PRÓLOGO

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Sirenes cortavam a noite com um lamento prolongado e estridente, serpenteando pelas vielas como espectros metálicos clamando por socorro. O bairro, usualmente silencioso e entregue à escuridão, agora vibrava com o ruído urgente dos pneus sobre o asfalto molhado. Ambulâncias e carros da polícia atravessavam as ruas estreitas com velocidade impiedosa, como se perseguissem o próprio presságio do infortúnio.

Seguindo o rastro do caos, chegou-se a uma cena de tal forma lamentável que qualquer alma de sensibilidade mínima sentiria o peso do horror enraizar-se no peito. Ali, à beira da calçada — banhado pela luz tremeluzente das viaturas — encontrava-se um jovem, não mais velho que vinte e poucos anos, prostrado ao chão como uma criatura quebrada.

Seus olhos, arregalados até o limite do pavor, transbordavam lágrimas silenciosas, enquanto sua boca, distorcida por um grito de agonia, não emitia mais do que um som grave, rouco e contínuo — como o sopro abafado de algo moribundo. Não era um clamor humano. Era o som do desespero mais cru, aquele que não encontra palavras.

Seu rosto estava marcado por arranhões profundos, feitos talvez por unhas em desespero ou por algo que o lutou com violência. As mãos tremiam, ensanguentadas. Suas vestes, encharcadas de um vermelho escuro, contavam a parte do horror que sua mente já não conseguia expressar. Havia sangue demais para ser apenas seu.

Mas o que acontecera ali? O que levara aquele rapaz à beira da dissolução mental?

Pouco depois, como sombras silenciosas, os agentes emergiram do prédio. Empurravam uma maca coberta por um lençol branco que ocultava por completo a figura deitada. O corpo ali presente — se é que ainda se podia chamá-lo assim — não deixava entrever rosto, sexo, ou identidade. Era apenas um vulto humano sob o véu da morte.

O que se via, no entanto, era o sangue.
Pelo chão, escorria em gotas que caíam com ritmo quase cerimonial.
Ploc... ploc... ploc...
O som gotejava como o pêndulo de um relógio macabro marcando os segundos finais de uma tragédia sem nome.

E ali, naquele silêncio posterior à tormenta, não restava senão a pergunta — muda, sufocante, inescapável:

"O que foi que ele viu?"

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