Prológo

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Província de Yala (Zona Vermelha) - Complexo Insurgente | 04:42

O silêncio antes do inferno tinha um gosto metálico. Era aquela pressão no ouvido que precede a detonação de um C4, um peso no pulmão que avisava: alguém vai morrer hoje.

Jayna conhecia aquela sensação melhor do que o próprio nome. Era o que sobrava quando a humanidade ia embora e só ficava o treinamento. Ajoelhada no concreto que cheirava a urina e óleo de fuzil, ela sentia o pulso latejar contra os lacres de nylon que travavam a circulação de suas mãos. Cada batida do coração era um lembrete de que ainda estava viva.

O corte no supercílio esquerdo sangrava há tempo suficiente para deixar uma trilha até o queixo. O sangue empapava a gola do seu uniforme e suas costelas protestavam a cada respiração. O chute de um daqueles bastardos pegou em um ponto crítico e provavelmente ela estava com a costela fodida de novo.

ㅡ Ela não fala ㅡ um dos homens rosnou, chutando o flanco de Jayna. O impacto foi seco. Ela não deu o prazer do grito a ele ㅡ Quebramos os dedos dela e a vadia nem piscou.

Ela não gemeu. Não pediu. Manteve a cabeça baixa, o cabelo colado no rosto pelo suor e pela sujeira. Porque enquanto quatro insurgentes gritavam ao redor em dialeto malaio, ela estava em um estado mental onde a dor vira ruído de fundo e o mundo ambiente um diagrama tático.

Três metros até a mesa. Duas AK-47 sem a trava de segurança. Um líder que falava demais e vigiava de menos. E um amador suando atrás dela com uma faca de caça barata. Ela testou o lacre nos pulsos. Plástico reforçado. Resistência de ruptura: 150kg. Força de tração insuficiente. Solução: deslocamento articular forçado ou fricção.

ㅡ Levanta a cabeça! ㅡ O líder agarrou o cabelo de Jayna e puxou, a forçando a olhar para ele ㅡ Última chance. Onde está o resto da sua equipe?

Jayna olhou diretamente nos olhos dele. Seus olhos castanhos, geralmente quentes, estavam pretos, as pupilas reagindo à descarga de adrenalina que inundava seu sistema.

ㅡ Minha equipe? ㅡ A voz de Jayna saiu rouca, mas firme ㅡ Elas estão tomando café da manhã dez quilômetros daqui. Eu vim sozinha.

O homem riu incrédulo, olhando para os companheiros. 

ㅡ Sozinha? Você acha que é quem? O Rambo?

Jayna sorriu. O sangue entre os dentes manchava o lábio inferior.

ㅡ Não. Rambo deixa testemunhas para a sequência. Eu não.

Os músculos na base do crânio contraíram. Em um movimento curto, Jayna jogou o peso do corpo para frente e golpeou para trás. O crânio dela encontrou o nariz do insurgente que a segurava como marreta contra o vidro.

​O som de cartilagem esmagada foi seco. Jayna não esperou o homem cair; ela já operava na memória muscular do treinamento.

Ainda de joelhos, ela usou a rotação do quadril para varrer as pernas do líder com a canela. O homem desabou e no pânico, o dedo dele pressionou o gatilho da pistola. O disparo atingiu o concreto a centímetros da orelha de Jayna. O calor da pólvora queimando a lateral de seu rosto e um zumbido agudo anulando a audição do lado esquerdo.

O caos estourou.

Jayna se impulsionou do chão e correu de costas até elas baterem na viga de metal enferrujada. O impacto expulsou o ar de seus pulmões, mas ela ignorou. Ela os braços em um ritmo frenético. O atrito do nylon contra o ferro gerou calor, queimando a pele antes de o lacre ceder.

Liberdade.

O insurgente com o fuzil estava a um passo. Erro dele.

Jayna não recuou. Ela encurtou a distância, entrando na guarda dele antes que o cano fosse nivelado. Com a mão esquerda inutilizada e os dedos quebrados enviando pulsos de choque pelo braço, ela usou o antebraço direito para desviar a arma e cravou o cotovelo na traqueia do homem. O som foi de ar sendo bloqueado por uma laringe colapsada. Ele largou o fuzil.

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