01: O Primeiro Passo da Noite.

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Bruna 🐅

Desde cedo eu entendi que, se eu quisesse alguma coisa, teria que conquistar por conta própria.

Fui criada por uma família que me acolheu ainda pequena, e deles herdei essa força teimosa de não depender de ninguém.

Aos 17 anos, quando escolhi meu caminho, muita gente torceu o nariz… mas eu sabia o que queria: liberdade.

Entrei no mundo da noite, aquele onde as luzes são fortes, a música esconde segredos e as mulheres aprendem rápido a usar o próprio corpo como ferramenta de trabalho.

Hoje, com 19, caminho pela minha cobertura de frente para a praia e sinto que cada passo ecoa uma vitória.

Tudo ali foi comprado com o dinheiro que ganho nas madrugadas:

O apartamento, meu carro, minha carteira de motorista, cada cirurgia que fiz para moldar meu corpo do jeito que eu sempre quis, silicone, lipo hd e  bumbum dos sonhos.

O mundo pode julgar, falar o que quiser… enquanto isso, eu continuo vivendo do meu jeito, e vencendo.

Saí do banho com a pele quente, ainda escorrendo algumas gotas pelo pescoço. Caminhei até o quarto, pisando macio no tapete felpudo, e entrei no closet iluminado.

As luzes acenderam sozinhas, revelando minhas lingeries organizadas por cor, mania minha.

Passei os dedos pelas rendas até escolher um conjunto preto, simples, mas que me deixava com aquela confiança que eu precisava pra encarar a noite.

Enquanto vestia o sutiã e ajustava a calcinha no quadril, pensei no quanto minha vida mudou desde que comecei na boate.

Foi lá que fiz meu primeiro serviço, onde aprendi a lidar com a madrugada, com homens, com dinheiro fácil que nunca vem sem um peso nas costas.

Mas também foi lá que encontrei Sabrina, a mais maluca de todas, boca suja, sem filtro nenhum, e Dante, que consegue ser mais dramático que todas as drag queens da Lapa juntas.

Os dois são minha base. Sem eles, eu já teria enlouquecido.

Pego o secador, começo a arrumar o cabelo, quando o celular vibra na cômoda. Anderson. O dono da boate. O tipo de homem que fala baixo, mas todo mundo obedece.

Fala, chefe — atendo encaixando o celular entre o ombro e a orelha.

Bruna, prepara tudo aí. Hoje vai rolar baile lá no morro da Rocinha. Chamaram a boate pra fazer presença — ele diz direto, sem rodeios.

Eu arqueio a sobrancelha, puxando o cabelo pra trás.

Na Rocinha ?? Logo lá ?? — dou uma risada breve. — Quem é que tá bancando essa ousadia ??

O dono do morro. Quer a casa cheia, bonita, com as meninas alinhadas. — explica ele, com aquela calma irritante dele.

Ah, maravilha — murmuro. — Justo hoje que eu tava pensando em dormir cedo.

Anderson ri do outro lado.

Você ?? Dormir cedo ?? Para de graça. Se arruma e vem. O motorista vai te pegar em quarenta minutos.

Tá, tá. Tô indo. Só não me bota em furada, Anderson.

Relaxa, Bruna. É trampo. Nada além disso.

Desligo e jogo o celular na cama. Olho pro meu reflexo no espelho: cabelo meio pronto, lingerie no corpo e um pressentimento estranho no peito.

— Baile no morro… ótima ideia — digo pra mim mesma.

Mesmo assim, começo a me arrumar. Trabalho é trabalho.

Sento-me diante da penteadeira, puxo a gaveta e espalho a maquiagem na mesa.

Primeiro a pele, base leve, corretivo, pó só pra dar o acabamento. Depois marco bem o olho, do jeito que gosto: sombra quente, delineado afiado e bastante máscara.

Eu sabia que baile em morro era sinônimo de luz piscando, fumaça e suor… então meu rosto precisava aguentar até o final da noite.

Escolhi um vestido curto, vermelho, desses que abraçam o corpo sem esforço.

Peguei um par de brincos dourados, o colar fino que sempre uso quando quero chamar atenção sem exagerar e o salto alto preto que faz meu andar parecer mais seguro do que realmente é.

Por último, meu perfume, duas borrifadas no pescoço, uma no pulso. O cheiro que virou quase minha assinatura.

Enquanto ajeito meu cabelo uma última vez, o celular vibra. Sabrina, em chamada de vídeo.

Atendo.

Meu Deus! — Sabrina grita, quase cobrindo o som da música alta atrás dela. — Amiga, isso aqui tá um inferno de lotado! Cadê você, caralho ??

Dante aparece do lado, com um copo na mão e o cabelo todo estilizado.

Bruna, se tu não chegar logo, eu juro que vou embora! Eu tô cercado de macho fedendo a ego! — ele reclama, fazendo drama.

Eu rio, pegando a bolsa.

Calma, seus dois surtados. Já tô descendo. Anderson mandou carro pra mim.

Corre logo. Tá todo mundo perguntando se você vem. — diz Sabrina.

Dante se aproxima mais da câmera.

E eu já avisei que ninguém encosta em você hoje. Só pra deixar claro.

Ai, meu Deus… — balanço a cabeça. — Vocês dois juntos são minha penitência.

Eles gargalham e eu desligo antes que comecem a disputa de quem fala mais alto.

Pego a chave, apago as luzes e saio da cobertura. O corredor está silencioso, como sempre, e o elevador desce rápido. Lá embaixo, o porteiro me recebe com aquele sorriso que ele tenta esconder.

— Boa noite, dona Bruna. Tá bonita demais hoje.

Dou um sorriso de canto.

— Obrigada, seu Carlos. Bom trabalho aí.

Lá fora, o carro preto que Anderson mandou já está parado. O motorista abre a porta pra mim sem dizer nada, profissional até demais. Entro, ajeito o vestido e olho pela janela enquanto o carro arranca.

A cidade vai mudando conforme subimos em direção ao morro.

Luzes mais fortes, música cada vez mais presente, movimento crescendo.

E no fundo, aquele friozinho conhecido na barriga.


♤♠︎♤

Menina Bruna Where stories live. Discover now