Capítulo 1 - Sangue de Demônio

50 2 0
                                        


❝He who makes a beast of himself gets rid of the pain of being a man.❞

– Dr. Johnson


A lâmpada tremeluzia no teto do banheiro do hotel, iluminando os azulejos manchados de umidade. O vapor quente ainda subia do chuveiro desligado, espalhando uma névoa fina que embaçava o espelho acima da pia.

Vincent estava em pé diante dele, sem camisa, os cabelos recém-tingidos escorrendo tinta preta pelas laterais do rosto. O pigmento contrastava com a pele muito branca, quase translúcida, marcada por olheiras profundas e uma palidez que não vinha apenas da genética — vinha do que parecia ser falta de saúde.

Ele era magro, mas não frágil — apenas esguio. O tipo de figura que passaria despercebida em uma multidão, mas que deixaria um incômodo estranho em quem reparasse por mais de três segundos.

No braço esquerdo, marcas antigas se destacavam. Pequenos cortes cicatrizados que iam perdendo cor conforme subiam pelo antebraço — um mais desbotado que o outro, como se tivessem sido feitos em dias diferentes. O mais recente já se tornava uma mancha roxa tênue. Nenhum sangrava mais.

Ele passou a mão pelo cabelo encharcado, empurrando os fios para trás. O tom natural, acinzentado, ainda insistia em surgir próximo à raiz — um brilho metálico que aparecia sempre que a tinta começava a desbotar. Era o que o obrigava a repetir o processo toda semana.

Ele se afastou do espelho e atravessou o quarto em silêncio.

Em seguida, pegou uma camisa branca jogada sobre a cadeira e a vestiu devagar, sentindo o tecido frio contra a pele. Por cima, vestiu uma jaqueta preta de tecido grosso, gasta nas bordas e manchada em pontos que o tempo havia apagado a cor. Era grande demais para seu corpo — como se tivesse sido feita para alguém com o dobro do volume. As mangas encobriam parcialmente as mãos, e a barra descia até a metade das coxas, roçando a calça a cada passo. O capuz, forrado com um pelo cinzento áspero, era vestido por ele a ponto de sombrear ainda mais os olhos.

A geladeira barulhenta no canto zumbia sem parar, soltando pequenos estalos de vez em quando. Vincent a abriu com um gesto abrupto e pegou de lá de dentro uma pequena bolsa térmica.

Lá dentro, cuidadosamente alinhados, havia três frascos de vidro cheios de sangue. O líquido era espesso, quase viscoso, com um vermelho profundo que parecia se mover com certa densidade sob o vidro — como se ainda estivesse quente, ou vivo. À luz fraca do quarto, ele ganhava reflexos escuros, quase oleosos.

Vincent os colocou na mochila com cuidado, ajeitando entre os fechos. Depois conferiu os bolsos e puxou o zíper até o fim.

Antes de sair, se aproximou do armário espelhado, abriu a portinha rangente e retirou um pequeno frasco branco. Tirou uma cápsula azul de dentro e engoliu direto, sem água.

Então virou de costas, pegou a mochila e saiu do apartamento.

O corredor estreito fedia a cigarro velho e mofo. Assim que a porta da frente se abriu com um tranco, Vincent deu de cara com o vizinho do 304.

O homem segurava uma mulher pelos cabelos, rosto colado ao dela, gritando algo. A mulher chorava, tentando se afastar, mas ele a mantinha presa. Ao notar Vincent parado à porta, o homem congelou por um segundo.

— Tá olhando o quê, seu merda? — cuspiu, sem largar a mulher.

Vincent apenas o fitava. Os olhos vazios, fundos, imóveis. Nenhum traço de emoção.

O silêncio durou mais do que devia. O homem firmou o aperto na mulher e deu um passo à frente, peito inflado, como se esperasse algum tipo de reação. Mas Vincent nem piscou.

AlcaestoOnde histórias criam vida. Descubra agora