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Acordei com o som dos galos e o cheiro do orvalho. A luz suave da manhã entrava pelas frestas da janela de madeira, e por um momento fiquei ali deitada, só ouvindo o vilarejo despertar. É curioso como o silêncio das primeiras horas tem vida própria. Até o vento parece andar mais devagar.

A cama estava fria do lado de Elias. Ele tinha partido três dias antes, como de costume. Quando ele vai caçar, sempre deixa a cama com um cheiro que demora a desaparecer. Um cheiro dele. Lenha, suor leve, terra e algo mais... algo que me lembra casa.

Levantei devagar, vesti minha roupa simples - um vestido de algodão claro - e fui direto até a cozinha. Acendi o fogo no fogão à lenha e pus a água para ferver. Preparei um pão fresco no dia anterior, então bastava esquentá-lo um pouco e bater a manteiga. Enquanto o chá esquentava, abri a porta dos fundos e respirei fundo.

Minha hortinha estava úmida do sereno. Os pés de alecrim, tomilho e hortelã estavam fortes. A couve crescia bem, assim como os rabanetes. A árvore de ameixas começava a carregar fruto. Sorri ao ver uma das frutas avermelhadas no galho mais baixo. Estava madura. Colhi-a com cuidado e dei a primeira mordida ainda de pé, com os pés descalços sobre a terra fria. Doce. Tão doce que fechei os olhos.

Depois do café, peguei minha cesta e caminhei até a casa da dona Elira. Ela tem os dedos tortos de tanto tempo costurando e, agora que a idade pesou, deixo que traga para mim os serviços mais delicados. Ela me entregou dois vestidos para ajustar e um para refazer a barra. Enquanto falava, seu gato pulou no meu colo, e ela riu.

- Ele sabe quem é boa gente - disse ela.

- Ou quem carrega cheiro de peixe - respondi, rindo também.

Na volta, passei pela mercearia para comprar farinha. Ali encontrei Nilo, o ferreiro, suando como sempre, e sua filha Rosie, que estava com as bochechas vermelhas de tanto correr. Ajoelhei para apertar sua mãozinha e ela me abraçou com força.

- Tia Anne, faz mais daqueles biscoitos com açúcar por cima?

- Só se você prometer que vai dividir com seu pai - brinquei.

Fiz ainda uma parada rápida na casa de Maren, que andava adoentada. Levei um caldo de legumes e um pouco de mel. Ela tentou recusar, mas insisti. Ela é uma mulher orgulhosa, mas há coisas que a gente dá sem que o outro precise pedir.

Quando voltei pra casa, o sol já estava alto. Pus as roupas para quarar, revisei os pontos do vestido de seda azul - que, confesso, me deu certo trabalho - e deixei o caldo esquentando com os legumes frescos da horta. Estava varrendo a varanda quando ouvi passos atrás da casa.

Assustei. Peguei o cabo da vassoura como se fosse uma arma. Mas então vi aquela silhueta familiar surgindo por entre os arbustos.

- Elias?

Ele sorria, mas havia algo de estranho naquele sorriso. Tinha sido embora há tão pouco tempo... Ele nunca voltava com menos de duas semanas.

- Voltei antes - disse, erguendo um saco pesado de caça nas costas. - Dei sorte no terceiro dia. Não fazia sentido ficar mais.

Corri até ele, abracei seu pescoço suado, senti o cheiro que tanto me fazia falta. Ele me apertou forte, como se tivesse se esquecido do toque do meu corpo. Sua barba roçava meu pescoço, e seu coração batia rápido, mais do que o normal.

- Que saudade, Anne - disse contra minha pele.

- Também senti sua falta... Mas por que tão cedo? Aconteceu algo?

- Só saudade - respondeu, com um olhar que parecia me devorar inteira.

Naquela noite, depois do jantar simples - carne assada com batatas e cenouras - ele mal me deixou recolher os pratos. Veio por trás, enlaçou minha cintura, beijou meu ombro nu com calma. Seus lábios estavam mais quentes do que eu lembrava. Elias sempre foi carinhoso, mas havia algo a mais agora... um desejo contido que explodia em cada gesto. Me virou devagar, olhou dentro dos meus olhos com uma intensidade nova.

- Você está diferente - murmurei, enquanto ele acariciava meu rosto com a ponta dos dedos.

- Talvez seja porque percebi, de novo, que não existe lugar no mundo mais certo do que esse - ele sussurrou. - Aqui... com você.

Nos beijamos. Primeiro com ternura. Depois, com fome.

Ele me carregou no colo como costumava fazer no início do casamento, e me deitou com cuidado sobre os lençóis. Seus olhos pareciam famintos. As mãos percorriam meu corpo com uma urgência respeitosa, como se cada curva minha tivesse saudade para matar. Seu toque era firme, mas terno. Seus beijos eram profundos, longos, como se ele quisesse me gravar na pele e na alma.

- Senti sua falta em todos os lugares - confessou, entre beijos no meu pescoço, nos meus ombros, no vão das minhas costas.

O calor entre nós crescia como uma fogueira acesa com pressa. As roupas caíram no chão como folhas no outono. E o tempo... bem, o tempo parou um pouco. Ali, só existíamos nós dois. Seu corpo encaixado no meu, seus suspiros entrelaçados aos meus. Foi amor e foi desejo. Foi silêncio e foi gemido abafado contra a almofada. Foi pressa de reencontro e a calma de pertencer.

Quando finalmente repousou ao meu lado, com o peito ainda arfando, me puxou para perto e beijou minha testa.

- Você... você é meu lar, Anne.

Fechei os olhos, encostada no peito dele, e tentei não pensar em como tudo nele parecia o mesmo - e ao mesmo tempo... diferente.

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DetalhesWhere stories live. Discover now