Só assim podia ter acabado.
Mais uma noite fria e barulhenta nas altas e íngremes plataformas do pescoço da besta de metal "Cloud-A-Ton.", os ventos fortes do dia se esvaíram, deixando espaço somente para a gelada brisa da noite. Os sons de pôneis conversando e o ocasional disparo de alguma arma de fogo eram quase ensurdecedores. Mas você se acostuma depois de viver toda sua vida em uma cidade como essa, melhor do que a superfície, é o que todos dizem.
Subindo mais um uma seção de escadas enferrujadas pelo tempo, você enxerga a pacata taverna "Pescoço Longo". Localizada logo embaixo de uma das divisórias que a besta precisa para mover o seu pescoço durante as temporadas de observação.
A taverna pegou um ótimo lugar para se alocar, possivelmente, uma antiga sala de reuniões estratégica. Pelo menos é oque sempre foi teorizado baseado nos fios que se penduram no teto e a mobília que foi achada quando descobriram o amplo cômodo. Como algumas cadeiras acolchoadas rasgadas e uma grande mesa de carvalho no centro, junto com alguns pedaços de tecnologia pré-guerriana ainda não catalogados. Seria bom estudá-los se o idiota dono do lugar não tivesse desmantelando-os para a venda da sucata.
A frente da porta de metal tingida com um tom de preto havia algumas mesas vazias, e logo acima, um letreiro feito a partir de cortes de madeira mal recortados escrevendo "Pescoço Longo". Por fora, você conseguia perceber pouca movimentação dentro do estabelecimento. Talvez um ou dois pôneis sem contar com o taverneiro estavam lá dentro. O lugar tinha acabado de abrir, mas quem se importa? Você só quer encher a cara logo e voltar pra sua vida de merda.
Você perambula até a entrada, empurra a porta rangente com o seu casco e entra no lugar, quase tão deprimente quanto o resto da cidade. A iluminação do único fogo de tambor no canto da sala deixava o ambiente mal iluminado, porém, com uma temperatura um pouco menos congelante. Ótimo, realmente estava frio lá fora, só o que resta fazer é rezar por nenhum vazamento de gás nos canos misteriosos que tem em quase todo quarto da besta.
Assim que você entra e senta em uma cadeira, um unicórnio de pelo azulado sujo e crina castanha raspada grita do outro lado da taverna:
"Ei, ei! Não esqueça que você ainda tá me devendo pelo menos uns 2 pratos, panaca!"
Era a merda do dono. Você tira o seu casaco e o bota acima da mesa improvisada a partir de alguns pneus velhos e cobre sua cara com os cascos, deixando para fora um suspiro em alto e bom som.
"Eu disse que ia pagar até o final do mês, não disse?"
Você responde logo após levantar sua cabeça e encarar o dono da caverna. Sentando atrás do único pedaço de mobília que não parecia ter sido tirada do lixão... Em outras palavras, feitas por ele.
Ele cruza os braços, levantando uma sobrancelha antes de falar:
"E como planeja ganhar esse dinheiro? Mais alguma invenção maluca e inútil?"
Mas que babaca! Mal sabe ler e quer falar das SUAS criações? As mesmas que botou todo seu suor e esforço? Você estava furioso, mas não em um estado que te favorece. Logo, você só acena com a cabeça.
"Eu quero uma sopa de cogumelos e uma garrafa de cidra."
"A cidra acabou."
O dono da taverna disse com naturalidade. Isso obviamente te deixou desanimado, beber na taverna era quase a melhor parte do dia.
"Mas já? Você acabou de abrir, não?"
"Sim, mas o cara que me vendia a cidra não responde mais o rádio e aqueles dois potros já acabaram com a ultima garrafa."
Você vira a cabeça e se depara com dois potros, ambos descansando a cabeça sobre uma mesa enquanto roncavam e uma poça de baba se formava debaixo de suas bochechas. Talvez irmãos inconsequentes ou só órfãos de rua, era uma vista triste. Mas já estava acostumado.
"E a sopa, vai me falar que o cara dos cogumelos também morreu?"
"Ei! Ninguém morreu, tá? O cara da cidra pode ter perdido o rádio, sei lá. Mas sim, eu posso fazer a sopa."
Com isso dito, o garanhão pega uma toalha que descansava em sua bancada. Pendurando-a em seu pescoço enquanto se virava e trotava até uma porta logo atrás.
Enquanto esperava por sua sopa, você começa escutar distantes sons de metal batendo contra o metal, pegadas pesadas na superfície enferrujada das plataformas lá fora. Um ou dois pôneis, se tivesse sorte, talvez eles estariam somente usando algumas ferraduras. O uso de ferraduras não era uma coisa tão inconvencional, lutas eram quase uma coisa diária quando você mora em uma das partes mais pobres da besta.
Você olha para a porta, lá estava a figura de duas máquinas. Sua pintura era alaranjada com uma cabeça retangular que se afina até certo ponto, como um pregador de roupas, diversos pontos de entrada e saída de ar, um barulho constante de respiração áspera é emitido por tais pontos. Mais para o começo, uma led vermelha de cada lado, supostamente servindo como os seus "olhos". Qualquer idiota que já disecou um desses poneis de metal iam saber que o seus verdadeiros olhos ficavam na frente de sua cabeça.
Por obra do destino, o taverneiro sai de sua cozinha carregando em sua boca uma bandeja com seu prato logo em seguida. Colocando-a em sua bancada antes de notar a presença dos pôneis na entrada de sua taverna.
Vendo os dois, ele franze as sobrancelhas e seus olhos se estreitaram como uma lâmina, dando um pequeno passo para o lado.
"Ah!"
Com um ruído de estática seguido por um bip eletrônico, a máquina falou, logo em seguida entrando dentro da taverna enquanto seu parceiro esperava do lado de fora. O seu corpo era quase que completamente coberto por uma veste de polímero negro à prova de fogo com uma bandoleira de couro colada na costas da maquina. Carregando algum rifle roubado e alguns cartuchos. Não é comum ver uma dessas máquinas carregando uma arma tão ultrapassada, e isso chama sua atenção.
"Se não é o nosso grande companheiro da lei! Handy, não?"
Handy simplesmente acena com a cabeça, não tirando o olhar dos dois.
"Sabe, um certo passarinho me disse..." O pônei levanta um casco, botando ele contra o seu peito. "Que alguém que eu gosto muito estava falando por aí que eu roubava armas! Que horrível, não?"
Com o mesmo seguimento de ruídos característicos de um walkie talkie velho, o seu companheiro solta uma risada distorcida da porta.
Handy, por outro lado, abre sua boca como se estivesse prestes a falar algum argumento contra o dizer da máquina, mas por algum motivo decide ficar calado, brevemente olhando para de baixo de sua bancada e de volta as criaturas metálicas.
"Olhe só, porque não um acordo? Nós dois sabemos que o senhor não gosta muito de fazer a sua parte por esta linda cidade. Você deve alguns anos de impostos e outras taxas-"
"O que você quer?"
O robô é interrompido por Handy.
"Eu estava prestes a falar. Então, se não se importa. Gostaria de uma pequena doação de 250 bits, tenho certeza que pod-"
"Nem pensar."
Ele respondeu com firmeza, novamente interrompendo a máquina.
"Bem," A máquina solta uma boa risada. "Você não tem muitas opções, não é?"
A coisa olha para seu companheiro na porta, que agora entrava na taverna. Em sua bandoleira, também carregava um rifle... Mas puta merda, que rifle lindo! Era enorme, parecia tecnologia diretamente do império de Canterlot. Não me impressionaria se realmente fosse, já que o rifle tinha a cor branca como primária, característica comum entre as armas produzidas lá.
O barulho dos cascos metálicos acabou acordando um dos potros. Ele levanta a cabeça e ainda com os olhos meio fechados, percebe a presença dos dois. Como era de se esperar, a pobre criança se assustou. Provavelmente não estavam tão bem com a lei, nem crianças são dispensadas na cidade de Cloud-A-Ton.
Seu chifre estava cerrado, um de seus olhos parecia estar infectado por alguma doença. Deixando-os com um tom mais avermelhado do que o outro. Seu pelo, amarelo claro e uma crina verde tão clara quanto. Olhando para os maquinários com uma expressão de quem havia acabado de ver algo sobrenatural, ele começa a cutucar a cabeça de seu amigo com o seu casco, sujo e machucado.
"Handy, pen-"
De repente, uma rajada de chamas se forma do cano da arma de Handy, arma que ele havia pegado em seus cascos no curto período de tempo em que a máquina conversava com seu companheiro, era alguma arma improvisada. Antes que você se jogasse para trás com o susto, pode perceber que era feito a partir de peças danificadas de um carro. E julgando pela magnitude da explosão, talvez uma munição caseira. Ou quem sabe, talvez uma calibre doze.
O sangue do autômato se espalhou pela parede enquanto se atrapalhava pelo chão, quase toda a lataria de sua cabeça tinha sido danificada. Com certeza, todas suas câmeras e sensores foram a merda com tamanha explosão, sem muita demora, ele caiu ao chão ao mesmo tempo que seu, você conseguiu ouvir os dois potros correndo do lugar com suas perninhas desengonçadas.
"Reforços! Reforços!" O mecha restante gritou, seguido pelo som de estática e bip robótico. "Suspeito está armado e é perigoso!" A criatura com prontidão resgatou o grande rifle de sua bandoleira.
Com um chute, Handy vira a bancada de seu bar. Se jogando contra ela para fazer uma barreira entre ele e a horda de mecanismos que estavam por vir.
"Ei, Black Hooves, tá na hora de usar aquelas suas armas experimentais!"
Naquele momento você lembrou, acordou naquele dia cedo. Por volta das seis e meia da manhã. Comeu um pouco de ração de vaca, era o que o dinheiro comprava. As coisas não iam bem a meses na oficina, afinal, como lemos, nem todo pônei apreciava ou tinha dinheiro para comprar um carro ou uma arma artesanal nova. Todos viviam como catadores de lixo, usando qualquer coisa minimamente útil que achassem por aí.
Quase todo o resto do seu dia foi gasto trabalhando nos poucos pedidos que você tinha recebido, um carro e algumas armas para arrumar. Aparentemente, o dono do carro havia sofrido um acidente enquanto fugia de um "Tanque". A única parte danificada foi o motor, parte da lataria ficou amassada. Mas lá fora, isso era quase como um símbolo de status. Um símbolo de força.
As armas eram de problemas com ferrugem até balas presas em algum lugar dentro de seus mecanismos, uma delas estava praticamente serrada ao meio. Ficou para você o trabalho de arrumar uma forma de consertá-la sem um equipamento de solda.... No fim, não foi tão difícil, o vizinho foi caridoso o suficiente para lhe emprestar um pouco da cola que ele produzia em sua casa, ela tomou conta do recado.
Você fez duas pausas durante o dia, ainda tinha alguns projetos pessoais para terminar e outros para estudar. Seu próprio drone feito a partir de sucata dos túneis subterrâneos da cidade estava quase pronto!
No fim do dia, você ficou exausto. Mal conseguia aguentar olhar para um pedaço de metal sem sentir a superfície áspera da ferrugem esfregando no seu casco. E assim, tomou a horrível decisão de aumentar a sua conta no Pescoço Longo. Subiu até o ponto mais alto da área do pescoço e entrou no bar.
E assim que os sons da marcha metálica dos "FireFlies" começaram a ecoar do lado de fora, você havia trocado uma das suas armas com a de um cliente, trouxe o revólver enferrujado somente para poder botar medo em possíveis assaltantes. A mola daquela arma talvez nem conseguia mais se mover.
Você estava desarmado. Prestes a se deparar de frente com uma legião de máquinas sedentas por sangue fresco.
Será que Celestia ainda iria escutar suas preces? Só o destino iria te contar. Assim que o segundo disparo de Handy estourou em seu ouvido, você aceitou o que estava por vir.
Afinal, só assim devia ter acabado.
YOU ARE READING
Equestrian Blood: Pescoço Longo
FanfictionNas plataformas geladas e enferrujadas de Cloud-A-Ton, a taverna "Pescoço Longo" é um refúgio para os marginalizados de um mundo em ruínas. Lá, Black Hooves, um inventor falido e sonhador, busca esquecer sua miséria em meio a sopas aguadas e discuss...
