Melannie, Dona Amélie e Petúnia.

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A brisa, tal qual um sopro delicado delineava minha derme, acariciando e ouriçando gentilmente minha face que tinha certa caloria graças ao Sol matutino, são por volta dás 09 horas da manhã, o incessável "tic tac" do relógio da sala reverbera pela casa chegando até mim, assim como o som da vitrola que ecoava a voz doce de Carmen Miranda, movo meu pé no ritmo da música "O que é que a Baiana tem", tocando apenas a ponta do salto dele no chão enquanto eu mesma me estresso por me atrapalhar a concentrar no livro que escrevo, as palavras já estão tão embaralhadas na minha mente, quanto os fios do Novelo cor de rosa que minha Avó sempre deixa nas patas ágeis de Petúnia, uma gata filhote cinzenta que Dona Amelie, minha avó, insiste por dizer não ser encardida.

- É bom que já tenha feito o café, Nina, já que nem mesmo acorda mais a sua pobre avó!

Rindo um pouco eu levantei a cabeça para olhar para ela, que vinha com seu sorriso doce e a pequena capetinha em seus braços, me desfiz do conforto da cadeira de balanço imediatamente, levando para detrás da orelha poucos fios de cabelo que se soltaram do grampo, em poucos passos descalços cheguei até ela e agarrei a pequena gatinha, acariciando os pelos grossos de forma breve antes de receber um miado resmungando por ter afastado ela da "vovó dela". Enrosquei meu braço ao dela que estava coberto por um tecido fino de sua blusa, suficiente para a brisa matutina não a incomodar.

- É claro que fiz, Vovozinha', ou acha que apena sirvo para escrita e lhe incomodar? Aliás, foi a fera que chama de Petúnia quem não deixou que eu lhe acordasse, me atacou com garras e dentes pelo braço, temi por minha vida, acredita só?

- Não faça falsos comentários sobre Petúnia, ela é uma gatinha doce e feliz, apenas queria brincar, você é amargurada, Nina!

- Brincar, com unhas!?

Minha avó riu de meu drama, e eu me vi encarando seus olhos azulados que eram apertados pelas rugas de seu rosto ao rir, eu a levei até a cadeira, em frente á mesa, o cheiro do café fazia o coração reconhecer meu lar, tal como o pão caseiro que após toda a noite de descanso estava enfim pronto, servi a mesa e busquei manteiga, lascando a faca na amarelada e passando em uma fatia generosa do pão que fazia a mais velha salivar, entreguei para ela e endireitei seus fios branquinhos em um penteado rápido, onde deixei sua franja com ondas bonitas e prendi o restante em uma redinha, que se juntava á uma faixa de renda que logo seria coberta pelo chapéu que tanto amava, ainda estava de pijama, tal como eu, então me sentei enquanto arquitetava em minha mente uma boa roupa, afinal iriamos na igreja em breve, é dia de Missa, e Vovó não perde uma missa mesmo que a Guerra volte a acontecer. De repente, minha mente vaga pela cena do meu próprio livro, sobre um dos que já publicará, havia certo tempo, ainda recebia bonificações por ele, mesmo que muitos não aceitassem uma mulher ter escrito ele.

- Está desligada, pensando em algum rapaz?... Um que não seja de tinta, claro?

- Poderia ser menos mexeriqueira, vó...

- Ah, já tenho minha resposta... Como vai Rafael?

- Noivo, vó... De Elisa, a filha dos padeiros da vila florida, vão se casar em breve... - Meus dedos agarraram o bule de porcelana e inclinaram-no em direção da xícara de mesmo material, preenchendo até sua metade. Levei a xícara aos lábios e beberiquei o liquido. - Mas que infernos, estava quente...

- Olha a boca, menina, você não é um Marinheiro!- Minha avó só faltará me bater nesse momento, revirei os olhos pondo as mãos rente aos lábios. - Deve ser por isso que não arranja marido... Atrevida como é, Deus que me perdoe, mas é uma falha, criada como se fosse um rapazote de saias, acha que a vida é apenas seus livros?

Meus olhos desfocaram de sua imagem, de repente a sensação de estar alheia ao ambiente me consumiu, era como estar flutuando para longe dali, tal como quando se deita na superfície da água. Me levantei de imediato, afastando a cadeira tão brutalmente que a tal caiu, o barulho era horrendo aos ouvidos sensíveis pelo silêncio matutino, olhei a senhora á minha frente e senti meu rosto se esquentar por lágrimas, fraquejei e suspirei pesadamente por perceber isso. Maldito seja meu pai, que me educou, mas não me lapidou e nem me arranjou uma mãe para polir. De que me adianta ser um diamante, se não sou lapidado e polido? Sou apenas uma pedra.

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