O pôr do sol invadia o ônibus azul com ousadia, os últimos raios de luz atingiam a carta nas mãos do rapaz, o qual estava sentado ao lado da janela. As palavras escritas no pedaço de papel sujo eram lidas com carinho mais uma vez. Elas eram especiais a sua maneira. Únicas. Insubstituíveis. Tais palavras ressaltavam suas maiores qualidades, seus defeitos — os quais não passavam de detalhes na visão do autor — momentos pífios, porém valorosos, e por fim... um desejo.
"Faça isso por mim, Wallace. Sei que não faria se não fosse o último desejo do seu velho condenado. Vá. Vá para longe, bem longe. Onde seu rosto não seja conhecido, onde não conheça as aventuras ou perigos que te esperam. Onde não terá as amarras do passado. Seja livre. Por mim... e por você.
Cazador cuidará de você no meu lugar.
De seu velho pai, Pedro."
Wallace abraçou a gaiola sobre suas pernas, a qual estava coberta por um pano preto. Suspirou lentamente deixando seu corpo recostar-se em sua poltrona.
— Nozes não... — a senhora ao seu lado murmurou.
Os cabelos brancos estavam presos em um coque e alguns fios entravam em sua boca, ela tinha rugas ao redor dos olhos que evidenciavam uma vida cheia de sorrisos, usava um casaco de lã verde e se aquecia com um edredom grosso de estampa florida. Wallace dobrou a carta e guardou no bolso interno de sua jaqueta jeans. Assim como o casaco da senhorinha sorridente, provavelmente, fora feito sob medida, a jaqueta dele fora a primeira peça de roupa que sua irmã costurara em sua vida. Tinha pontos errados e um braço maior que o outro, mas Wallace amava como ela tinha o cheirinho de casa.
— Chegamos! — anunciou o cobrador. Era um senhor cujos cabelos haviam o abandonado, tinha uma barriga que mais parecia uma segunda pessoa enxertada nele, e um bigode grosso e cinzento, que insistia em pentear com o pequeno pente de plástico amarelo — Lembrem-se de conferir todos os seus pertences antes de sair do ônibus — advertiu antes de tossir exageradamente alto, o que fez algumas das pessoas, que não estavam interessadas no procedimento padrão, o lançarem olhares preocupados.
Wallace levou suas mãos a bolsa tiracolo que carregava consigo, enquanto o velho cobrador o lançava um olhar curioso. Um de seus olhos era completamente cego pela catarata que ganhara nos últimos anos, já o outro olho preto analisava a pessoa de Wallace com interesse.
— Periquito? — inqueriu tossindo levemente.
— Como? — questionou Wallace, voltando seus olhos castanhos para o homem que agora coçava seu queixo duplo.
— O bixo na gaiola — esclareceu —, é um periquito?
— Falcão — elucidou retornando a conferir seus pertences.
— Você é bem... diferente rapaz — afirmou com certa vergonha e incredulidade.
— Sou só mais um passageiro comum.
— Não. É diferente sim senhor — alegou esfregando suas mãos grandes —, é a primeira pessoa que vejo viajar com uma gaiola, e sua voz é muito bonita rapaz.
— Obrigado, eu acho.
— Me lembra o locutor mais famoso dessa cidade, isso quando eu ainda tinha o costume de ouvir o rádio.
Wallace ergueu-se com seus pertences em mãos. Pela proximidade que se encontravam o velho homem foi obrigado a levantar seu rosto para olha-lo nos olhos.
— Sebastião — o cobrador ergueu sua mão direita oferecendo um aperto de mão.
— Wallace — retribuiu com um aperto forte e convicto que durou poucos segundos.
Sebastião entregou ao rapaz um sorriso sincero e simpático, o qual não fora correspondido. Wallace o abandonou esgueirando-se entre as pessoas que se amontoavam no minúsculo corredor, tentando ao máximo não tropeçar em nada, ou ninguém.
O sol já cedia lugar a donzela lua e suas acompanhantes estrelas quando Wallace conseguiu sair do veículo. O seu era o único ônibus de toda a rodoviária naquele horário. Haviam pouquíssimas pessoas além dos comerciantes costumeiros. A infraestrutura, como esperado, deixava a desejar. O piso tinha diversas rachaduras e era possível ouvir o ranger de um banco enquanto um garoto sentava e levantava dele. E não menos incomodo, o lugar tinha um cheiro de cerveja barata e bitucas de cigarro.
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Aço e Sangue: Consequências de um céu perdido
Ficción GeneralNo interior do Maranhão, em uma cidadezinha chamada Colinas, Wallace dos Santos busca um recomeço. Aço e sangue: consequências de um céu perdido. É uma história regional, de baixa fantasia, sobre arrependimento e a busca incessante pela melhora, o...
