Para jovens estudantes que sempre tentam ser nota dez ou perfeccionistas como eu, essa é a minha história.
Eu me chamo Rebeca, e vou lhes contar o que me fez perceber que não deveria correr atrás apenas de notas.
Sempre fui perfeccionista na escola, meus pais me pressionavam muito, e nunca repararam como isso me deixava doente, houve dias em que mal comia ou dormia, porque estava refazendo uma tarefa pela oitava vez. Houve o dia em que desenvolvi uma úlcera no estômago de tanto me estressar por causa de uma prova em que não tirei nota perfeita, e houve o momento em que precisei ir para a terapia, porque tudo aquilo estava me destruindo.
Minha terapeuta dizia que eu deveria relaxar, mas... sério? Como? Lá estava eu, acordada às quatro da manhã, escrevendo a quadragésima sétima versão de um texto para uma bolsa de estudos, congelada de medo de apertar “enviar” por não estar perfeito.
E então algo engraçado aconteceu, minha professora me colocou em dupla com a única pessoa da turma que era o meu oposto: Matteo, ele tirava notas médias de forma consistente e não parecia se importar com isso, implorei para trocar de dupla, mas minha professora apenas sorriu e disse:
— Confie em mim, Rebeca, você ficará bem, pode até tirar mais proveito disso.
“Mais o quê? Mais úlceras?”, pensei, mas suspirei e voltei para minha carteira.
Na primeira reunião, Matteo rabiscou algo no nosso diário de bordo, virou-se para mim e perguntou:
— Então, Cérebro, quando quer começar o rascunho?
— Cérebro? — questionei.
Ele riu.
— Meu apelido pra você. Tipo as balas redondas.
Revirei os olhos e respondi:
— Depois de aperfeiçoarmos o esboço.
Comecei a criar um mapa mental detalhado para organizar o trabalho, ele riu ainda mais e pegou meu lápis, balançando na minha frente:
— Ei, Cérebro... chama-se rascunho por uma razão, o ponto é que não precisa ser perfeito.
Peguei o lápis de volta, encarei-o e disse, irônica:
— Sério? Obrigada pela sabedoria.
Ele apenas riu, totalmente tranquilo, enquanto me observava traçar cada detalhe.
Trabalhar com Matteo era como viver em outro universo, eu escrevia de forma metódica, e ele simplesmente colocava sentimentos no papel, éramos água e óleo.
Até que uma noite, durante uma reunião no Google Meet, ele me deu o maior susto da vida:
— Não se preocupe com o prazo, Cérebro, já enviei nosso rascunho.
A caneta caiu da minha mão, congelei, o ar ficou preso no peito, o pânico subiu como uma onda.
— Matteo... como assim enviou?!
Ele bocejou, minhas mãos tremiam no teclado, saí da reunião e tive uma crise de pânico no chão do quarto, pensei em contar para a professora, pedir para enviar um novo rascunho. “Isso seria o certo”, eu repetia, eu o odiava naquele momento.
Mas então chegou a resposta da professora por e-mail:
“É um bom começo, continuem assim.”
Li aquelas palavras dezenas de vezes, toda a tensão sumiu dos meus músculos, enxuguei as lágrimas, um bom começo, nosso rascunho imperfeito era... bom o suficiente, e o mundo não acabou.
A partir daí comecei a ver as coisas de outro jeito, Matteo poderia reprovar em uma prova e apenas dizer:
— Agora sei no que focar para as finais.
Enquanto eu chorava por um 9,5.
Durante nossas sessões de estudo, ele se candidatava a estágios. Enviava cinco candidaturas em uma hora.
— Mas você não personalizou cada carta de apresentação! — eu dizia, incrédula.
Ele apenas dava de ombros:
— Prefiro ter chances em trinta lugares, do que passar trinta dias em três candidaturas e acabar rejeitado do mesmo jeito.
— Mas você não vai ser rejeitado... — deixei escapar.
Ele sorriu, beliscou meu nariz e me encarou com aqueles olhos castanhos:
— Espero que não, mas o mundo lá fora não é perfeito, Cérebro.
E, como previu, em duas semanas tinha três entrevistas marcadas — incluindo uma na empresa para a qual eu ainda estava revisando meu rascunho, eu fiquei perplexa.
Mas então veio a noite em que Matteo levou o relaxamento longe demais, estávamos na biblioteca, e eu trabalhava na versão 48 da minha candidatura de bolsa, o prazo era no dia seguinte. Matteo apoiou o queixo no meu ombro, leu o rascunho em voz alta e disse:
— Isso está incrível. Envia.
— Não está pronto — respondi, olhando novamente para cada detalhe.
Ele pegou meu laptop, ergueu acima da cabeça, fora do meu alcance.
— Matteo! Devolve! Estou falando sério! — eu pulava tentando pegar.
Com a outra mão, ele clicou em enviar, A tela mostrou a mensagem: Candidatura enviada com sucesso.
— Pronto,agora pode dormir em paz hoje, Cérebro.
Eu estava em choque, as lágrimas caíram, e ele largou o laptop para me abraçar:
— Desculpa, só não queria que você adoecesse com isso.
Eu o empurrei, peguei o computador e saí correndo da biblioteca, não falei com ele por três dias, não porque estava brava, mas porque o medo me paralisava, passei dias checando meu e-mail, aterrorizada com a ideia de que diriam que minha candidatura estava incompleta ou mal feita.
Mas, uma semana depois, recebi pedidos de entrevista para a bolsa, minhas mãos tremiam. Abri a pasta de rascunhos: 47 versões nunca enviadas, foi como um soco no estômago, eu não estava aperfeiçoando nada, eu estava paralisada pelo medo de não ser suficiente.
Naquele dia, sentei e enviei todas as outras candidaturas.
Na semana seguinte, mostrei meu celular para Matteo: três rejeições e cinco aceites, ele afagou meus cabelos com um sorriso meio triste.
— Parabéns, Cérebro.
Antes que continuasse, segurei sua mão.
— Não vim aqui me gabar, vim agradecer,você estava certo.
Ele sorriu.
— Eu sei,desculpas aceitas, Cérebro.
Foi assim que conheci o homem que amo, hoje estamos juntos, e ontem foi aniversário dos nossos gêmeos. Sempre digo a eles:
“Seu pai é o meu coração, e eu sou o seu cérebro.”
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One-shorts
Non-Fictionaqui teremos várias one-shorts fictícias com pessoas fictícias, algumas motivacionais, outras de romance, e muitas de terror
