A sala de interrogatório era pequena, asséptica e fria.
Como deveria ser.
O som do gravador preenchia o silêncio com um clique sutil. À frente, um homem algemado se inclinava na cadeira como se estivesse ali por vontade própria. As correntes em seus pulsos não incomodavam. Seus olhos estavam fixos no agente à sua frente. Não com ódio, nem com medo. Com interesse.
Como quem observa alguém desmontar um quebra-cabeça sabendo que uma peça está faltando.
Spencer Reid mantinha os olhos no relatório. As páginas estavam cheias de detalhes que ele já havia memorizado: tempo médio entre desaparecimentos, localizações dos corpos, tipo de amarração, traços comuns nas vítimas. Cabelos escuros. Idades próximas. Perfis extrovertidos, abertos.
Mulheres que confiavam demais.
Ele sabia o padrão.
Sabia até onde o homem estava disposto a ir.
Mas não sabia o que vinha a seguir.
— Sabe o que gosto em você, doutor? — a voz rouca quebrou o silêncio com naturalidade desconcertante. — Você tenta parecer distante. Objetivo. Mas seus olhos entregam tudo.
Reid não reagiu. Apenas virou a página.
— Sete, não é? — o homem continuou. — Mas você sabe que seriam mais. Eu tinha uma lista. Meticulosa. Cada nome, cada rosto. Uma delas, inclusive, esteve perto. Muito perto.
Spencer levantou os olhos.
— Rachel Torres. — o nome saiu da boca do criminoso com a precisão de quem saboreia. — A que apareceu na coletiva. A que sorri demais. A que fala com todo mundo como se o mundo fosse um lugar bom.
Ele inclinou o rosto, como se quisesse captar alguma reação.
— Se eu a encontrasse primeiro, ela estaria no lugar da sétima. Acho que me divertiria bastante com ela.
Reid manteve o rosto neutro. Mas dentro dele, algo tremeu.
— Você não vai sair da cadeia tão cedo. Seus planos foram destruídos. E agora? — Reid disse, tentando manter a postura, mas a acidez de sua voz era nítida.
O homem sorriu.
— Agora eu espero. Erros acontecem, doutor. Falhas processuais. Juízes apressados. Nada disso é novidade. Você sabe. — Ele inclinou-se para a frente, e as algemas tilintaram suavemente. — Quando eu sair daqui, e eu vou sair, ela será a primeira.
Silêncio.
Não uma pausa.
Um vácuo de ar denso que fez o relógio na parede parecer mais alto do que qualquer palavra.
Reid não anotou. Não respondeu.
Só olhou.
— Eu sei onde ela mora. — O homem sorriu. — Onde ela compra o café. A loja de plantas onde ela para. A livraria do centro. Aquela sessão de ficção científica, sempre às quintas.
Spencer apertou a caneta com mais força do que deveria.
— Você está blefando. — ele disse, calmo. Profissional.
— Talvez. — o homem deu de ombros. — Mas vai correr o risco?
Mais silêncio.
Spencer se levantou.
O gravador foi desligado.
O relatório fechado.
No corredor, ele caminhou como sempre. Reto, contido, analítico. Mas a frase reverberava como um ruído interno que não cessava.
"Ela será a primeira."
Não era apenas mais um nome numa lista.
Era Rachel.
A mulher que tomava café com ele todos os dias.
Que o chamava de "gênio" com deboche carinhoso.
Que ria das próprias piadas.
Que deixava post-its coloridos em sua mesa com frases estranhas demais para ele entender — mas que o faziam sorrir.
Rachel.
Ele nunca pensou nisso como algo perigoso.
Nunca se permitiu pensar que o que sentia fosse mais do que conforto, mais do que companhia.
Mas ali, naquele instante, soube.
Sentia demais.
E aquilo... agora... era uma fraqueza.
Um risco real.
E o risco tinha nome, endereço, e andava todos os dias ao lado dele como se não fosse nada.
Dois meses depois, o aviso chegou:
"Foi solto."
"Processo arquivado por falhas técnicas."
"Ninguém sabe para onde ele foi."
E naquela manhã, quando Rachel entrou no escritório rindo de algo idiota que um estagiário disse, com o cabelo preso de qualquer jeito e um copo de café na mão...
Spencer olhou para ela como se já estivesse assistindo à cena de um crime.
KAMU SEDANG MEMBACA
Análise de Risco
Misteri / ThrillerRachel Torres é tudo o que um ambiente de investigação criminal costuma apagar: espontânea, gentil, solar. Ela decifra pessoas com o coração, mesmo trabalhando ao lado de quem aprendeu a fazer isso com distância e estatísticas. Spencer Reid é feito...
