Prólogo

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A tempestade castigava os céus como se o próprio mundo pressentisse a tragédia silenciosa que se desenrolava dentro da antiga casa de campos da familia Black. Os relâmpagos rasgavam o céu noturno, e os trovões sacudiam os vitrais da casa ancestral, enquanto os gritos de dor e raiva ecoavam pelos corredores.

Bellatrix Lestrange, deitada sobre uma cama de dorsal, arfava entre gemidos e gritos  impacientes. O suor escorria por sua testa, mas seus olhos não expressavam dor — apenas irritação.

Ao seu lado, Narcisa Black segurava sua mão com firmeza, mas sua expressão era tomada por uma angústia silenciosa. Ela via algo naquela criança prestes a nascer que nem a própria mãe conseguia enxergar

.— Empurre, Bella! — Narcisa dizia entre dentes, mais com medo do que com autoridade.— Que isso acabe logo... — Bellatrix rosnou, ofegante. 

— Maldição... eu devia estar ao lado do Lorde agora, e não parindo uma criatura inútil! Com um último grito seco e cortante, o som frágil de um choro rompeu o ar. Narcisa segurou a criança envolta em sangue e magia crua. Uma menina.

— É uma menina, Bella... — Narcisa sussurrou, emocionada. 

— Ela está viva. Forte. Bellatrix se virou com repulsa e desprezo, sem sequer olhar a filha.

— Jogue isso fora. A voz dela era fria como aço.— Ela só vai nos atrasar. O Lorde está em guerra. Eu não serei enfraquecida por uma maldita criança...

Narcisa estremeceu. Ela conhecia bem a irmã. Sabia que aquele desprezo não era momentâneo. Bellatrix não tinha espaço no coração — se é que ainda tinha um — para maternidade, amor, ou cuidado. Só havia fanatismo e fidelidade cega a Voldemort. Mas Narcisa não podia permitir aquilo.

Enquanto Bellatrix se virava para limpar-se e preparar-se para partir, Narcisa envolveu a bebê em um tecido negro com brasões antigos da família e a levou discretamente para o andar inferior. Ali, no santuário da ancestralidade Black, ela conjurou um feitiço antigo, guardado em livros esquecidos: um elo protetor de sangue, silencioso, que ligaria a criança a seu filho, Draco Malfoy. Era um feitiço de irmandade, uma conexão instintiva e mágica. Draco a sentiria se ela estivesse em perigo. Ela o sentiria quando precisasse de consolo. Era tudo o que Narcisa podia fazer.

Com a criança nos braços, ela atravessou a noite chuvosa usando uma capa encantada para não atrair a atenção dos trouxas. Esgueirou-se entre os becos trouxas de uma cidade qualquer da Inglaterra, até encontrar o orfanato. As janelas estavam acesas. Luz. Calor. Narcisa tocou a campainha e deixou a cesta com a menina na entrada  com  um bilhete . 

Antes de ir, abaixou-se e sussurrou, com os olhos marejados:— Seu nome será Victoria... Victoria Black. E um dia, quando o mundo for seguro e for a hora, você voltará para nós. E será mais do que sua mãe jamais sonhou ser. Ela desapareceu na escuridão sem ser vista. E Victoria foi acolhida por um mundo que não compreendia e que não lhe pertencia, marcada por um passado que um dia viria à tona como os raios no céu daquela noite .

Entre Luz e as TrevasWhere stories live. Discover now