Um romance sobrenatural, cheio de mistérios, que vai te deixar arrepiado.
¬ Novos capítulos todas terças, quintas e sábados. (em princípio, pois a meta é postar todo dia)
Oops! This image does not follow our content guidelines. To continue publishing, please remove it or upload a different image.
Oops! This image does not follow our content guidelines. To continue publishing, please remove it or upload a different image.
Além
A Última Luz
I
O fim do mundo
Não é a estrada que leva ao fim do mundo.
É a memória.
Chovia muito. O carro seguia devagar pela estrada, uma linha escura cortando o temporal que batia na lataria como martelos invisíveis. A tempestade caía em ondas pesadas, ensopando a noite, borrando o mundo lá fora e deixando o vidro embaçado como uma tela de memórias turvas. Tinha a sensação de que estávamos nos mudando para o fim do mundo... e o céu parecia sentir isso, como se quisesse refletir o caos que morava dentro de mim.
Encostei a testa no vidro, sentindo o frio que atravessava o vidro e subia até os ossos. A paisagem rural surgia em manchas cinzentas, esmaecendo aos poucos entre os borrões da chuva. Mamãe dormia no banco de trás, entorpecida pelos remédios; a respiração dela era irregular, baixa, quase um sussurro, e cada suspiro parecia puxar meu peito pra dentro do corpo dela. Um nó subia na garganta, apertava meu peito, e minha respiração falhava por alguns segundos, deixando o ar gelado do carro queimando minha garganta.
Eu ainda não consigo acreditar que estamos deixando tudo pra trás: escola, amigos, os parentes que sobraram, todos os sonhos que tinha planejado. Era como ver minhas escolhas sendo empacotadas junto com as malas, jogadas no banco de trás, e a sensação de vazio me gelava por dentro. Um frio úmido subiu pela espinha, trazendo arrepios e um peso que esmagava meu estômago.
Também deixávamos o século em que nasci, cheio de tecnologia, conforto e barulho humano, para morar numa casa no meio do nada, um ponto esquecido até pelos mapas. Um lugar tão longe da civilização que o silêncio parecia ter cheiro, um aroma metálico da chuva misturado à madeira molhada. Pensei no celular que não pegaria sinal, na internet que sumiria. Haveria só um telefone via satélite, "só para emergências", disse meu tio. Só ouvir aquela palavra fez minha garganta apertar ainda mais.
Mamãe virou tecnofóbica por causa do pânico. A doença corroeu cada parte do que sobrava da sanidade dela. Belinda não podia ver aparelhos eletrônicos sem entrar em colapso. Quanto mais moderno, mais explosivo se tornava. Já teve crises por causa do celular que esqueci na bolsa; entrou no meu quarto e ateou fogo no computador enquanto eu usava o banheiro. A pior, pra mim foi quando ela invadiu o quarto da empregada com a vassoura em punho, gritando sobre "a caixa do capeta". Eu sentia o coração pulsando acelerado, o suor frio escorrendo pelas costas só de lembrar da cena.
Diversas vezes tivemos que arrastá-la para a ambulância. Internada. A clínica era do tio Roger, o que dava um alívio bizarro: pelo menos não a maltratariam. Mas cada ligação pro tio significava ouvir o telefone vibrando em minhas mãos suadas, enquanto minha mente gritava: "mais uma crise".
Quando ela voltava à consciência, chorava e implorava para não ser levada de novo: — Por favor, filha, eu só tenho você. Não deixe que me coloquem naquele lugar. Eu não sou louca. Se me mandarem de novo, eu juro que me mato.
Eu dizia: — Tudo bem, mamãe. — e sentia meu estômago se contrair, como se o ar tivesse sido sugado pra fora, e o peito me esmagasse por dentro. Porque não era verdade. Eu não tinha escolha.
Dia após dia ela piorava. Os remédios não faziam efeito. O corpo dela aceitava, mas a cabeça não. Eu não saía mais, não ia à escola, os amigos eram rostos distantes que desapareciam em memórias. Tio Roger virou presença constante nas visitas à clínica. Terminei um namoro de dois meses porque nem atendia os telefonemas sem medo de provocar uma crise. Nossa história se resumiu a quatro passeios rápidos no shopping e um cinema interrompido: Joana ligou dizendo que mamãe estava quebrando tudo, e chamaram a ambulância.
Carregar os vivos pode ser tão sufocante quanto sepultar os mortos. O corpo todo cansa, cada músculo grita, a respiração está sempre pesada e irregular, o coração lateja em alerta constante. Meus dias se resumiam em sentir o suor frio escorrer pelas têmporas, e arrepios subir pela espinha, gelando minhas mãos e pernas. Fora a sensação de estar me afogando e sufocando ao mesmo tempo, presa no meu próprio inferno.
A responsabilidade esmaga minha mente. Mesmo com dezoito anos, pareço carregar uma vida centenária, com toneladas de obstáculos invisíveis nas costas. A garganta vive apertada como se uma corda a estrangulasse. O peso da vida e da morte, tudo junto...
Precisava de ajuda. Foi então que tio Roger falou sobre interná-la num lugar de nome fofo:
" Luzes do amanhã, Casa de Repouso".
— Não há mais o que eu possa fazer — disse ele, com a voz quebrada. — Ou o Rim dela para de tanto tomar remédios... se mata numa crise, ou mata alguém.
— Não, tio — falei com a voz trêmula — Não posso. Já perdi meu pai, minha irmã... não quero ficar sem minha mãe também.
— E essa vida está te matando! — disse ele, paciente e duro. — Você nem teve tempo de chorar, não viveu o luto... sua mãe entrou numa depressão tão profunda depois do acidente...
Então, diante da minha firme recusa, ele soltou uma frase que atravessou minha cabeça como um punhal: — Ela não quer viver, Beatriz. Não se acha merecedora de viver.
Quando ouvi, senti enjoo, nó na garganta, lágrimas queimando os olhos. Quis gritar. Um frio seco apertou minha espinha, subindo até a nuca, e senti o coração disparar no fundo dos meus ouvidos.
E a culpa? Do motorista bêbado, claro. Mas ela se puniria para sempre. Meu tio contou detalhes que minha mãe nunca conseguiu dizer: minha mãe saiu quase inteira do carro, cortes e escoriações mínimos. Mas foi a única. Viu meu pai entre as ferragens. Viu Larissa, minha irmã, pedindo socorro enquanto o metal cravava seu corpo. Viu a filha caçula morrer sem poder fazer nada.
Larissa tinha quatorze anos. Queria ser bailarina. Lembro dela dançando no nosso quarto, leve, uma pluma flutuando. Cada gesto delicado, cada sorriso preso nos lábios. Cabelos castanho-escuros, lisos; olhos grandes e iluminados; pele morena; um sorriso angelical que persistia mesmo dormindo. Eu sempre achei que ela era mais bonita que eu.
Eu amava minha irmã. E dói lembrar que nem consegui prantear sua partida como devia. Mamãe precisou de mim, consumiu toda minha atenção. Eu segurava a dor dela, engolia a minha.
Papai faz falta de um jeito absurdo. Protetor, ligado em cada passo meu. Irritante às vezes. Hoje sinto falta de tudo que eu achava chato. E agora cada lembrança parece arranhar a minha alma. Perder alguém é sentir o silêncio gritando, e perceber que os gestos que você menosprezou eram a luz que te mantinha viva.
Aquela história, de que só se dá valor, quando perde, é tão, injustamente real. Mas, não 100% verdadeira. A gente sabe que o que tem nas mãos é valioso, só não acredita que um dia vá perder.
Me sinto estrangulada, pela saudade de tudo que tinha com eles. Infelizmente, a saudade não vai trazê-los de volta.
Oops! This image does not follow our content guidelines. To continue publishing, please remove it or upload a different image.