Capítulo 1

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Eu sempre odiei começos. Até porque, todo começo mente.
Eles carregam uma promessa que nunca se cumpre. De que dessa vez vai ser diferente. Mas escolas novas são sempre escolas velhas disfarçadas, cheias de olhares que pesam mais que a mochila nas costas.

O portão de ferro da Daehan High rangeu como se estivesse vivo - e talvez esteja mesmo. Um prédio alto, de janelas fundas, rodeado por muros pichados de nada. Tudo ali parecia planejado demais, limpo demais... como uma cena montada.

- Você é o novo aluno, correto? - perguntou uma voz doce demais pra ser confiável.

Eu só assenti, fingindo não ligar. Mas o frio no estômago não era somente nervoso. Era como se eu estivesse entrando num lugar onde coisas já aconteceram. Onde coisas... ainda acontecerão.

- Me chamo Choi Yeon-jun, prazer em te conhecer. Sou representante de classe. A diretora pediu para que eu te apresentasse a escola. Acredito que ela pensa que você tem cinco anos. Vamos?

Não respondi. Só concordei com a cabeça e fui atrás dele, como quem entra num lugar que não escolheu.

- Você parece legal. Espero que tenha uma adaptação boa e rápida nessa escola. Porém, infelizmente a sala é meio desunida. Se os olhares vierem pesados demais, só finge que não viu. É o que todo mundo faz.

Soltei uma leve risada nasal após o garoto terminar sua fala. Ele parece legal.

- QUEBRA DE TEMPO -

A manhã passou como um borrão de vozes desconhecidas, nomes que não gravei e olhares que duravam tempo demais. Tudo exatamente como Yeon-jun descreveu... Fascinante.

Quando o relógio marcou a última aula, um homem de blazer amassado e cabelo desalinhado entrou na sala como se tivesse esquecido que ali era uma escola.

- Boa tarde - disse, sem olhar pra ninguém. - Meu nome é Kim Nam-joon, sou professor de biologia e provavelmente vou traumatizar metade de vocês com as aulas que virão.

Algumas pessoas riram. Outras só fingiram.

- Corpo humano - ele continuou, rabiscando no quadro como se estivesse lutando contra ele. - É uma máquina eficiente, porém frágil. O coração é o órgão mais forte do corpo, o que mantém vocês vivos... até que alguém queira arrancar ele fora.

Fiz uma careta discreta.

- Com todo respeito, professor... - minha voz saiu antes que eu decidisse usá-la. - O coração não é o órgão mais forte. Tecnicamente, o músculo mais forte proporcionalmente é o masseter - o músculo da mandíbula. E o mais resistente é o útero.

A sala ficou em completo silêncio.

O professor, desacreditado, ergueu uma sobrancelha, me encarando pela primeira vez.

- Han Ji-sung, certo?

- Exatamente, professor.

Ele sorriu, meio intrigado, se sentindo ameaçado.

- Vamos ver até onde vai esse cérebro então, pequeno gênio.

Quando voltei a olhar pra sala, percebi dois alunos no fundo cochichando entre si, olhando diretamente pra mim. Custava disfarçar?
Um deles usava um casaco vinho com símbolo da escola e uma expressão que parecia... interessada. Yeon-jun tinha razão.

O tempo passou, assim como as aulas. Não demorou muito para que uma mulher baixa com roupas sociais e cabelo curto adentrasse a sala de aula.

- Boa tarde - disse sem olhar aos alunos, e indo diretamente a lousa. - Meu nome é Shin Na-ri, sou professora de artes e tentarei fazer com que vocês virem o Pablo Picasso de origem Coreana. - a mulher riu.

Sou desenhista, então fiquei tranquilo. Desenhar é meu segundo hobby, já que o primeiro é tocar guitarra ou compor músicas as vezes.

Sempre quis debutar em grupo para ser rapper, cantor e compositor.

Eu estava começando a anotar as palavras escritas na lousa, quando ouço meu nome vindo do fundo da sala. Lembrei do que Yeon-jun me disse e não dei bola. Não posso arrumar uma briga no meu primeiro dia.

- Irei passar um trabalho em grupo para hoje, aproveitando que temos duas aulas. E sem reclamações, por favor. - a mulher disse calmamente - Eu irei formar os grupos, por isso não quero que reclamem. Se eu autorizar a liberdade, a sala irá virar uma bagunça, e eu não permito isso em meu horário de trabalho.

Trabalho em grupo no meu primeiro dia de aula, ótimo. Não conheço ninguém a não ser o representante de classe.

O que eu faço agora? E se eu tiver que fazer dupla com alguém que não se esforça? Eu não quero ficar com uma nota ruim.

Me levantei e segui na direção da mulher de cabelo preto. - Professora - a chamei, esperando a atenção da mesma. - Eu sou novo aqui. Entrei hoje e não conheço nenhum deles a não ser o representante. - a professora sorriu e logo se virou, ficando de frente a sala de aula.

- Algum grupo se disponibiliza à fazer o trabalho com o Ji-sung? - a mulher disse aos alunos, que na hora ficaram em completo silêncio.

- O meu grupo, professora. - ouvi uma voz ecoar do fundo da sala.

- Ah, obrigada meninos. - a mesma se virou para mim - Você vai adorar eles, Ji-sung. Acredito que tenham mesma "vibe" que você. - ela disse sorrindo e se virando, voltando a escrever.

Eles incrivelmente pareciam interessantes. O jeito como agiam e falavam indicava isso. Gosto de observar o jeito como as pessoas se comportam. Mas não ache que sou um maluco por conta disso. Tenho muitos motivos pra ser chamado de louco, mas esse felizmente não é um deles, eu acho.

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Inspirações: "E o céu desaba - Billie Eilish"
Autor(a): Ailishii

"Heather | m&j"
Autor(a): minho_inteligente

Peço desculpas se conter erro de ortografia!!

O poder e a culpa | m&jWhere stories live. Discover now