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Mais um ano em Nevermore. A mesma rotina insuportável, só que agora com um bônus de mau gosto: virei espetáculo. Alguns resolveram me tratar como se eu fosse uma celebridade trágica.
Mal atravessei os portões e já estavam me cercando - cartas, presentes baratos, tentativas de abraços que eu recusei com olhares letais. Fugi para o meu quarto. Estou trancada aqui há uma semana. Só saio por necessidade biológica ou burocrática. Pessoas drenam energia, e eu não sou fonte inesgotável.
- Vai mesmo passar o ano inteiro escondida como uma gótica reclusa? - provocou uma voz vinda da janela. Um gato deslizou para dentro com a naturalidade de quem era dono do quarto.
- Seria uma melhora significativa em comparação ao ano passado - respondi seca, sem erguer o olhar.
SN, acomodou-se na minha cama sem pedir licença.
- Saia daí - exigi.
Ela só moveu o rabo, insolente. Ficamos alguns segundos num duelo silencioso. Eu sabia que, por mais irritante que fosse admitir, ela sempre voltava a vencer esses jogos banais.
- Enid está te esperando no portão dos fundos. Disse que é urgente - SN avisou, já em pé. Andou até o espelho e, num piscar de olhos, assumiu forma humana. O brilho nos olhos não mudou.
Antes que eu replicasse, a vertigem chegou. Meu corpo não caiu, mas o mundo ruiu embaçado, como vidro molhado.
Uma visão.
Nela, estávamos nós duas. Próximas demais para o que eu consideraria racional. SN se inclinava, lenta. E o pior: eu não recuava. Não franzia a testa, não erguia a sobrancelha. Apenas... permanecia.
Então aconteceu.
O beijo.
Não havia drama. Nem hesitação. Foi certeiro, inevitável, quase natural. O calor que senti no peito não era bem-vindo, mas estava lá. Um incômodo eficiente, como uma faca nova.
A visão terminou de repente.
Abri os olhos. SN estava ali, me observando com um meio sorriso que eu adoraria apagar à força.
- Você ficou ainda mais pálida do que o habitual. Parabéns, achei que fosse impossível - comentou.
- Foi uma visão. - Respondi, afiada.
Ela arqueou a sobrancelha. - De quê?
- Não é da sua conta. - Cortei, e a frieza não era disfarce. Era defesa.
Meu coração estava acelerado, sim, mas não porque eu queria. Vulnerabilidade não é um luxo que eu me permito.
SN cruzou os braços, estudando-me como se soubesse mais do que deveria. Não sorri, mas parecia guardar uma vitória invisível.
- Vou ver o que Enid quer. - Anunciei, levantando-me.
Na porta, voltei o rosto por um instante. Ela ainda me encarava, atenta demais. Eu não devolvi expressão alguma - ninguém merece tanto.
Se ela suspeitava do que vi, que aproveitasse a dúvida. . . .
Os dias seguintes passaram iguais a todos os outros: aulas, olhares insistentes, e minha rotina meticulosamente planejada para evitar contato humano desnecessário. Fingir indiferença era fácil. Fingir que não pensava na visão... já não tanto.
SN parecia perceber. Não comentou nada, mas o olhar dela sempre ficava alguns segundos a mais do que deveria. Um incômodo constante, como uma sombra que insiste em acompanhar seus passos.
Foi só de madrugada, vários dias depois, que aconteceu. Eu estava sentada à escrivaninha, escrevendo. A escola inteira dormia, exceto eu - e, aparentemente, ela.
A janela rangeu. O som foi suficiente para me avisar que Petra estava de volta.
- Você não tem senso de horário. - resmunguei, sem levantar os olhos do caderno.
- Você não tem senso de descanso. - rebateu, agora em forma humana, encostada na minha estante como se fizesse parte da decoração.
Ficamos em silêncio. Só o som da pena riscando o papel. Até que percebi: ela não tinha vindo falar. Tinha vindo esperar.
Fechei o caderno devagar. Levantei, e caminhei até a janela, de onde a lua entrava pálida. SN me seguiu com os olhos, mas não disse nada.
- Se você continuar aparecendo aqui, as pessoas vão começar a achar que é bem-vinda. - falei.
- E você se importa com o que as pessoas acham? - ela provocou.
Não respondi. Dei um passo na direção dela. Depois outro. A distância desapareceu sem pressa, como se fosse inevitável.
Quando fiquei perto o suficiente, não houve discurso, nem hesitação. Eu apenas a beijei.
Foi lento no início, como se estivéssemos testando algo que já sabíamos de cor. Depois ganhou firmeza, segurança. Não havia estranheza, não havia dúvida. Era natural, inevitável - como na visão.
Quando nos afastamos, SN manteve o olhar fixo em mim, um sorriso quase invisível nos lábios.
- Então era isso que você estava evitando.
- Estava testando uma hipótese. - corrigi, fria.
- E o resultado?
- Inconclusivo. - respondi, mesmo com o coração acelerado.
Afastei-me, voltando para minha escrivaninha como se nada tivesse acontecido. Mas a verdade é que aquela madrugada já tinha mudado algo entre nós. E, por mais que eu tentasse negar, sabia que não era a última vez.