"O Som do Silêncio" - 00

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A primeira coisa que Riven sentiu foi o cheiro de poeira metálica. Depois, o frio do chão. Em seguida, o zumbido baixo, quase mecânico, que preenchia o ambiente. Ele abriu os olhos lentamente.

Luz branca.

Tudo era branco. O teto. As paredes. As camas alinhadas. Pessoas começando a se mexer, confusas, grogues. O ar estava saturado de desorientação.

Ele já tinha estado ali antes.

Mas desta vez, ninguém sabia disso.

Número 001. Estava marcado em seu uniforme como uma cicatriz. A mesma cor, o mesmo corte. A diferença é que, desta vez, ele não era o mesmo homem que entrou anos atrás.

Riven se sentou, observando ao redor sem pressa. Rostos aleatórios, olhares aflitos. Gente tentando entender. Uns chamando pelos filhos. Outros xingando em desespero.

Então ele o viu.

Número 456.

Alto, cabelo ondulado caindo sobre a testa suada. Estava acordando aos poucos, coçando os olhos como se tivesse voltado de um sonho ruim. Quando abriu os olhos, Riven congelou.

Negros. Profundos. Olhos pretos que pareciam uma noite estrelada.

O impacto foi físico. Riven se encolheu levemente, como se tivesse levado um soco invisível. Por um instante, não era 456 quem estava ali — era Hope. Aqueles olhos tinham a mesma mistura de raiva, brilho e tragédia. Exatamente como na última vez que a viu.

Mas ele desviou. Respirou fundo. Enterrou isso.

Ninguém podia saber.

Ele nunca contou a ninguém que já esteve nos jogos. Nem que sobreviveu. Nem o que perdeu.

Principalmente, não sobre Hope.

A movimentação na sala aumentava. Alguém batia na porta de metal. Gritos nervosos começavam. A multidão oscilava entre pânico e negação.

— “Onde a gente tá?”

— “Isso é ilegal, porra!”

— “Eles sequestraram a gente?”

Riven ignorava todos. Seus olhos seguiam observando. Calculando. Lembrando.

Foi quando ela apareceu.

Alice. Número 123.

Ruiva, sardas leves, olhos verdes marcantes. O colar de ametista pendia em seu pescoço como uma lembrança preciosa. Ela se sentou na cama ao lado da de Riven, ainda massageando as têmporas, tentando clarear a mente.

— “...Que droga foi isso?”, murmurou. E então o viu.

Ela franziu os olhos, confusa.

— “Você já tava acordado?”

Riven assentiu com a cabeça, lacônico. Voz nenhuma. Só os olhos atentos.

Alice olhou ao redor. Estava tentando entender as regras invisíveis, como todos. Mas quando encarou Riven novamente, algo se suavizou em seu rosto.

— “Você não parece surpreso... Isso aqui não é normal.”

Riven deu de ombros, com uma expressão neutra.

— “Talvez eu só esconda melhor.”

Alice não insistiu. Apenas observou. E por alguma razão, sentou-se mais perto.

Ao fundo, 456 começava a discutir com um grupo de jogadores.

— “Vocês querem respostas? Olhem pra si mesmos! Devem até o próprio sangue! Acham que alguém se importa?”

A mesma voz ácida. A mesma angústia mascarada de cinismo. O mesmo brilho nos olhos. A sombra de Hope novamente diante dele.

Riven fechou os olhos por um segundo.

A voz dela, em sua memória:
>>> "Se tudo der errado, nós estaremos juntos em todos o momentos!" <<<

Ele se levantou da cama devagar, deixando Alice para trás, e encarou a multidão com a frieza de quem já sabia para onde tudo aquilo levava.

Os jogos ainda não haviam começado.

Mas para Riven... o pesadelo já estava de volta.

Squid Game in EUAWhere stories live. Discover now