Eu te peço, tira teus dedos da minha garganta;
Pois embora eu não seja raivoso ou violento,
Tenho em mim alguma coisa perigosa,
Que tua sabedoria fará bem em respeitar.
Tire as tuas mãos!
Hamlet, William Shakespeare
"Conversei com Alfred, e nós dois sentimos que você já avançou o máximo que pode com o ensino domiciliar dele. Hoje mais cedo a fundação Wayne fez uma doação significativa para a escola West-Reeveem em Metrópolis..."
"Escola particular? Você vai me mandar para uma escola particular?! Sem chances de eu ir! Eu poderia ensinar os neandertais lá!"
"Esta atitude é exatamente o porquê de você ir. Você é muito jovem para ser assim tão zangado. Qualquer falta injustificada e você está despedido, sem mais Robin."
Assim que iniciei minha jornada dos meios de adquirir conhecimento que tinha à disposição na mansão, descobri sobre a diversidade de assuntos existentes na biblioteca. Diante de mim páginas em abundância contendo fragmentos de mundos além do que me foi apresentado na Liga. Entre os documentos com que eu estava tão familiarizado, haviam livros que não possuíam o intuito de serem informativos ou educacionais. Algo que eu almejava mas nunca tive permissão para folhear.
Livros de capa dura, brochuras, edições de bolso e espirais de ficção, romances, poesia, autoajuda e biografias estavam à minha frente. Entre eles algumas revistas - prováveis de pertencerem a um dos Robins - e contos chamavam minha atenção. Os títulos e as capas vibrantes os destacavam dos demais. Curiosidade me atingia, mas não tinha tempo ou motivo para lê-los naquele momento.
Eu tinha um objetivo.
Mesmo não tendo certeza sobre o que precisava encontrar na imensidade das prateleiras para alcançá-lo, sabia que procurava uma resposta que me ajudasse a entender mais sobre o ambiente em que fui inserido tão abruptamente, e o que poderia ser esperado de mim nele.
Algo que me ajudasse a provar meu valor para meu pai e convencê-lo de que eu era competente, que com anos de ensino árduo com os assassinos e meses de aula com Alfred, não havia motivos para me mandar para uma escola. Já sabia mais que o suficiente.
Mas, se eu fosse suficiente ele não cogitaria fazer isto, e eu não estaria aqui, beirando o desespero procurando por uma saída.
Três horas haviam se passado. Em minhas buscas descobri que todos os grandes romances do mundo eram sobre os três maiores desejos e medos dos homens: Morte, dinheiro e sexo - ocasionalmente, uma baleia. E apenas isso.
Ao finalizar meus estudos, uma ideia me ocorreu. A coloquei em prática. No computador, redigido com toda atenção a possíveis erros de gramática e formatação, eu concluía um trabalho com informações acerca do que me havia sido ensinado nos anos que antecederam minha chegada a Gotham. Ele enfatizava com respeito como não havia nada de novo que, qualquer fosse o instituto de ensino escolhido pelo meu pai, pudesse me ensinar.
O trabalho escrito condizia com minha inteligência. Minha capacidade argumentativa não dava espaço para contrapontos. Ele era perfeito e depositei nele as esperanças de que viria a ser uma das provas de como podia expor e desenvolver meus conhecimentos, sem precisar de professores e do sistema.
Após ser impresso, o deixei com cuidado na mesa do escritório de meu pai, sem grandes apresentações, ele entenderia as minhas intenções com estes pedaços de papel. Talvez devesse ter feito uma versão em alemão, apenas para me gabar.
Mais tarde neste mesmo dia, Pennyworth informou que Bruce me esperava no escritório. Eu ainda estava esperançoso enquanto subia as escadas, meu peito ainda repleto de orgulho pela demonstração bem construída de minhas habilidades quando abri a porta. Conforme ouvia as palavras do homem sentado atrás da mesa saírem de sua boca, ambos os sentimentos foram aos poucos se esvaindo. Agora na sala apenas eu, ele e nossas falsas esperanças.
"Há mais sobre conhecimento do que apenas saber fatos, Damian" Meu pai dizia "Você já havia provado a sua inteligência e dedicação, mas a escola não está lá apenas para lhe ensinar sobre os livros que você memorizou."
Duvidei se ele chegou a ler todas as 117 páginas que estava bem em sua frente. Nada lá havia sido memorizado ou copiado, eram minhas palavras. Estava quase ofendido. "Quero que entenda que é importante para você estar em um lugar com crianças da sua idad-"
"Eu não sou uma criança" O lembrei, não pela primeira vez, tão pouco pela última.
Interrompê-lo no meio de uma frase nunca é uma boa decisão. Quieto o observei inquietar-se, inspirando rapidamente, expirando lentamente. "É um ambiente que vai lhe apresentar pessoas da sua idade, com interesses em comum aos seus, as aulas e trabalhos em grupo são de grande ajuda para a sua socializaç-"
"Não há motivos para possuo excelentes habilidades sociais" Minha desenvoltura, comunicação e civilidade podem ser exemplares, mas eu nunca fui muito bom em tomar decisões no calor de discussões..
"Damian!" Ele me repreendeu, e fez menção para que eu tomasse um lugar na cadeira em frente a sua "Eu entendo que você não é como as outras crianças, isso não é necessariamente bom." Me contive sobre o uso da palavra, e o modo como a frase ainda não finalizada machucava um pouco. "Sua rotina não deveria ser apenas treinamento, e sua vida não pode ser sobre violência. Nesta idade você não deveria saber o quanto a vida pode ser ruim e estar tão familiarizado com a morte."
A partir daí, passei a compreender mais os motivos de meu pai.
Visitamos as lápides no passado, lado a lado, compartilhando de um mesmo sobrenome. Assim como havia me contado, Bruce não tinha pouco mais que oito anos quando sua própria vida forçadamente mudou de trajetória e passou a orbitar em torno de morte e violência.
E a versão de mundo que tentava me apresentar não correspondia com o que realmente acreditamos e lutamos. Apesar de todo o discurso a respeito de diferentes caminhos da vida, ele não se fazia um modelo disto, e eu não havia sido criado para isto.
Tenho orgulho do meu passado, mesmo nas partes em que hoje em dia discordo do antigo Damian. Os motivos de meu pai são válidos, e paralelamente recusáveis ao não se mostrarem essenciais, sei o que posso dispensar e, relembrando uma das lições de minha mãe, parte de mostrar o meu valor é lutar pelos meus ideais. Abro a boca novamente para me defender.
"Quieto!" Ele ergueu a voz. Fechei a boca.
"Quero que vá para a escola para ter experiências normais. Para ter a chance de tudo aquilo que eu não tive."
Experiências normais. Quase ri. Não havia nada de normal em mim. Nunca haveria.
Mas permaneci em silêncio. Se Bruce Wayne queria tanto, eu lhe daria isso. Eu viveria a vida da maneira dele.
E no fundo, jurei que ele se orgulharia de mim.
"Não tenho dúvidas de que seu desempenho será exemplar, mas dou ênfase no que disse mais cedo. Qualquer falta, e você está despedido."
Custe o que custar.
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Quiet At Down
FanfictionEle era um soldado. Bruce queria um filho. A escola seria o começo de uma vida nova. Ou de um pesadelo ainda mais profundo.
