Com passos ligeiros, desço as escadas da estação escura do metrô. Eu iria apreciar essa chuva se estivesse em casa, mas cá estou eu, a fundo de uma estação velha de metrô sem energia. Eu tiro a minha mochila da caixa térmica que eu carrego, pego o meu celular e vejo a hora, são 02:14 da manhã. Pensando bem, não valeu a pena parar a merda do meu dia para ter comprado uma caixa térmica. Pelo menos eu vou conseguir levar as marmitas que a vovó faz para mim, e eu teria molhado a minha mochila e os meus pertences se eu não os tivesse colocado na caixa...tá, valeu a pena. Eu ligo a lanterna do meu celular, a chuva derrubou a energia do bairro onde a estação fica, mas vale bem mais a espera do que se molhar ainda mais indo para outra estação. Eu me sento em um banco, colocando minha mochila nas costas e respirando fundo, sentindo o leve cheiro de mofo da estação, é impressionante o fato de ela ainda não estar abandonada, deixo os meus pensamentos fúteis e idiotas vagarem pela minha mente, apenas para passar o tempo, até que eu sinto meu coração pular uma batida... ao sentir o braço de alguém envolver meu pescoço com força.
- Passa tudo, piranha! - eu ouço a voz masculina e jovial dizer...
O meu celular cai no chão e o ambiente fica em completo breu, ao sentir ele tentando tirar a minha mochila das minhas costas, eu já coloco meu queixo na curva do braço e antebraço do rapaz, apenas para não ser sufocada com o seu mata leão, eu pego o tecido de seu moletom firmemente em suas costas, me levanto e o jogo pro lado com toda a minha força, eu sinto ele soltar meu pescoço e ouço o rapaz cair no chão, fazendo um barulho alto, sem nem pensar muito, eu pego a coisa mais próxima de mim que é a caixa térmica, pego a tampa da caixa e com a borda, eu atinjo diversas vezes no que eu acho que é o rosto do rapaz até eu ouvir um 'crack', estranhamente eu não o ouço gritar...eu não o ouvi desde que ele caiu no chão, nem mesmo um grunhido ou respiração.A energia da estação volta, com as luzes agora acessas eu consigo ver a merda que eu fiz...a cabeça do rapaz tá rachada e seu nariz está quebrado, mesmo chocada com a cena eu não consigo parar de olhar, o rapaz tem pele branca salpicada de sardas e cabelos escuros e lisos em um corte 'mullet' desgrenhado e bagunçado, lentamente eu me abaixo e checo o seu pulso, óbvio, ele tá morto! Eu o matei! A minha respiração acelera, o suor começa a escorrer da minha testa; com os olhos marejados, eu pego o meu celular do chão, agora com a tela rachada, e começo a discar o número da polícia, até que meus pensamentos divagam novamente, mas agora contra a minha vontade. Eu olho para as câmeras de segurança, estão queimadas, provavelmente muito antes da queda de energia, tudo o que eu tenho, é um corpo de um homem, as minhas digitais no corpo dele provando que eu o matei e a minha palavra que não vale porra nenhuma...
Eu entro no metrô vazio, eu me seguro para não desabar em lágrimas ali mesmo, o lugar está sem ninguém, eu sei, mas eu quero chorar em casa, e depois que eu chorar, eu vejo o que eu faço com o corpo dentro da minha caixa térmica.
