Parte 1 — O Retorno a Santa Brígida
O céu de Goiás ardia em tons avermelhados quando o carro de Mateus Albuquerque cruzou a ponte de madeira que marcava a entrada de Santa Brígida. A cidadezinha parecia congelada no tempo, sufocada pelo mato fechado, cercada de serras e assombrada por histórias que ninguém mais contava em voz alta.
Dentro do carro, Clara observava as paisagens pela janela com olhos vazios. Ao lado dela, Lívia rabiscava distraída no caderno de desenho, como se o mundo inteiro existisse apenas entre os traços que escapavam do seu lápis.
Mateus apertou o volante. A estrada de terra os chacoalhava em silêncio, e ele tentava não pensar no motivo de estarem ali: a morte do pai, o fim de uma era, o peso de uma herança que ele nunca quis carregar.
A fazenda da família, chamada Boa Esperança, erguia-se em meio à mata fechada, com seu casarão antigo coberto de hera, como um organismo adormecido. As janelas estavam sujas, as trancas enferrujadas, e o cheiro de mofo misturado a madeira velha invadiu os pulmões da família assim que empurraram a porta.
— Que delícia... — murmurou Clara, abanando o ar com a mão.
Mateus sorriu, mas era um sorriso morto. Ele não pisava ali havia quase vinte anos.
Enquanto Clara limpava a cozinha e Lívia corria para explorar o quintal, ele foi até o galpão onde o pai guardava ferramentas. Lá dentro, viu o que já esperava: armadilhas de caça, facões, munição, coisas que lembravam um homem que havia se tornado paranoico nos últimos anos. Os vizinhos falavam de uivos na serra. De lobos. De assombrações.
Mas Mateus não acreditava nessas merdas.
Pelo menos... não ainda.
Naquela noite, a família jantou à luz de velas. Faltava energia elétrica no interior da casa — o gerador estava quebrado, e ninguém queria sair para chamar ajuda. O silêncio da mata era denso como névoa, e mesmo o som dos grilos parecia abafado. Lívia foi a primeira a dormir, enrolada em um cobertor no sofá. Clara e Mateus ficaram na varanda, bebendo café e tentando se lembrar de como era viver juntos, sem o peso da cidade entre eles.
Foi então que veio o primeiro uivo.
Longo. Lento. Agudo.
Os dois se entreolharam.
— Deve ser um cachorro — disse Clara, tentando disfarçar a tensão. — Um desses grandes, de fazenda.
Mateus assentiu, mas por dentro, algo se mexeu. Uma lembrança antiga, da infância. Algo que o pai dizia sussurrando, depois da cachaça: "Nunca olhe pros olhos do bicho. Ele vê dentro de você."
Ele não dormiu naquela noite.
No dia seguinte, o vizinho apareceu. Um velho magro, com chapéu de palha e cheiro de fumo. Chamava-se Zé Honório.
— Lamento pelo seu pai, Mateus. Foi um homem difícil, mas... sabia das coisas.
— Sabia o quê? — perguntou Mateus, sem disfarçar o ceticismo.
Zé não respondeu de cara. Ficou encarando a serra ao longe, onde as árvores pareciam mais escuras do que deveriam.
— Você ouviu, né? O uivo.
Mateus cruzou os braços.
— Cachorro.
— Cachorro não grita daquele jeito. Aquilo é bicho que anda só nas noites certas. A serra guarda coisa antiga, rapaz. E agora que seu pai se foi... ela tá acordada de novo.
Mateus deu uma risada curta e desconfortável. Mas Zé Honório não riu. Apenas virou as costas e foi embora, sem dizer mais nada.
Nas semanas seguintes, coisas começaram a sumir da fazenda: galinhas, cabritos, até ferramentas. O ar ficou mais úmido, mais denso. E certa noite, enquanto Clara tomava banho e Lívia dormia, Mateus ouviu passos no quintal.
Saiu com a espingarda em mãos.
A luz da lanterna cortava a escuridão como uma navalha. O mato se movia, mas o vento estava parado. E então ele viu.
Dentre os arbustos, um par de olhos amarelos.
Fixos.
Famintos.
Antes que pudesse reagir, a criatura saltou. Um borrão de pelos escuros e dentes. Mateus caiu para trás, a lanterna voou longe, a espingarda disparou em falso. Sentiu as garras rasparem seu ombro, rasgando a pele como papel.
Mas então... nada. Silêncio. Quando se levantou, sangrando, a criatura já havia desaparecido.
Ele cambaleou de volta à casa. Não contou nada a Clara. Disse que havia tropeçado na cerca.
Naquela noite, febre. Suor. Sonhos estranhos com florestas e sangue. O cheiro do mato mais forte que nunca. O gosto do ar mais metálico.
E os olhos...
Sempre os olhos, como se algo o tivesse marcado por dentro.
O que quer que estivesse na serra não era um animal comum. E agora, corria dentro dele.
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Lobisomem
Teen FictionMateus Albuquerque retorna à pequena Santa Brígida, Goiás, para assumir a fazenda da família após a morte misteriosa do pai. Logo, percebe que algo sombrio ronda a serra: a antiga maldição do lobisomem. Durante uma noite fatídica, Mateus é atacado p...
