Quem dera houvesse um gulliter bem apimentado, como os de Ketora, bem ali... Bem ali, diante daqueles lábios famintos.
Um gulliter, ou cordeiro, uma pedra que fosse.
Astrid bateu com os pés na terra fofa, aborrecida. Eram três as rotas que ela deveria seguir diariamente em sua ronda entendiante e improdutiva.
Seguiu apenas uma.
Não havia nada novo. Jamais haveria algo novo, mesmo que, internamente, Astrid clamasse por uma mudança, só para variar.
O céu se mantinha intacto: azul; nenhum portal ou chuva de meteoros. A terra, chata e ancestral. Os rios e as folhas e os insetos e as estrelas...
Tudo perfeitamente perfeito.
Ah... Que verdadeira lástima.
Nada nunca mudava, exceto que vez ou outra alguma criatura atravessava para o lado proibido e tentava a dilacerar. As garras balançando, brilhando, como iscas em um anzol, ela o peixe, o tubarão. Por vezes, ela permitia. E mesmo quando o sangue borbulhante escorria por seu corpo, sensação alguma surgia. Nada mais que um pinicar.
Fora isso, os dias em Nidaros eram sempre os mesmos. Um loop imparável de rotina maçante.
Todo dia o mesmo dia, desde a manhã até a tarde e Astrid já tinha tudo decorado de cabeça: observar as barreiras da floresta, verificar se nada saiu ou entrou ou morreu, treinar e treinar até cansar.
Definhar em uma redoma mágica — amaldiçoada.
Às vezes, é claro, ela se encontrava questionando o mundo lá fora, coletando detalhes nas entrelinhas das histórias de Catarina e Ace, sonhando sobre como a sociedade devia ser.
Mas nunca, por pior que a solidão lhe golpeasse, considerara abandonar a função que lhe fora concedida. Aguardava — não tão paciente, apesar de tentar. Se policiava quanto ao tormento — pelo dia em que soariam as melodias de libertação. Ousava, apesar de temer que os deuses se irritariam com suas súplicas escassas de fé verdadeira, pedir aos céus que agilizassem o processo de livrá-la da labuta.
Ela quase podia vê-los revirar os olhos. Ou ao menos imaginava que o faziam. Talvez estivesse louca, pensava.
A mulher já havia saído, muito mais vezes do que lhe era permitido, mas mesmo longe do dever nunca realmente abandonava a vigília. E quando não estava pensando em vigiar, ansiedade e medo de ser capturada pelos Guardas Reais e seus repugnantes cães faremi a preenchiam.
Desde quando esteve na maldita Corte Aurora — que de solar só tinha o nome —, para fazer o Juramento do Exalto, incluíra em suas preces diárias, que praticava fielmente, que todos aqueles cães horrendos morressem sufocados em sua própria merda. Que pessoa idiota obrigaria uma garotinha de sete anos a adentrar o submundo canino? E que faremi concordaria em trabalhar para os iluminados? O lobo Fenrir com certeza era fichinha perto dos ferozes servidores do antigo Rei Narion.
Ah, Narion... Quando Astrid soube de sua morte, comemorou com sua primeira bebedeira. O homem que obrigara seu pai, um soldado fiel do Esquadrão da Névoa Uivante — o mais alto esquadrão a servir a realeza, formado pelos melhores soldados do reino —, a entregar sua única filha a uma vida isolada da sociedade e que cuspira na face infantil quando a menina se recusou a repetir as palavras absurdas do Exalto.
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A Víbora Vermelha e a Queda dos Tronos
FantasySurgem novas ameaças aos cidadãos de Marzena, um novo Tributo aos Cósmicos. Com o sonho se enevoando cada vez mais, e o Véu dos Reinos se desfazendo a cada dia, a Guardiã de Nidaros se vê em um dilema: cumprir o cruel dever para o qual foi feita, cr...
