01

17.8K 737 55
                                        

Nolan Blake

O mal mora em mim. Não como uma metáfora barata ou poesia de livro... ele realmente habita aqui dentro. Respira comigo. Cresce comigo.

É por isso que fui o escolhido para carregar a marca da besta, para viver com cicatrizes que não fecham e traumas que apodrecem devagar na minha mente. Há dez anos eu morri. O que anda por aí agora é só a sobra: uma alma suja, corrompida, mantida de pé pela violência que eu mesmo faço questão de alimentar.

Sou o Ceifador.

Um título honroso dado por quem não tem medo de nada nas ruas. Tudo começou em uma tarde chuvosa de setembro. E a chuva ainda cai aqui dentro.

Encaro o homem grisalho sentado na minha frente e sorrio. Um sorriso vazio, que só existe para provocar medo. A fúria ferve por trás dele como veneno. Eu odiava esse cara. Odiava a voz, o corpo, a respiração e, principalmente, essa mania nojenta de leiloar as próprias filhas.

— Nolan, escuta... minha bambina Chiara é uma moça linda e virtuosa. Ela vai ser uma boa esposa, vai te dar herdeiros. Não quis fazer com ela o mesmo que fiz com a Cecília... por isso esperei até ela completar vinte e um anos.

Nicolo Romano. Neto de um dos caras mais perversos da máfia italiana.

Depois que o avô destruiu o nome dos Romano em Palermo, ele fugiu para Chicago para recomeçar do zero. E, claro, para contaminar tudo ao redor. Hoje, os crimes de Nicolo cheiram a mofo, sangue velho e ganância. Eu não julgo. Amo a guerra, amo o estrondo do tiro, amo a carne quente escorrendo entre meus dedos. Mas, se eu pudesse escolher... Preferia ver esse velho jogado no chão, com os intestinos amarrados no pescoço e corvos rasgando os olhos dele.

Meu pai, Edgar Blake, sempre foi o oposto dessa mediocridade. Inteligente, frio, estrategista. Morreu sem saber que tinha selado o meu destino. Ele fez negócios com o Romano, e agora eu estava aqui, negociando um casamento que tinha mais cheiro de pacto do que de acordo.

Ajusto a máscara que esconde os meus tormentos e olho a foto da garota. Vinte e um anos. Inocência de mercado. Pureza empacotada. O Romano já tinha vendido a Cecília cinco anos atrás. Agora ela era brinquedo do Rafael Vassalo.

— Escute, rapaz... houve uma grande bagunça no passado, mas o nosso império precisa do seu auxílio logístico — Nicolo diz, tentando manter a pose de chefe.

O que ele realmente queria dizer era: "Meu poder está caindo, me salva."

— Para mim, vai ser uma honra ver você se casar com o meu tesouro mais puro — ele completa, estufando o peito cheio de orgulho.

Tudo o que eu penso é em como vai ser foda destruir a alma dela até arrancar toda essa pureza que ele inventou para valorizar o produto. Faz tanto tempo que não quebro nada "limpo". Ter uma noivinha entregue à minha fome parecia um presente dos infernos.

Ela era bonita. De um jeito irritantemente comum. Loira, olhos verdes, pálida. Corpo perfeito como uma vitrine e, portanto, sem graça. O que o Romano não sabia é que a história da Chiara estava longe de ser virtuosa. Mas isso tornaria tudo ainda mais saboroso: corromper o que já veio meio quebrado de fábrica.

— Romano, no futuro o senhor vai precisar de outra moeda de troca — disparo, com a voz abafada pela máscara. — Suas filhas acabaram.

Ele empalidece na hora. A raiva sobe na cara dele, mas ele engole em seco. Sabe quem eu sou e sabe que o ódio dele não muda porra nenhuma para mim.

— Trato feito! — ele diz, estendendo a mão trêmula.

Coitado. Ele não assinou um trato. Assinou um pacto de sangue que vai engolir todos nós.

O ar gelado bate na parte exposta do meu rosto enquanto alguns ratos atravessam o corredor escuro do galpão. Piso em um deles sem hesitar. O crânio estala sob a minha sola.

Ratos. Sempre comendo restos, espalhando doenças. As pessoas são iguais. Sujas. Podres. Doentes. E eu odiava cada uma delas.

— O senhor está pronto? — Porter, meu motorista, pergunta ao abrir a porta traseira do sedã preto, me entregando um bilhete com o símbolo dos Romano.

Pronto? Eu nasci pronto para destruir.

Entro no carro e dou um sorriso sombrio. O pacto estava em andamento, e Chicago ia queimar sob o meu comando.

Uma semana depois do almoço infernal com os meus futuros sogros, o meu estômago exigia algo além de sangue

Oops! This image does not follow our content guidelines. To continue publishing, please remove it or upload a different image.

Uma semana depois do almoço infernal com os meus futuros sogros, o meu estômago exigia algo além de sangue.

Chiara era... uma estátua. Gélida. Sem alma. Quando me olhava, o nojo brilhava tão forte nas íris dela que eu quase chegava a gostar da garota por causa disso. Ela era igual a todas as outras. Desinteressante. Mas o brilho nos olhos dela quando ouviu a palavra "bilionário"? Ah... ali ela mostrou a verdadeira essência. Uma alma barata.

Sim, querida: vou comprar a sua carne, a sua pele e o seu corpo. E depois vou te revender para quem pagar mais alto. Transações frias assim me excitam.

O "sim" dela no altar deveria ser estudado pelo tanto de medo disfarçado de obediência. Não nos beijamos; eu não desperdiço os meus lábios com coisas que não me interessam. Permito que ela aproveite a festa de casamento. É o último ato de liberdade que ela vai ter na vida, porque, assim que formos embora, ela vai pagar por cada pecado que jura que não tem.

A música irritante da festa da minha própria esposa me empurra para o lugar mais escuro daquela mansão: o escritório do Romano. Sento-me na poltrona dele, afundando no cheiro de couro velho.

De repente, uma silhueta sai do banheiro privativo do cômodo.

Eu deveria ter trancado a porra da porta. Eu sempre tranco as portas!

Ela caminha na minha direção com total naturalidade.

— Olá. Você deve ser o noivo.

A voz dela é uma mistura de uma leve rouquidão com vestígios de alegria. Duas coisas que definitivamente não pertencem a esse lugar. Não há zombaria no tom dela, e muito menos medo.

Ela estende a mão e acende a luz do escritório. No mesmo milésimo de segundo, eu sinto o meu corpo inteiro travar. O diabo trouxe o melhor demônio dele para me testar.

Cabelos negros. Longos. Sedosos o suficiente para eu me imaginar puxando cada fio enquanto ela me engoliria com a boca. O corpo de uma verdadeira ninfa revestido em puro desejo infernal. Porra.

Mas os olhos dessa mulher... Os olhos me ferraram por completo.

Um azul oceano. O outro castanho montanha. Anormal. Inebriante.

— Eu deveria ter chegado antes da cerimônia, mas o meu voo atrasou bastante... — ela diz, gesticulando como se estivesse explicando um absurdo qualquer.

E eu? Eu só a observo, estático. É o tipo de beleza que não deveria existir... o tipo de beleza que a gente inventa na mente e nunca acha no mundo real.

— Quem é você? — Minha voz sai áspera, cortante.

Ela sorri. Um sorriso limpo demais para um cara como eu. O tipo de sorriso que morreria no exato instante em que ela visse o monstro escondido atrás da minha máscara.

Mas por enquanto... Por enquanto ela era só minha no meu campo de visão.

— Alessia Romano. Sua cunhada.

E naquele exato segundo eu compreendi algo simples e devastador: eu iria matar o Nicolo Romano por ter me vendido a filha errada.

JUST PRETEND - Nolan ( Filhas Da Máfia )Stories to obsess over. Discover now