Capitulo 01

23 3 1
                                        

Allie

Eu sabia que muitas pessoas viviam um conto de fadas na faculdade. Eu, definitivamente, não era uma delas.
— Atchin! — Espirrei novamente enquanto procurava o livro que aquele imbecil de mecânica queria. — Hum... acho que não... oh, meu Deus. — Saltei quando uma barata do tamanho da minha mão passou pelos meus pés, mas me recompus imediatamente. — Hum... acho que o livro já está emprestado.
— Não é possível. Eu olhei no site. Ele não está emprestado há meses. — Ele balançou o pé impaciente. — Pode verificar?
Passei a mão no nariz, funguei e olhei para cima. Em segundos, imaginei minhas mãos fechando-se em sua garganta gorda, mas respirei fundo e voltei à prateleira.
— Pode ver de novo em qual prateleira está o livro? — Respirei fundo, tirando paciência de onde não tinha mais.
— Já disse, 3C.
Ok, eu já não tinha mais paciência.
— Não. Você disse 9A.
— Eu disse 3C.
A ideia de agarrar aquele pescoço gordo dele e esganá-lo nunca foi tão atraente. Rodo para o outro lado da biblioteca e empurro a escada silenciosa — ha-ha — em direção ao corredor onde ele estava. Subo os degraus impacientemente e começo a procurar o livro que ele queria.
Um, dois, três... achei.
Quando desci, ele estava, descaradamente, olhando debaixo da minha saia. O livro escapou da minha mão e acertou em cheio a cabeça dele.
— Ops. — Sorri, sem um pingo de arrependimento.
Saí sem esperar ouvir sua voz novamente. Infelizmente, ele reapareceu na recepção logo atrás de mim, colocando suas informações.
— Seu nome completo e o seu curso, por favor? — perguntei, pela força do hábito. Cada vez que a porta de madeira da biblioteca rangia e eu via seu rosto passar, dava vontade de correr. Ele era um dos idiotas que mais aparecia por ali. Eu nunca entendi como conseguia ler um manual de física de mil páginas em dois ou três dias. E seus pedidos? Sempre os piores livros para pegar.
— Martin Sullivan. Física Aplicada. — Apertei algumas teclas e esperei o papel sair da impressora.
— Assine aqui e aqui, por favor. — Apontei os locais para ele assinar e aguardei. — Você tem até 31 dias para devolver este livro. Caso não seja suficiente, pode pedir mais duas semanas.

Eu tinha meus truques para sobreviver na Brown. Um deles era trabalhar na biblioteca. Outro era vender trabalhos acadêmicos online. O problema é que, sem notebook — desde que o meu morreu afogado em café há um mês — até isso tinha se tornado um inferno. A internet do campus parecia conexão discada e eu passava mais tempo rezando para o e-mail ser enviado do que escrevendo.
O problema é que, como eu ganhava o equivalente ao programa da faculdade, eu precisava comer e algumas coisas a mais antes de colocar um notebook novo como prioridade. Minha mãe estava apertada demais para me ajudar naquela altura e achar um trabalho que aceitasse a instabilidade das minhas aulas era um inferno.

Mas eu daria um jeito.

Minha avó costumava dizer que eu sempre dava conta de tudo: não havia nada que eu fizesse que já não tivesse sido planejado antes. E era isso que eu estava fazendo agora. Eu estava precisando muito de uns saltinhos novos, umas botas, e até umas roupas novas de verão, mas isso teria que esperar. O outono já estava chegando mesmo.

────୨ৎ────

Permaneci lá até meia hora após meu turno, tempo suficiente para fechar um arquivo e enviar para o meu e-mail.
Minhas costas gritavam por socorro enquanto eu caminhava para o meu dormitório.
Gemi de tanta gratidão quando encontrei o meu quarto em mais absoluto silêncio. Eu precisava assistir um documentário para uma aula no dia seguinte e Sarah amava monopolizar a nossa televisão.
Eu até estava sentindo sua falta nas últimas semanas. Ela praticamente morava na fraternidade do seu namorado agora.
Assim que cheguei na Brown, dois anos atrás, Sarah foi aquela pessoa que me deu um pouco de esperança.

Entrei com as malas dentro do quarto e ela já estava lá, como se me esperasse.

— Ah, oi!! — Ela acenou exageradamente, como se eu não estivesse a menos de quatro metros de distância dela. — Estava começando a achar que eu ficaria sozinha a princípio. Deixei o quarto mais espaçoso para você. — Ela colocou as mãos em concha na extremidade dos seus lábios, como se contasse um segredo. — Soube que a gente foi uma das sortudas que ficaram nos melhores dormitórios.

Amor no GeloDonde viven las historias. Descúbrelo ahora