O Gosto da Primeira Provocação

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O sol da manhã cortava o céu com uma luz dourada irritante demais para quem não tinha dormido direito. Nathan encostava na parede lateral do prédio da escola, com um copo de café gelado na mão e óculos escuros para disfarçar a ressaca da noite anterior.

— Tá um lixo hoje… — murmurou, olhando o próprio reflexo na tela apagada do celular.

Do outro lado do pátio, a vida escolar seguia normalmente: risadas bobas, gente tirando foto pro Instagram, casais de mãos dadas, gente estudando antes da aula... e lá no canto mais previsível, passando despercebido por todos, estava ele.

Lucas Freitas.

Camisa larga, calça jeans desbotada, mochila caída num dos ombros, fones de ouvido grandes escondendo metade do rosto. A cabeça baixa, o andar rápido como se fugir das pessoas fosse um esporte olímpico.

Nathan sorriu de canto.

"Tão previsível… e por isso mesmo, tão divertido de caçar."

— Aposta valendo, hein? — disse Caio, se encostando ao lado dele, com aquele ar debochado de sempre. — Um mês. Se você não fizer ele se apaixonar por você até o fim de setembro... você perde.

— E o que eu ganho se conseguir? — perguntou Nathan, mexendo o café com o canudo.

— O de sempre. Livre acesso ao meu carro durante um mês inteiro. E, claro… mais uma alma destruída pra sua coleção.

Nathan riu.

— Fechado.

Lucas caminhava pelo corredor, fingindo que o mundo ao redor não existia. As músicas no fone estavam altas, mas não o suficiente pra abafar as risadas de grupinhos populares que sempre pareciam fazer questão de rir mais alto quando ele passava.

Ele já estava acostumado.

O que ele não estava acostumado era com o que aconteceu logo depois.

Quando virou o corredor para ir até o armário, deu de cara com… ele.

Nathan Carvalho.

Encostado na porta ao lado, com os braços cruzados e aquele sorriso idiota no rosto.

— Bom dia, docinho. — disse Nathan, baixinho, como se a frase fosse uma provocação suja.

Lucas tirou um dos fones, devagar.

— O quê?

Nathan inclinou a cabeça, como quem olha um bichinho interessante.

— Eu disse: bom dia. Achei que a gente podia começar a se falar, sabe… criar um laço… — O olhar dele desceu até os lábios de Lucas, depois voltou pros olhos. — Ou você prefere continuar só me ignorando?

Lucas franziu a testa.

— E por que eu falaria com você?

Nathan soltou uma risada curta.

— Porque é inevitável. Mais cedo ou mais tarde… a gente sempre acaba conversando.

Lucas respirou fundo, claramente tentando manter a calma.

— Eu não sou como os seus outros brinquedos, Nathan. Nem perde seu tempo.

Nathan sorriu ainda mais largo.

— Hm… mas é exatamente isso que torna tudo tão divertido.

Lucas recolocou o fone no ouvido.

— Tenta outra pessoa.

E saiu andando, com passos rápidos, como se estivesse fugindo.

Nathan mordeu o lábio, satisfeito com a primeira provocação.

"Ele mordeu a isca. Vai ser mais fácil do que eu pensei."

A aula de literatura foi um tédio. Nathan nem prestava atenção. Passou a maior parte do tempo encarando a nuca de Lucas, duas fileiras na frente.

Enquanto a professora falava sobre "tragédias românticas", Nathan imaginava outras tragédias...

Como o olhar de Lucas se quebrando. O sorriso dele desmanchando. As lágrimas teimosas caindo.

Sim, ele era esse tipo de pessoa.

E no fundo… adorava ser assim.

Na hora do intervalo, Nathan se aproximou de novo. Não estava com pressa. Jogo lento era melhor.

Lucas estava sentado num canto do pátio, com um caderno aberto e um lápis na mão, rabiscando alguma coisa.

Nathan chegou por trás, agachou ao lado dele e sussurrou perto do ouvido:

— Sabe o que eu mais gosto de fazer de manhã?

Lucas gelou na hora.

— O quê? — respondeu, sem olhar.

Nathan sorriu como um predador satisfeito.

— Comer.

Lucas fechou o caderno com força, se levantando tão rápido que quase derrubou o banco.

— Você é um idiota.

— Verdade… mas sou um idiota charmoso.

Lucas deu um passo pra trás, com os olhos queimando de raiva.

— Você não vai conseguir. Não comigo.

Nathan levantou, devagar, olhando bem dentro dos olhos dele.

— A gente vai ver, docinho… A gente vai ver.

Enquanto Lucas se afastava, quase tropeçando nos próprios pés, Nathan ficou parado ali, observando.

O sorriso satisfeito nunca saía do rosto.

Primeira provocação feita. Primeira reação conquistada.

Agora... era só questão de tempo.

"E no final... eu ainda vou rir enquanto tomo meu café da manhã."

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