A porta do elevador se abriu rangendo um som velho, como se o próprio metal tivesse sido forçado a ceder. Das sombras que engoliam lá dentro, uma figura emergiu com lentidão predatória e perigosa, me causando um arrepio na espinha que congelou todos os meus músculos. Afinal, uma sensação me dizia que aquela porta nem deveria estar ali, eu nem deveria estar aqui.
Aquela coisa foi surgindo aos poucos. O primeiro a se revelar foram suas mãos, que avançaram, arranhando o piso como garras que buscam firmeza antes do ataque, um movimento felino e calculado.
Os cabelos vermelhos caíam em mechas selvagens ao redor de um rosto pálido demais para pertencer a alguém vivo. Os olhos vazios e ainda assim atentos, um deles, o direito, brilhava em um vermelho intenso que me convidava ao inferno de onde aquela criatura havia saído mantinham o foco na minha direção. Eu sentia no meu âmago que era eu quem ela queria, não tinha escapatória.
Dois chifres negros se curvavam de sua cabeça para trás, reluzindo com um brilho úmido que denunciava sua natureza infernal. As asas negras, ainda meio recolhidas, pareciam se expandir conforme ele se aproximava, tomando o ar ao redor e tornando o espaço menor, sufocante. Parecia que, mesmo que eu gritasse, o som da minha voz não teria espaço para se expandir além do que aquela presença permitisse.
Cada movimento dele era lento, deliberado. O olhar, ininterrupto. A boca entreaberta exibia dentes afiados demais para o mundo humano. Um sussurro inaudível parecia escapar de seus lábios, não dizia nada, apenas emanava palavras sarcásticas e sádicas vindas de outro plano, tão gelado quanto a sensação que se entranhava pelas minhas vísceras.
Não havia ruídos mecânicos do elevador depois que se abriu, apenas o som seco de unhas percorrendo o piso. Ele não estava apenas saindo de um elevador, aquilo não era um elevador. Estava cruzando um limite, invadindo um lugar onde ninguém jamais imaginou que o medo pudesse alcançar.
Ele não caminha. Ele caça. Ele me quer.
E eu não consigo fugir. Minhas pernas estavam presas no lugar, paralisadas de terror pelo quadro pitoresco à minha frente. A morte chamava pelo meu nome, e eu realmente não queria atender. Eu queria correr. Meus olhos começaram a se encher de lágrimas porque minha mente não aceitava o que meu corpo já havia aceitado.
Eu estou morto.
E foi no avançar brutal daquela coisa contra o meu corpo que eu me levantei sobre a cama, como quem emerge de águas profundas depois de muito tempo prendendo a respiração. Meu corpo estava tão molhado quanto, as pupilas dilatadas e o coração disparado naquela sensação de perigo iminente. Todas as frestas do quarto pareciam caminhos para Ele aparecer das sombras e terminar o que havia começado.
A presença dele ainda estava na minha pele, uma sensação fantasma, algo correndo dentro do meu sangue. A noite engolia o quarto, e não fazia frio. Fazia muito calor.
Tudo começou nesse dia em que eu tive um pesadelo com essa porta.
Uma porta metálica vinda direto do inferno para destruir a minha vida.
Eu não sei o que acarretou aquele sonho. Eu não sei por que fui escolhido. Acho que foi simplesmente por ter uma mente fraca, como Ele sempre disse. Ele sempre pareceu se divertir muito com o meu sofrimento e ingenuidade diante da situação. Talvez, se eu fosse uma pessoa mais forte e corajosa, nada disso teria acontecido.
Talvez eu realmente tenha minha parcela de culpa nisso tudo.
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ELE
HorrorHIM, sua majestade infernal é uma figura familiar para muitos, talvez tenha até um gosto de infância. Mas nesse conto slasher, ele usa do seu gosto por manipulação psicológica pra brincar com a mente das suas vítimas e levá-las a insanidade, tudo co...
