O Dono do Morro

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Sexta-Feira 10 Janeiro

13:28 

O sol de janeiro batia forte no Rio de Janeiro, e o morro estava em festa. Mas não era festa de carnaval, não. Era festa de respeito. Falcão, estava no comando da Rocinha e todo mundo sabia disso. Ele não era o tipo de cara que se fazia notar, mas quando ele aparecia, todo mundo prestava atenção. Não precisava gritar ou fazer escândalo, sua presença falava por si só.

Falcão era o rei do pedaço. Não tinha quem o desafiasse, e se tivesse, a vida deles durava pouco. O morro era seu império, e a lei dele, a única que importava.

Davi E aí, Kaike, tá tudo certo? — perguntou Davi, com a voz grave e calma enquanto dava um trago no cigarro. Kaike, seu irmão mais novo e braço direito, vulgo Gavião, acenou com a cabeça. Ele era o tipo de cara que fazia o trabalho sujo, mas não reclamava. Kaike e Davi eram praticamente inseparáveis. E quem quisesse mexer com um, tinha que lidar com os dois.

Kaike: Tá tudo na paz, chefe. O movimento tá tranquilo. — Kaike respondeu, olhando ao redor, sempre atento.

Davi olhou para a favela lá embaixo. O movimento era constante, mas a calma no ar dava a sensação de que algo estava por vir. Algo grande. E, no fundo, ele sabia que seu reinado estava prestes a ser testado.

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Do outro lado da cidade, no asfalto de Ipanema, Ana Alice estava se preparando para mais um dia de faculdade. A casa dela era luxo puro — vista pro mar, piscina de borda infinita, tudo o que uma patricinha poderia querer. Mas, por mais que tudo fosse perfeito, ela não estava feliz. Nada ali a fazia se sentir viva.

Rebeca: Ah, Ana Alice, você sempre tem tudo, né? — disse Rebeca, uma amiga doida e sem filtro, enquanto as duas estavam a caminho da faculdade. — Você devia ir mais pra rua, explorar. Quem sabe até dar uns rolês na favela. Dizem que lá a adrenalina é boa.

Ana Alice franziu a testa.

Ana: Favela? Você tá maluca? Eu nasci pra viver com classe, não pra ficar andando por essas ruas de barro.

Rebeca riu, mas já sabia que aquilo era só fachada. Ana Alice tinha curiosidade, e isso ela via. Algo na favela a chamava, mas ela nunca teria coragem de admitir. Não ainda.

Era sexta-feira à noite e Ana Alice já estava se preparando para mais um daqueles jantares sofisticados com gente que falava demais e dizia muito pouco. Até que o celular vibrou com uma mensagem de Rebeca:

WhatsApp

Becca💕-  "Vamos pro morro hoje. Tem baile. Nada de restaurante chique, vamo viver de verdade."

Ana soltou uma risada, achando que era brincadeira. Mas não era.

Minutos depois, Rebeca apareceu em seu apartamento, com aquele olhar decidido que só ela tinha.

Rebeca: Você nunca pisou lá, Ana — disse, jogando-se no sofá com as pernas cruzadas. — Já tá na hora de sair da bolha. Conhecer o mundo real. Você vive cercada de luxo, mas tem medo de rua.

Ana bufou, cruzando os braços.

Ana: Medo? Eu só tenho bom senso.

Rebeca: Ah, por favor — Rebeca rebateu. — Você fala isso porque nunca foi. O baile é outra vibe. Energia, música, gente de verdade. E olha, nada daquele povo engomado puxando assunto sobre ações e viagens à Europa.

Ana: E o salto? — Ana apontou para os próprios pés. — Não vai combinar muito com "gente de verdade" escorregando na ladeira.

Rebeca: Você vai assim mesmo. Quero ver essa sua pose de rica resistir ao batidão.

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⏰ Last updated: May 11, 2025 ⏰

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