Quando o Mundo Queimou

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Capítulo 1 — Quando o Mundo Queimou

Meu nome é Heinor
Antes do mundo acabar, eu era só mais um garoto estranho tentando sobreviver ao ensino médio.
Agora... sou uma arma viva.

Ninguém sabe ao certo como tudo começou.
Talvez tenha sido o laboratório militar abandonado, ou a praga que escapou das geleiras com o aquecimento. O que importa é que, em questão de semanas, a civilização ruiu como um castelo de cartas. As ruas ficaram vazias. As casas, silenciosas. E aqueles que voltaram dos mortos... bem, eles não tinham nada de humanos.

Eu não deveria estar vivo.
Mas eu tinha algo que eles não tinham: poder.

Quando a primeira horda invadiu minha cidade, eu estava no telhado do velho supermercado, cercado. O medo congelou meu sangue, mas foi naquele instante que aconteceu. O chão tremeu.
Com um grito que parecia nascer das entranhas da Terra, estendi as mãos — e os mortos voaram para longe, esmagados contra os prédios como bonecos de pano.

Naquela noite, eu descobri que podia fazer muito mais do que mover coisas. Eu podia levantar voo.
Com o vento rugindo nos meus ouvidos, deixei a cidade para trás, prometendo a mim mesmo que, enquanto eu respirasse, eu não seria caçado como gado.

Eu seria o caçador.
.
Dias se passaram. Talvez semanas.
Eu aprendi a voar melhor, a carregar suprimentos nas costas, a mapear os lugares mais seguros para dormir. Mas a solidão era um inimigo tão perigoso quanto os mortos.

Foi numa manhã cinzenta, quando a névoa cobria a floresta como um cobertor sujo, que ouvi vozes.
Humanas.

Aterrissei silenciosamente num galpão destruído. Espiei pela fresta da porta quebrada e vi um grupo de sobreviventes. Uns dez, no máximo. Magros, assustados, armados com pedaços de madeira e barras de ferro. Havia uma menina — não mais velha que eu — com uma espingarda nas mãos e olhos que não pareciam ter medo de nada.

Meu coração bateu mais rápido. Eu precisava deles tanto quanto eles precisavam de mim.
Mas eu sabia que mostrar quem eu era podia ser tão perigoso quanto enfrentar uma horda.

Os humanos tinham medo do que não entendiam.

E eu era algo que eles nunca poderiam entender.

Eu me aproximei do grupo devagar, as mãos erguidas para mostrar que não era uma ameaça.
Eles apontaram as armas improvisadas para mim — olhos arregalados, cheios de desconfiança e cansaço.

"Me chamo Heinor," disse, com a voz rouca de dias sem conversar com ninguém. "Não quero problemas. Só... companhia."

A garota da espingarda, que descobri se chamar Maya, foi quem baixou a arma primeiro.
"Se quiser viver, siga as regras," ela disse. "Sem brigas. Sem roubos. Sem perguntas desnecessárias."

Eu assenti. Não seria difícil — esconder quem eu era já tinha virado um instinto.
.
Nos dias que seguiram, fiz o que pude para ajudar sem chamar atenção.
Quando os mortos se aproximavam, eu criava pequenas rajadas de vento para desviar o cheiro deles do nosso acampamento.
Quando alguma barricada ameaçava desmoronar, um leve gesto de dedos reforçava a madeira, como se fosse apenas sorte.

Ninguém percebia. E assim, aos poucos, eu deixei de ser "o garoto estranho" e me tornei "um dos nossos".

Uma manhã, enquanto o sol ainda era um rumor atrás das nuvens sujas, Maya me chamou.

"Estamos ficando sem comida," ela disse, apontando para um mapa rasgado sobre uma pedra. "Precisamos ir até a cidade vizinha. Pode ser perigoso. Você vem?"

Claro que eu iria.
O perigo era um velho conhecido — e eu não deixaria que eles descobrissem do que eu era capaz... pelo menos não ainda.

Partimos em três: Maya, Jonas — um cara forte e calado — e eu.

A cidade era um esqueleto cinza. Carros abandonados, lojas saqueadas, corpos apodrecendo sob a sombra dos prédios.
Nosso objetivo era simples: invadir o mercado e pegar o máximo que conseguíssemos carregar.

Parecia fácil... até que ouvimos o primeiro grunhido.

Uma horda se movia pelas ruas como uma maré negra. Centenas de mortos — famintos, rápidos, selvagens.

"Corram!" gritou Maya.

E corremos.
Só que Jonas tropeçou, sua mochila presa entre os destroços. Os zumbis estavam quase em cima dele.

Maya puxou sua arma. Eu soube, num instante gelado, que ela não teria tempo.

Então, num movimento disfarçado, estendi a mão como se estivesse tentando ajudar Jonas a se levantar.
Num segundo invisível, lancei uma onda de força  que empurrou o amontoado de mortos para longe — como se uma explosão silenciosa tivesse acontecido.

Jonas se levantou, atordoado.
"M-Mas... eles... caíram!" gaguejou.

"Deve ter sido o chão... instável," falei rápido, ofegante, escondendo minha mão trêmula.

Maya não disse nada. Só me olhou por um segundo mais longo que o normal — um olhar pesado, desconfiado — antes de acenar para seguirmos.

Pegamos comida suficiente para mais uma semana e voltamos para o acampamento, vivos.
E, naquela noite, pela primeira vez, eles me chamaram para sentar ao redor da fogueira.

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