Sinto-me compelido a narrar o que vi e vivi, sem omitir detalhe, inobstante o nobre leitor possa sentir pavor ou ojeriza do périplo inusitado e profano no qual estive envolvido, inicialmente por escolha própria, depois atraído por forças que fugiram ao meu controle.
Tudo começou há aproximadamente 1 ano, no verão de 1987, quando eu e mais dois amigos flertamos com o demoníaco e fomos sugados por uma espiral de malignidade inigualável, da qual somente eu sobrevivi, tendo meus dois companheiros perecido no caminho. Por tudo que fizemos e lhes vou contar em minúcias, não só vocês não sentirão pela morte deles, como, muito provavelmente, julgarão que eu deveria ter tido o mesmo fim.
Isaque, Moabe e eu fomos amigos desde o jardim de infância e descortinamos os mistérios elementares da vida juntos. Aos 12 anos, fumamos nossos primeiros cigarros Marlboro. Aos 14, embriagamo-nos ao estado de inconsciência. Aos 15, levados pelo pai de Moabe, fomos ao prostíbulo e perdemos a virgindade no mesmo dia, com senhoras da noite do baixo meretrício. Aos 16 anos, após um pouco de prática, cada um com seu instrumento musical, formamos nossa banda. Isak era baterista, Moabe tocava guitarra e eu me encarregava do baixo e do vocal. Nosso gênero musical progrediu do hard rock, ao thrash metal e, finalmente, ao metal extremo.
A banda foi batizada, no princípio, de Snake Charm. Com a evolução da música, trocamos a denominação para Blood Brothers e, depois, decidimos que o nome mais adequado, pelo qual queríamos ser conhecidos e, quem sabe, atingir o estrelato, seria Festim Diabólico.
Dentro do metal extremo descobrimos a sonoridade tosca e crua do black metal, com seus vocais guturais diferenciados que soam como suplícios de uma criatura diabólica sobrenatural. Eu conseguia mimetizar os uivos profanos de bandas como Celtic Frost e Bathory.
O corpsepaint foi adotado por todos nós. Vestíamos exclusivamente preto e andávamos maquiados de preto e branco, imitando cadáveres, espectros ou criaturas das profundezas. Os colares de cruzes invertidas indicavam a quem prestávamos reverência.
Não foi surpresa que os familiares nos tomaram como seres estranhos, desequilibrados psicologicamente e se afastaram progressivamente de nós. A vida se resumia a nós três e a banda. Nos apresentávamos em locais decadentes por alguns trocados e bebida de graça. Meus dois amigos foram expulsos de casa por seus pais, que não queriam nada a ver com o que eles denominavam de "culto ao capeta".
Minha mãe, que se entregava à bebida e ao jogo desde as primeiras horas da manhã e vivia da pensão do meu pai falecido, talvez por já ser uma degenerada, acolheu as ovelhas negras que eram meus amigos.
E alguns meses se passaram sem que nossa banda recebesse muita atenção. Continuamos na rota da decadência de nossa cidade. Tocando para renegados, que pouco podiam pagar pelas apresentações. A bebida alcóolica se tornou nossa companheira inseparável, apesar de que não podíamos nos dar ao luxo de beber nada sofisticado. Embriagávamo-nos diariamente com a vodka mais barata que encontrávamos, normalmente servida em garrafas de plástico.
Em meio a esse contexto sórdido de uma existência niilista, na qual nosso "culto ao capeta" não tinha trazido nem fama, nem dinheiro, quando estávamos prestes a desistir da música, ocorreu o que, a princípio parecia ser a grande chance de estrelato. Após um show tão pífio quanto todos os que o antecederam, um homem circunspecto, de mais ou menso 1,90 de altura, de magreza esquelética, longos cabelos negros, tatuagens profanas espalhadas pelos braços e pescoço, barba falhada e uma aparência de quem não via a luz do dia há anos, se aproximou de nós.
O homem disse que queria ser chamado de Demon, recusou-se a dizer seu nome, porém apresentou seu cartão de visita. No cartão, todo negro, estava escrito "Demon" e logo abaixo "music producer". Nem um dado a mais.
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Black Metal
Short StoryNo final da década de 1980, três jovens mergulham nas sombras do underground musical em busca de identidade, glória e transcendência. Unidos pela devoção ao black metal, encontram uma figura enigmática que os conduz a uma experiência proibida - algo...
