira. O sangue explode para fora, quente, espirrando em seu casaco, no chão, nas paredes próximas.

O homem engasga.

O som que sai da garganta dele não parece humano. É um borbulhar irregular, sufocado pelo próprio sangue que começa a encher sua boca. Os olhos se arregalam ainda mais, focando em um ponto invisível no teto.

Minjeong mantém a lâmina no lugar por alguns segundos.

Ela sente o tremor diminuindo. Sente o corpo ceder. Sente o momento exato em que a resistência acaba.

Quando puxa a faca, o sangue jorra com força, escorrendo em ondas desordenadas pelo peito do homem, formando uma poça espessa no chão. Ele tenta respirar mais uma vez. Não consegue.

O silêncio que vem depois é profundo.

Minjeong observa o corpo por um momento longo demais para qualquer pessoa normal. O sangue continua escorrendo, agora mais lento, espalhando-se como tinta derramada. O cheiro é quase sufocante. Ferro, calor, fim.

Ela solta o ar devagar.

A calma volta.

Sempre volta.

Ela limpa a lâmina com um pano já manchado de outras noites. Não há pressa. Depois, começa a organizar o espaço. O corpo é reposicionado. O chão, limpo o suficiente para não levantar suspeitas imediatas. Ela trabalha com método, como alguém executando uma tarefa doméstica repetitiva.

Quando termina, o galpão parece quase normal novamente — exceto pelas manchas impossíveis de esconder completamente. Minjeong não se importa. Ninguém vem ali. Ela escolhe bem.

Antes de sair, ela olha uma última vez para o corpo.

Não sente pena.
Não sente culpa.

Sente algo parecido com encerramento.

Do lado de fora, o ar frio da noite bate em seu rosto, misturando-se ao cheiro de sangue ainda preso à sua pele. Minjeong fecha os olhos por um segundo, respirando fundo. O mundo continua exatamente igual. Carros passam ao longe. Luzes piscam. Pessoas seguem vivendo.

Ninguém sabe.
Ninguém nunca sabe.

Ela caminha pela rua como qualquer outra pessoa. Calada. Invisível. Uma sombra entre tantas outras. O sangue seco começa a repuxar na pele, lembrando-a do que fez — não como advertência, mas como confirmação.

Minjeong perdeu os pais cedo demais.
Perdeu a chance de aprender a amar direito.
Perdeu qualquer ilusão de que o mundo é justo.

O que ela ganhou foi isso.

Controle.
Silêncio.
E a certeza de que alguns homens simplesmente não deveriam continuar respirando.

Ela desaparece na noite.

I put the HOT in psychotic- WinrinaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora