Caro leitor, não é do meu costume escrever dirigido a alguém. Muito menos, fazê-lo em primeira pessoa, dada a informalidade que creio fazer parte – intrinsicamente ou não – dessa opção de escrita. Quando leio, gosto de ter a impressão de que estou recebendo informações na integra, impressão essa que os textos em primeira pessoa dificilmente conseguem passar, seja pela inexatidão da memória humana, ou a influência das emoções, desejos e anseios de seus autores sobre o que está a ser escrito. Entretanto também não é do meu interesse fingir que estive a par de todos os detalhes do que virei a transcrever aqui, e seria de uma injustiça pecaminosa narrar isto como se narra uma fantasia ou crônica, daquelas impostas por professores de português ou literatura no ensino médio, como referência para os estudos dos jovens e adolescentes dessa curta – mas não menos importante – fase de sua trajetória acadêmica (muitas vezes tão curta quanto).
Dessa forma, não encontrei maneira melhor para escrever algo que beira o absurdo, mesmo com a minha garantia – que talvez não valha muito – de que não minto, a não ser com relação a datas, as quais sou péssimo, senão escreve-lo em primeira pessoa e, tal como as informações aqui presentes são específicas demais para serem tratadas como triviais, as escrevo diretamente a você, que me é tão específico quanto.
Você deve me conhecer como Robert Rios, ou, como os meus alunos da universidade gostavam de me chamar, "Prof° R.R." – um apelido que, vez ou outra, trazia uma breve discussão quanto a origem dele e sua relação com o trava-línguas "o rato roeu a roupa do rei de Roma" (devo adiantar: nenhuma). Mas isso era meu nome na universidade, onde minha vida sucumbia ano após ano em uma falsa sensação de realização, quando na verdade eu só estava parado no mesmo degrau por anos, sem perceber que havia muito mais pra cima. As coisas mudaram quando eu decidi que sabia o bastante de psicologia, para me manter unicamente direcionado a repassar o que sabia a jovens que, cedo ou tarde, também encarariam a mesma escada que eu e ficariam tentados a deitar e sair rolando. Não que eu tenha feito isso, mas talvez seja a metáfora perfeita para a decisão nada comum de abrir um espaço em minha agenda e, após buscar distante um sonho de adolescência, me tornar detetive particular em busca de um pouco de adrenalina.
Bom, o que parecia um erro a princípio, pouco a pouco se tornou uma pequena bola de neve que caia comigo, do degrau em que eu estava estagnado até Deus sabe onde, crescendo a cada degrau e arrastando com ela o que podia. No início, meu trabalho extra se resumia a resolver casos extraconjugais, furtos de objetos de valor sentimental e um ou outro roubo de aspecto desafiador. Era fácil resolvê-los, mas eu fazia questão de demorar ao menos uma semana, não para ter uma resposta exata da resolução, mas para conseguir conhecer também meus clientes e pessoas próximas em seu âmago, assim como fazia com meus alunos na faculdade.
O que quero contar coexiste entre esses dois mundos, afinal, o que me levara a começar investigar assassinatos foi justamente o dia em que encontraram o corpo de um dos meus ex-alunos morto, em uma cidade não muito distante da universidade em que leciono. Mas do que isso: o fato de que ele parecia ser apenas um, dos mais de 15 jovens mortos pelo que parecia ser o trabalho de um assassino em série com a mesma habilidade que eu de postergar a solução dos meus problemas. Quando me dei conta, estava buscando respostas que eu saberia que nunca encontraria, afinal de contas, sem informações consistentes e o incrível "hiatus" do assassino, a resposta ficara no limbo.
Até hoje.
A verdade é que, isso foi há exatos 20 anos. Quando o ultimo corpo foi encontrado, a polícia mal havia divulgado metade das vítimas, algo que ficou impossível de manter graças a pessoa que encontrara o corpo do meu ex-aluno ser uma repórter que, antes mesmo da policia cogitar levar a publico a existência de um serial killer, a mulher já havia tirado dos mais lerdos as informações que precisava para a matéria do jornal que chegaria às minhas mãos no dia seguinte. Janice era perspicaz o bastante para deixar alguma cosia passar, e foi justamente com ela que iniciei minha investigação pessoal. Juntando o que Janice sabia, com o que a policia entregou, me dei conta que estava diante de alguém metódico, com interesse especifico em rapazes jovens, habilidoso com facas e muito provavelmente de infância difícil e solitária, a julgar por sua constante busca pela vitima que, no geral, eram jovens "emocionados" de acordo com familiares e amigos.
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ankh - Quando ele não está
Mystery / ThrillerUm professor de psicologia aposentado, que se tornou detetive particular, se vê envolvido em um jogo macabro de identidade e vingança quando um caso de assassinato o leva de volta ao seu passado e a um ex-aluno com uma conexão sinistra com um serial...
