1ª Parte

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A praça de alimentação do Manauara Shopping estava lotada naquela tarde de sábado, repleta de vozes e risadas misturadas ao som ambiente das televisões exibindo videoclipes. Danyelli Afaia mexia no seu milkshake de morango distraidamente, fingindo prestar atenção na conversa dos pais enquanto sua mente vagava para outro lugar.
Fazia dois meses desde a última grande crise mágica-desde que ela, sob a identidade de Yun Youngmi, a super-heroína do k-pop, impediu que um Sol artificial incinerasse milhões de pessoas. Dois meses desde que lutou contra os agentes da organização inimiga e salvou o mundo mais uma vez. Agora, ali estava ela, sentada com sua família, como se nada tivesse acontecido.
- Dany, você nem ouviu o que eu falei! - resmungou sua irmã mais nova de braços cruzados.
- Hein? Ah, desculpa... o que foi?
- Você disse que ia me ajudar a escolher um álbum novo de k-pop, esqueceu? Ou será que está ocupada demais sonhando acordada com aqueles seus doramas?
Danyelli sorriu de leve.
Ela ajeitou os óculos de armação fina e deu um gole no milkshake, tentando se concentrar na conversa. Mas uma sensação incômoda percorreu sua espinha, como se alguém a observasse de longe.
Ela desviou o olhar discretamente, varrendo o ambiente com os olhos. Nada de incomum. Algumas famílias almoçando, adolescentes tirando selfies, funcionários de lojas andando apressados. No andar de cima, um segurança do shopping caminhava tranquilamente perto da sacada, parecendo supervisionar o movimento.
Os seguranças faziam rondas o tempo todo, ainda mais em um shopping tão movimentado quanto aquele. Não tinha por que se preocupar.
- E aí? Vamos logo? - insistiu, impaciente. - Quero achar um álbum do Stray Kids antes que acabe!
Danyelli riu, afastando aquela sensação estranha. Um momento normal com sua família era tudo o que ela queria agora. O mundo já tinha problemas o bastante sem que ela ficasse paranoica.
Um tempo depois, Danyelli foi experimentar algumas roupas numa das lojas.
Danyelli segurava algumas peças de roupa enquanto caminhava até o provador da loja. Seus pais e sua irmã estavam distraídos em outra seção, discutindo se um moletom combinava ou não com a irmã mais nova.
Ela entrou na cabine, pendurando os cabides no gancho ao lado. O espelho refletia sua imagem: uma garota comum, de cabelos castanhos escuros e olhos brilhantes, vestindo uma camiseta oversized de um grupo de k-pop e um short jeans. Quem a visse ali jamais imaginaria que ela era Yun Youngmi, a super-heroína do k-pop.
Enquanto experimentava um dos vestidos, a sensação de antes voltou-mais intensa dessa vez. Alguém estava observando.
Danyelli parou por um instante, ouvindo. Apenas o som abafado da loja e o burburinho de clientes do lado de fora. Ainda assim, um arrepio subiu por sua nuca.
Ela respirou fundo e balançou a cabeça.
Mas, quando virou para pegar outra peça, algo refletido no espelho chamou sua atenção. Uma sombra do lado de fora, imóvel, bem em frente ao provador.
- Calma, mãe! Eu já vou sair do provador - Danyelli deduziu.
- Você tá aí?... Alguém aí?... Youngmi, é você?... - Disse uma voz feminina que não conhecia.
Danyelli congelou.
- Youngmi? - a voz feminina chamou de novo, num tom baixo, quase casual, mas carregado de algo que a fez estremecer.
Seu coração disparou. Ela prendeu a respiração, ficando completamente imóvel dentro da cabine. Se não respondesse, talvez a pessoa achasse que tinha se enganado e fosse embora.
Os segundos se arrastaram. Nenhum som de passos indo embora.
Danyelli sentia o estômago revirar.
O silêncio se prolongou, tenso. Então, do lado de fora, a voz falou mais uma vez:
- Eu sei que está aí. E sei quem você é.
O coração de Danyelli quase parou.
- Não adianta ficar calada. Eu posso sentir seu cheiro, Yun Youngmi... - a voz continuou, agora quase sussurrando. - O perfume doce do seu xampu, com um toque de baunilha. O cheiro da jaqueta que você usou outro dia, ainda com um resquício de poeira mágica. E o suor, bem leve, porque você ficou tensa quando percebeu que estava sendo observada.
Danyelli sentiu um arrepio violento percorrer sua espinha. Isso não era normal. Quem quer que estivesse do lado de fora, não só sabia sua identidade, mas tinha um sentido aguçado o suficiente para percebê-la em um nível absurdo.
O pânico tomou conta. Esqueça ser discreta. Esqueça esperar que a pessoa fosse embora.
- PAI! MÃE! - ela gritou com toda a força, sentindo a garganta arder. - TEM ALGUÉM AQUI!
O silêncio do lado de fora durou apenas um segundo antes de passos apressados ecoarem pelo chão. O estranho estava indo embora.
Danyelli escutou o som da cortina de outra cabine sendo puxada, depois mais passos rápidos, e então... nada.
Segundos depois, sua mãe apareceu, preocupada.
- Dany? O que foi?
Ela abriu a porta do provador num impulso, ainda sentindo o coração martelar no peito. Mas quem quer que fosse já tinha desaparecido.
Danyelli abriu a porta do provador, ainda sentindo o coração disparado. Sua mãe a olhava com preocupação, e, atrás dela, seu pai e Marina se aproximavam às pressas.
- O que foi isso, Danyelli? - sua mãe perguntou, examinando-a dos pés à cabeça.
Ela hesitou por um segundo. Não podia contar a verdade. Não agora. Se falasse que um estranho sabia sua identidade secreta, seus pais poderiam querer chamar a polícia, ou pior, começar a prestar mais atenção nela.
Danyelli abriu a porta do provador e forçou um sorriso.
- Ah... foi um alarme falso. Achei que tinha alguém estranho aqui, mas me enganei. Desculpa o susto.
Sua mãe franziu a testa, cruzando os braços.
- Como assim, "se enganou"? Você gritou desesperada!
- Filha, tem certeza de que está tudo bem? - perguntou o pai, olhando ao redor com um olhar cauteloso.
- Foi só um mal-entendido, sério.
Mas era tarde. Ela podia ver no rosto dos pais que eles não estavam convencidos. Na tentativa de acalmá-los, só tinha conseguido deixá-los ainda mais preocupados.
E para piorar, a sensação de que estava sendo observada ainda não tinha ido embora.
O carro da família Alfaia deslizava pela avenida iluminada de Manaus, voltando para casa após um dia cheio no shopping. No banco de trás, Danyelli olhava pela janela, tentando afastar o desconforto que ainda sentia desde o estranho encontro no provador.
Mas agora não era só paranoia-era sua bexiga que protestava.
- Pai, pode parar num posto ou num lugar que tenha banheiro? Tô apertada.
Seu pai suspirou, mas assentiu.
- Beleza, vamos parar no próximo que aparecer.
Alguns minutos depois, ele encostou o carro em um posto de gasolina 24 horas. A loja de conveniência estava vazia, e o banheiro feminino ficava no fundo, um corredor estreito e mal iluminado.
- Quer que alguém vá com você? - perguntou sua mãe.
Danyelli forçou um sorriso.
- Não precisa, eu só vou rapidinho.
Ela saiu do carro e caminhou até o banheiro, tentando ignorar o arrepio que sentiu ao passar pela porta.
Danyelli sentiu o alívio momentâneo depois de esvaziar a bexiga, mas sua mente ainda estava inquieta. Desde o incidente no provador, aquela sensação de estar sendo observada não a abandonava. Ela abriu a torneira, deixando a água fria escorrer pelos dedos antes de ensaboar as mãos.
Então, algo gelado tocou sua pele.
Antes que pudesse reagir, um par de patas cobertas de pelos brancos agarrou seus ombros, e outra-forte e firme-tapou sua boca. Seu corpo inteiro travou.
Patas.
Não eram mãos humanas. Eram grandes, ásperas, com garras ligeiramente afiadas pressionando sua pele através da roupa.
Seus olhos se arregalaram, o coração disparado, tentando gritar, mas o som ficou abafado pela pata que cobria seus lábios.
- Quietinha, Youngmi... - murmurou uma voz rouca e levemente divertida atrás dela. - Se gritar, as coisas podem ficar bem complicadas pra você.
Danyelli se debateu, mas a força do ser era absurda. Seu reflexo no espelho revelou apenas uma silhueta alta e escura atrás dela e aquelas patas brancas segurando-a como uma presa.
Danyelli não pensou duas vezes. Abrindo a boca o máximo que pôde, afundou os dentes na pata que tapava sua boca com toda a força.
- AARGH! - a figura atrás dela guinchou, um som agudo e claramente canino, misturado a um rosnado furioso.
A pressão das patas afrouxou por um instante-e era tudo o que Danyelli precisava.
Ela se jogou para frente, batendo contra a pia, e girou nos calcanhares para encarar seu agressor.
O que viu fez seu coração gelar.
Era uma mulher alta, vestindo um casaco longo e escuro. Seus olhos brilharam de irritação enquanto ela lambia a própria pata ferida, franzindo o cenho.
- AAAAIIIIII!!! Você mordeu minha mão?
- Claro! Por que não faria isso?
- Inicialmente, eu quis falar contigo pacificamente, mas você não cooperou... Então a culpa é sua!
- Minha culpa? Você tentou me sequestrar!
- Tsk... Garota irritante. Eu tentei ser gentil.
Danyelli recuou um passo, o peito subindo e descendo rápido.
- Quem diabos é você?!
A mulher-ou melhor, o monstro-endireitou a postura, saindo das sombras e revelando seu rosto por completo. Agora, sob a luz fluorescente do banheiro, Danyelli pôde ver que ela não era humana.
Seu rosto era inteiramente o de um cachorro, coberto por uma pelagem branca e fofa, com olhos dourados penetrantes e orelhas redondas levemente caídas. Ela lembrava um labrador branco gigante, pelo menos para Danyelli, que não entendia nada de raças de cachorro.
- Certo, já que você tá esperneando tanto, vamos pular as formalidades - disse a criatura, cruzando os braços peludos. - Eu sou Dogaressa. E você precisa vir comigo.
Danyelli estreitou os olhos, o coração ainda disparado.
- Ah é? E por que eu seguiria um monstro labrador branco gigante que tentou me sequestrar no banheiro de um posto de gasolina?!
Dogaressa suspirou como se estivesse lidando com uma criança teimosa.
- Primeiro, eu não sou um labrador. Mas não importa. O que importa é que a Gabriela quer falar com você.
O nome fez Danyelli piscar de surpresa.
- Gabriela?!
- Sim, ela mesma. Aquela feiticeira encrenqueira que, sem você, teria morrido umas trinta vezes na última grande confusão mágica. Ela me pagou pra te buscar e trazer até ela.
Danyelli arregalou os olhos.
- Ela... te pagou pra ME SEQUESTRAR?!
- "Sequestrar" é uma palavra muito forte - rebateu Dogaressa, levantando as patas em um gesto inocente. - Eu prefiro "buscar de maneira nada sutil".
Danyelli sentiu uma veia pulsar na testa.
- Eu vou MATAR essa garota.
Dogaressa soltou um risinho canino.
- Primeiro, você tem que encontrá-la. Então... vem ou eu vou ter que te carregar?
Danyelli massageou as têmporas, ainda processando o absurdo da situação.
- Tá bom, beleza. Qual o jeito mais rápido de chegar até a Gabriela?
Dogaressa abriu um sorriso canino, mostrando presas afiadas.
- Carregando.
Antes que pudesse protestar, Dogaressa deu um passo à frente e, num movimento ágil, segurou Danyelli pelos braços e a jogou sobre o ombro como se ela não pesasse nada.
- AÍ, SUA MALUCA! ME SOLTA! - Danyelli esperneou, socando as costas peludas da criatura.
- Relaxa, Youngmi. Você queria rapidez, né? Então segura firme!
Antes que Danyelli pudesse retrucar, Dogaressa disparou para fora do banheiro, movendo-se com uma agilidade absurda. O mundo ao redor virou borrões enquanto a garota sentia o vento chicotear seu rosto.
- MEUS PAIS VÃO ME MATAR!!! - ela gritou, mas Dogaressa apenas riu.
- Não se preocupe... Depois dou um jeito neles
- Que?! Você não pode...!
- Não é o que tá pensando! Sou um monstro, mas não sou um demônio.
E, com um salto inacreditável, a criatura desapareceu com Danyelli sobre os ombros.

Pop Youngmi - 2ª TemporadaStories to obsess over. Discover now