Bielorrússia — Minsk. 2010
E o Janeiro chegou. Novamente, como de costume, mas desta vez, em território desconhecido e costumes distintos, multidão estranha e língua complexa. O vento cortava como lâminas invisíveis pelas ruas amplas de Minsk. O céu, pesado e plúmbeo, ameaçava mais neve, mesmo depois de uma madrugada inteira de flocos cobrindo as calçadas e os telhados com um manto branco e espesso. A estação central da cidade, com sua arquitetura imponente e de colunas grandiosas em estilo soviético monumental, erguia-se como um templo do gelo diante dos olhos de Maria.
Ela estava ali, parada na plataforma, envolta num casaco escuro que parecia incapaz de conter o frio que atravessava cada camada de tecido. Seus dedos, mesmo enluvados, doíam. As malas pesavam ao seu lado como âncoras, mas não tão pesadas quanto o que ela carregava no peito: a incerteza do que encontraria do outro lado da viagem.
Maria era uma figura que contrastava com o cenário ao redor. Negra, os traços do rosto marcados pela ancestralidade distante de onde agora estava, e o corpo volumoso, um pouco curvado contra o vento. Passava despercebida para alguns, mas arrancava olhares curiosos de outros — olhares nem sempre gentis, quase sempre desconfiados. Ainda assim, ela permanecia ereta, sem ceder ao desconforto ou ao silêncio que a isolava. Ela era estranha ali e estava ciente disso, não culparia ninguém por ter certa curiosidade.
O anúncio do comboio ecoou pelas colunas de ferro da estação como o chamado de uma travessia inevitável. Ao longe, os trilhos serpenteavam entre prédios de tijolos avermelhados e cúpulas de igrejas ortodoxas cobertas de neve. Uma cidade fria em sua beleza e em sua alma, pensou Maria.
Ela respirou fundo, sentindo o ar gelado invadir seus pulmões como agulhas, e então deu o primeiro passo em direção à porta do trem. Deixava para trás tudo o que conhecia, levava apenas o necessário e uma esperança silenciosa — a esperança de que, apesar do trabalho duro e da distância, pudesse construir algo novo, talvez até pertencer em algum lugar.
O comboio apitou, e Maria embarcou.
Horas mais tarde, o comboio serpenteava por entre vastidões brancas, atravessando planícies geladas, florestas silenciosas e vilarejos adormecidos sob a neve. Maria observava tudo pela janela, o rosto colado ao vidro gélido, os olhos fixos em um mundo que lhe parecia cada vez mais estranho. A urbanidade de Minsk dera lugar a uma paisagem rural quase deserta, onde o branco da neve era interrompido apenas pelo cinza do céu e pela presença de árvores nuas, como ossos negros contra o horizonte.
A estação onde desceu era pouco mais que uma plataforma esquecida pelo tempo. Um homem aguardava ali, de pé ao lado de um carro preto, alto e silencioso como uma sombra. Vestia um sobretudo e óculos escuros, apesar da luz opaca do dia. Não disse palavra quando a viu. Apenas pegou uma das malas e fez sinal para que ela o seguisse.
O trajeto até o destino final foi feito em silêncio. O carro avançava por uma estrada de terra coberta de neve compactada, cercada por cercas longas e árvores que formavam túneis naturais com seus galhos despidos. Após vários minutos, surgiram os portões de ferro, imensos, adornados por arabescos em formas espinhosas. Abriram-se automaticamente, e o carro entrou.
Diante deles, o terreno abria-se como um campo vasto e silencioso, pontilhado aqui e ali por arbustos disciplinadamente podados e caminhos de pedras que serpenteavam sob a neve rala. No centro de tudo, erguia-se a mansão. Era gigantesca, de arquitetura neoclássica, com colunas negras que contrastavam com o céu opaco, e janelas altas que pareciam espionar o mundo lá fora, o dono neste caso. Tudo ao redor parecia sufocado por uma paleta de cinzas: os muros, as árvores, até o céu parecia desbotado.
Mas havia algo ainda mais estranho — fileiras de roseiras escuras, quase negras, brotavam dos canteiros ao redor da casa. Suas pétalas tinham uma cor rubra tão profunda que pareciam beber a pouca luz do dia. Era a única cor viva ali, e ainda assim, não trazia calor algum. Ao contrário, havia algo ameaçador naquelas flores silenciosas.
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Coração Fora de Serviço
Romance❄️*8 em #possessivo 21.05.25 ❄️*1 em #plus-size 11.10.25 ❄️*9 em #militar 18.02.26 ❄️*19 em #interracial 29.11.25 𝟙𝟠₊ Antigo militar de carreira e actual guarda-costas pessoal de um dos mais influentes magnatas do país...
