Algo que não deveria existir

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- Usuária do Hōkai Jisō... você terá um novo amiguinho com você, tudo bem?

Olhei para o homem de terno em minha frente enquanto franzia meu cenho. Seu rosto parecia se contorcer em desgosto.

- Não quero amigos. E eu não sou uma criança para falar dessa forma comigo.

Ele deu um passo para trás, uma ação hesitante. Estufei meu peito levemente, um pouco orgulhosa de ter fama de ser uma pessoa perigosa. Desde muito nova ganhei essa fama, cresci com ela. Até porque fiquei mais tempo com ela do que junto de meus irresponsáveis pais. 

- Ora, mas ele é diferente... ele é alguém que consegue lidar com você.

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa a mais, ele abriu a porta daquela sala de paredes negras como a noite.

Eu não gostava do cheiro que a porta tinha quando abria. Era úmido com ferro, ferrugem e energia amaldiçoada. Não só isso, mas a abertura de metal se escancarou, trazendo uma iluminação quase incômoda, que não estava acostumada a ver. Contrastando com o visual da minha prisão provisória, entrou um garoto alto, de cabelo claro. Claro é eufemismo, para ser sincera, seu cabelo era totalmente branco. Ele usava óculos escuros, mesmo dentro de uma sala com pouquíssima iluminação. O menino parecia ter entre 15 e 17 anos, perto da minha idade.

E aquele uniforme que ele usava era algo que eu conhecia muito bem. 

- É um estudante. - Deixei escapar e olhei para o homem de terno novamente. Com um tom misturando irritação e deboche, termino de murmurar. - Mandaram um estudante para cuidar de mim? Que ridículo. Os adultos estão com medo demais da criança amaldiçoada agora?  

- Cuidar de você? Não acha que está meio grandinha para ter uma babá? - O garoto falou com sarcasmo, se aproximando de mim. Minha expressão se tornou mais surpresa. Não era todo dia que alguém me tratava assim. - Fica tranquila, sou muito melhor do que qualquer adulto que já pôs os pés aqui. Meu nome é Satoru Gojo.

Vi sua mão levantar em um gesto educado. Satoru Gojo... já ouvi falar nele. Adultos se referiam a ele como alguém importante, porém nunca cheguei a escutar muito sobre o garoto. 

- Hina Wokita. - Estendi minha mão também, cumprimentando-o. Foi uma sensação estranha, o calor de sua mão se misturando com o da minha, contato humano depois de um bom tempo... chegava a ser estranho. 

- Seremos obrigados a ficar juntos por um tempo. Pretendo me dar bem com você até lá. E, sabe, Hina parece um nome bacana. - Ele sorriu.

Alguém sorriu para mim, pela primeira vez desde que me lembro. Ele era estranho, igual a mim... meus olhos brilharam.

- Nos deixe sozinhos. - Falei sem sequer olhar para o guarda. Ambos Gojo e o homem pareceram surpresos, mas minha ordem foi obedecida. É claro que foi, o homem definitivamente não iria arriscar seu emprego apenas por um ego ferido. 

O garoto me olhou com diversão e curiosidade estampados em seu rosto, que de forma alguma poderia ser descrito como algo que não seja... bonito, no mínimo.

- Que interessante. Para uma prisioneira, você comanda bastante por aqui, não? - Brincou.

- Prisioneira..? Então é isso que acha que eu sou? - Não era uma critica, apenas uma pergunta genuína. - O que exatamente te contaram sobre mim? Me sentei no chão frio da sala, olhando para ele, esperando que fizesse o mesmo. Obviamente, ele se sentou em minha frente. 

- O que me disseram? Bem, aparentemente tenho que te observar quando sair daqui, porém nem comentaram sobre o motivo de terem criado uma cela só para você. Diga-me, Hina... por que está aqui? 

Olhei para a porta fechada da sala, a única iluminação dali eram as pequenas frestas entre ela e a parede. Algo projetado apenas para tentar me fazer acreditar que eles estavam no controle ainda. 

- Porque nasci errado. - O maxilar dele se enrijeceu. Por viver muito tempo no escuro, notei a diferença quase imediatamente. Falar coisas assim realmente não me incomodavam, embora deixassem ele bem desconfortável. 

- Ninguém nasce errado. Qual foi seu crime, afinal? 

- Eu estou aqui por causa da minha energia amaldiçoada, na verdade. Sou perigosa demais para viver com os outros. - Dei de ombros e sorri irônica, sem saber se ele iria enxergar ou não.  - Mas, ei, pelo menos tenho comida e sobremesa grátis todos os dias. 

- Você não deve ter tido muitos amigos, né? Não esquenta, posso ser um novo. Aceito pagamento em sobremesa, por coincidência. 

Não pude deixar de rir brevemente. Ele realmente estava tentando negociar amizade comigo? Como se fosse uma conversa entre dois adolescentes, isso era quase hilário. 

- Você é um garoto diferente, Gojo. Quase dá vontade de aceitar, só que, falando sério, você merece uma amiga melhor. E, como já me ouviu falar, estou melhor sozinha, obrigada pela proposta mesmo assim. 

- Essa já é a segunda vez que tenta me subestimar e só nos conhecemos fazem uns cinco minutos. - Ele arqueou uma sobrancelha, não era um comentário ruim, porém, apenas uma constatação. Um fato. E ainda assim, seu sorriso ameaçava desaparecer - Por que não me fala mais sobre o motivo de ser tão perigosa? 

Franzi o cenho. Eu odiava essa pergunta. Meu olhar se demorou, olhando cada centímetro das paredes na sala, algo que eu já sabia de cor. Depois de meses ali, era impossível não fazer isso. Contei cada buraco, rachadura e partes sem tinta daquele fim de mundo.

- Minha técnica se chama Hōkai Jisō, se traduz como Manipulação do Tempo do Mundo em Colapso. Alguns também chamam ela de Técnica que não deveria existir. 

- Manipulação do tempo... não deveria existir..? De quão poderoso estamos falando? 

- Eu manipulo o espaço-tempo. Só tem um problema... quem controla isso não sou eu. É isso que me controla. 

- Certo, mas então... quem te prendeu aqui? 

- Acha que conseguiriam me prender? - Questionei sarcasticamente. - Eu escolhi estar aqui. Não vai ser por muito mais tempo,  pretendo sair logo, e se te enviaram, devem saber disso. 




Entre o infinito e o colapso - Gojo SatoruWhere stories live. Discover now