Eu não tenho problema nenhum com temporais. Pra ser sincera, eu adoro quando eles dão as caras porque é a desculpa perfeita pra não vim pra faculdade. Não me considero a pessoa mais sortuda e nem a mais azarada do mundo, mas hoje? Eu estou sendo particularmente humilhada pela chuva e ficando levemente estressada com as surpresinhas nada agradáveis que ela trouxe de brinde com ela.
Na previsão do tempo dizia claramente " Sol infernal pelo resto do dia!", só que assim que coloquei os pés pra fora do ônibus um dilúvio, e assim a competição entre mim e a chuva, porque fui idiota o suficiente pra acreditar que corria três ruas até a faculdade, antes da chuva. Aqui vai um spoiler: Perdi. Mas isso nem foi o pior. Quando finalmente estava chegando, um desgraçado passou voando com o carro e o rio que descia pela rua finalizou o banho me cobrindo com aquela água "limpinha".
Depois de xingar e amaldiçoar três gerações do motorista, consegui chegar à faculdade. Com a maquiagem escorrendo. E, é claro, todo mundo olhava como se nunca tivessem visto um palhaço assassino sair de uma tempestade.
E olha que normalmente eu venho com a cara pálida estilo Edward Cullen, mas hoje era um dia especial. Pelo menos pra mim e pra minha mãe. Foi por isso que decidi me arrumar um pouquinho. Dona Sandra, também conhecida como mãe, vive dizendo: "Não é todo dia que se faz 23 anos".... e cá está minha pobre alma no cantinho da lanchonete da faculdade parecendo um pintinho molhado. Eu até fui no banheiro, espremer as roupas até minhas mãos doerem e lavei o rosto estava fazendo o que dava até uns barulhos "suspeitos" vindo do banheiro PCD do lado me chamar atenção. Quando os gemidos começaram, saí correndo dali. Ou melhor, quase. Meus pensamentos intrusivos assumiram o controle e... eu voltei. Peguei a lixeira e taquei dentro da cabine onde estava o casal e sai correndo após cometer o crime, corri como se minha vida dependesse disso, porque dependia. Uma mistura de adrenalina, culpa e satisfação tomou conta de mim.
Apesar de toda " sorte" e dos burburinhos e cochichos dos outros universitários, consigo me sentir confortável agora que a adrenalina baixou. Embora indesejada, a chuva tem uma certa tranquilidade. Esse horário ainda não está lotado e a maioria do pessoal está nas salas de aula. E o mais importante: "eles" não estão aqui.
O campus da faculdade é bonito, arborizado, florido. Consigo ver os prédios cobertos por uma névoa fina, a chuva caindo mansa como se não tivesse terminado de destruir a minha autoestima. Minhas meias estão ensopadas e a lama nos meus novíssimos All Stars genéricos , além dos cadernos um pouco ondulados graças a essa cortesia da chuva.
Enquanto espero, me encolho no banco e observo a chuva pelas janelas de vidro da lanchonete, com um cafezinho morno em mãos e um salgado de R$7,00. Particularmente, acho um roubo, mas é isso ou arriscar pegar a gripe de vez pra chegar até a padaria mais próxima da faculdade... ou desmaiar de fome. E pensar que isso tudo aconteceu justo no dia em que decidi usar meu vestido recém-chegado da SHEIN me irrita.
."Não seria muito mais fácil trancar o curso de Letras e vender minhas artes na praia...?"
Mas o universo parece querer brincar um pouquinho mais com a minha desgraça e acabo de ver um "deles" entrar na lanchonete. E justo aquele. O com quem eu fanfiquei na noite passada. Esse aqui na verdade é o principal motivo de eu ter me permitido ser assaltada pelo salgado de sete reais.
Ele está com o capuz abaixado, guarda-chuva azul pingando no chão. Caminha tranquilo, como se estivesse em um videoclipe. A beleza dele permanece intacta. Como se a chuva tivesse decidido poupar aquele monumento humano. Conversa com a moça da lanchonete, e ela sorri.
"Como ele consegue ficar mais bonito ainda quando sorri?"
Park Jimin. Um dos alunos misteriosos que vieram estudar aqui perto da minha "house". Ele e o grupinho dele são o combustível das nossas fanfics. Misteriosos, educados e, claro, desaparecem antes mesmo das aulas terminarem. Eles são tudo o que uma fanfiqueira como eu precisa e ultimamente, os sete têm sido nossas motivações para vir estudar. Eu e minhas amigas, que antes preferíamos comer fora da faculdade, agora fazemos vaquinha pra comer aqui na lanchonete e... poder nos "motivar". Claro que não ficamos encarando. A gente reveza nas olhadas pra não acabar parecendo um bando de obcecadas. O que nós até que somos... mas ninguém precisa saber. Eu já tentei me aproximar deles, mas nunca dura muito, talvez eu não seja interessante para ...
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Filho Da Chuva
FanfictionSuly só queria sobreviver ao semestre enquanto lida com o fato de quase morar dentro da faculdade, ônibus lotado nos horário de pico, ansiedade, crise existencial... Mas aí ... ela caiu - literalmente - nos braços do seu crush misterioso e incrive...
