No meio de sua rotina monótona dentro de um lugar que nunca gostou, Dante tem sua vida virada de cabeça para baixo quando coisas estranhas começam a acontecer.
Em mais uma história da Família Teixeira, vemos o primeiro contato de Dante com as lendas...
Bem, ele já estava com muita vontade de ir embora daquele lugar. O que o prendia era a remota possibilidade de que um dia seu pai retornasse e tudo ficasse normal novamente, mas, claramente aquilo não ia acontecer. Que dizer, um dia o cara saiu dizendo que tinha que fazer uma viagem a trabalho. Depois, as notícias foram gradativamente diminuindo, até que se tornaram inexistentes. Só sabia de alguma coisa do pai de vez em nunca, quando seu padrinho comentava que ele estava bem e só estava com uma demanda muito grande. Nisso, quatro anos já havia se passado. Agora ele já tinha atingido a maioridade segundo a lei. Mentalmente também? Isso gera dúvidas.
Bem, algo podia ter acontecido certo? Vicente poderia ter sido sequestrado. Podia estar em apuros. Mas uma pessoa em apuros conseguiria se manter com seus pertences e permaneceria pagando as contas da casa e mandando dinheiro para a pessoa que ficou em casa'? É, acho que não.
Por isso ele decidiu ir embora. Não tinha nada que o prendesse àquela cidade, e já estava na hora de começar a construir sua vida.
Agora faltava a coragem para executar o plano. Veja bem, a teoria é uma coisa. A prática é outra. Ele enrolou por alguns dias. Depois uma semana. Um mês. Dois. Ele queria, mas sair da sua zona de conforto nunca é fácil. Pelo menos não foi, até que aquilo acontecesse.
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Ele estava refletindo as informações que o saci que havia capturado mais cedo tinha lhe dito.
Ok, isso tem que ser explicado melhor.
Tudo começou há mais ou menos três semanas. Depois de uma estada na sua casa, seu padrinho estava saindo em viajem novamente para alguma gandaia em sabe-se lá onde. Como, nem mesmo uma rodoviária descente aquela cidade provinha, o transporte usado era o bom, velho e, no caso de alguns motoristas, levemente duvidoso ligeirinho. Ele acompanhou o padrinho até a praça, lugar em que ficavam os transportes. Quando o doblô cinza saiu, ele voltou para casa. No instante em que ele abriu a porta, um redemoinho forte entrou arrastando para dentro de casa folhas, poeira e mais bilhões de coisas que redemoinhos poderiam arrastar no caminho.
Alguns dias depois, se tornou parte da rotina colocar todas as cordas do seu violão porque, por algum motivo, elas estavam invertidas. Encontrar açúcar no pote de sal e sal no pote de açúcar se tornou costumeiro. E Dante nem se surpreendia mais quando encontrava uma parte da comida faltando.
Ele podia acreditar que estava ficando louco? Sim, é claro. Mas acontece que ele foi criado por alguém supersticioso o suficiente para que aquilo começasse a lhe afetar. Outras crianças ouviam canções de ninar e contos de fadas para dormir. Mas ele? Ele era posto para dormir a base de Mistérios da Meia-Noite e histórias de saci e lobisomem. As mais assustadoras eram contadas em três situações: na quaresma; quando ele queria ficar enrolando para ir para a cama; ou nas duas situações juntas. Isso quando Vicente, aquele desnaturado, não fazia algo para assustá-lo no meio da noite como forma de lição por ter aprontado algo. Mas, tendo em vista que as lições que os pais de seus coleguinhas da escola davam aos seus filhos envolviam dores físicas, o que era um sustinho e uma possibilidade de taquicardia aos cinco anos de idade? Vicente não pegava, exatamente, tão pesado com os sustos, isso na concepção dele, mas uma coisa mínima consegue ficar três vezes mais assustadoras na cabeça de uma criança. Por isso, hoje ele não tinha medo de filmes de terror.