Prólogo

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Existe uma violência silenciosa em fingir prazer. É uma traição que não acontece com outra pessoa, mas contra o meu próprio corpo.

Meus dedos se fecham nos lençóis de algodão egípcio, apertando o tecido até as pontas ficarem brancas. Jacob está sobre mim, movendo-se com aquele ritmo constante e previsível que eu conheço há vinte anos. O peso dele deveria ser um conforto, uma âncora, mas esta noite parece chumbo. Sinto o cheiro dele — uma mistura limpa de sabonete de sândalo e pele morna — e meu estômago se contrai. Não de desejo. De culpa.

Ele beija meu pescoço, úmido e quente. O hálito dele bate na minha pele, e eu tenho que lutar contra o impulso físico de me esquivar. Minha mente está vazia, branca, flutuando a meio metro acima da cama, observando a cena como uma diretora entediada.

Mais um pouco, penso. Só mais um pouco.
Sinto a respiração dele falhar, o tremor sutil nos músculos dos seus braços que sustentam o peso sobre mim. É o sinal. Eu fecho os olhos com força, transformando a escuridão em um palco. Minhas unhas arranham as costas dele — calculado, não instintivo. Arqueio as costas, forçando um gemido que rasga minha garganta. Não é um som de êxtase; é a minha melhor performance.

— Romy... — ele suspira, a voz rouca, quebrada pela ilusão que eu criei para ele.

Ele goza. Sinto as contrações do corpo dele, a liberação que para ele é sagrada e para mim é apenas o fim de uma tarefa. Ele desmorona sobre mim, pesado, suado, feliz.

— Eu te amo — ele sussurra contra o meu cabelo.
A frase paira no ar, doce e tóxica.

— Te amo — devolvo, automática. A mentira tem gosto de cinzas na minha língua.

Ele rola para o lado, puxando o edredom, e em minutos o ritmo de sua respiração muda. Ele dorme o sono dos inocentes. Dos satisfeitos. Eu fico lá, imóvel, encarando o teto escuro. O suor dele esfria na minha pele, criando uma camada pegajosa que me faz querer arrancar minha própria carne. O silêncio do quarto é ensurdecedor. Sinto um vazio oco entre as minhas pernas, uma fome que foi acordada, mas não alimentada. Meu corpo está tenso, vibrando com uma energia estagnada que precisa sair.

Levanto-me devagar. O chão frio é um choque bem-vindo. Caminho pelo corredor na ponta dos pés, nua, vulnerável. A casa está morta, mas minha pele está gritando. Entro no escritório e tranco a porta. O som da chave girando é o clique mais erótico que ouvi a noite toda. Não acendo as luzes. A escuridão é minha única amiga agora. Abro o laptop no chão. A luz azul da tela explode no quarto, iluminando minhas coxas, meus seios, revelando a mulher que eu escondo do mundo. Deito-me de bruços no tapete. A textura áspera da lã roça meus mamilos endurecidos, uma fricção crua que me faz arfar de verdade pela primeira vez. Meus dedos tremem enquanto busco o vídeo. Encontro. Play.

O rosto da mulher preenche a tela. Ela é linda, mas está desfeita. O rímel borrado, os lábios inchados, os olhos arregalados de medo e expectativa.

— Como o papai te usa? — A voz do homem é baixa, imperiosa. Não vejo o rosto dele, apenas sinto o poder que emana dos alto-falantes.

Um choque elétrico desce pela minha espinha, indo direto para o meu ventre.
Minha mão desliza para baixo, passando pela barriga lisa, mergulhando entre as minhas pernas. Estou molhada. Tão molhada que é quase vergonhoso. Meus dedos encontram o clitóris inchado e o toque é urgente, sem a gentileza ou o romantismo de Jacob. Eu não quero amor agora. Eu quero ser destruída.

— Da maneira que ele quiser... — a mulher na tela sussurra, a voz trêmula.

— Mais alto — o homem ordena. É seco. Cruel. Perfeito.

— Da maneira que ele quiser!

Eu mordo o dorso da minha mão para abafar o grito. Meus quadris começam a moer contra o chão, buscando atrito, buscando dor. Meus dedos se movem freneticamente, impiedosos. Na tela, o ato é explícito, animalesco, uma submissão total que faz meu sangue ferver. Eu imagino mãos fortes me segurando, me forçando, tirando de mim o peso insuportável de ter que estar no controle o tempo todo.
A pressão aumenta, uma onda de calor que sobe das minhas coxas e inunda meu peito. Minha respiração é curta, errática.

— Boa menina — o homem na tela diz.
E eu quebro.

O orgasmo me atinge como um acidente de carro. É violento. Meu corpo inteiro se contrai, espasmos sacodem minhas pernas, e eu enterro o rosto no tapete, soltando um gemido abafado e gutural que vem do fundo da minha alma. Ondas de prazer e alívio lavam meu cérebro, apagando a CEO, apagando a esposa, deixando apenas a carne pulsante e satisfeita.
Fico deitada ali por um longo tempo enquanto o vídeo termina e a tela fica preta.

O coração martela contra o chão duro. O suor escorre pelas minhas costas. Estou sozinha no escuro, suja e completa. A culpa virá pela manhã, eu sei. Mas agora, enquanto recupero o fôlego no silêncio do meu escritório secreto, sinto a única coisa que Javier nunca consegue me dar.
Liberdade.

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