Reencontro

9 0 13
                                        

Tirei a mochila das costas enquanto saía de casa em direção ao meu carro, que ficava estacionado bem em frente. Pego as chaves no bolso, entro e já vou conectando o celular ao rádio para ouvir a mesma playlist de sempre. Acelerei para buscar meus melhores amigos na casa deles. Nobara morava na mesma rua que eu, e Yuuji algumas quadras à frente.

Hoje estava sendo exatamente como todos os outros dias da nossa rotina; aulas normais, corredores lotados, intervalos cheios de piadas vindas do nosso palhaço profissional e, tirando a conversa particular dele com nosso excêntrico professor, nada foi diferente. Até o toque do último sino.

Nobara ficaria na escola até mais tarde por conta do ensaio das líderes de torcida, o qual tinha sido arrastada para participar, então Yuuji e eu fomos direto para o carro. Ele havia dito, no meio de uma das primeiras aulas, que precisava me pedir algo importante, e é claro que aquilo ficou martelando na minha cabeça o dia todo.

— Você lembra que eu disse que tenho um irmão, né?

Eu concordei com a cabeça. Ele tinha comentado sobre esse irmão em várias ocasiões, e eu tambèm já tinha visto fotos de quando eles eram crianças nas paredes da casa dele. Gêmeos idênticos, mas completamente diferentes em personalidade, a começar pelo fato de que já fazia cinco anos que o mais velho estava em um internato para jovens rebeldes. Ele era um delinquente igual aqueles que se vê em filmes adolescentes.

— Bem... ele vai fazer esse último ano com a gente, e eu disse pra minha mãe que você iria comigo buscar o Sukuna no aeroporto.

Ele sorriu, como uma criança que sabe que está errada, até porque ele estava mesmo! Buscar o irmão delinquente dele em um lugar tão longe assim? Eu deveria ao menos avisar meu pai disso, não?

— E você só me fala agora?

— É que eu sabia que se dissesse em cima da hora você não poderia dizer não.

Mais uma dose daquele sorrisinho sacana, que apenas me fez suspirar. Ele não sabia, mas a razão pela qual eu simplesmente não conseguia dizer não para ele era especialmente por conta daquele sorriso. Eu tinha uma queda, não, um penhasco, pelo meu melhor amigo.

— Coloca no GPS logo então... não posso voltar tarde hoje.

Ele comemorou, dando uns tapinhas em meu ombro e em minhas costas, rindo feliz de seu "plano infalível" para me fazer concordar com qualquer coisa. Eu acelerei com o carro, e depois de quase uma hora de viagem, chegamos no aeroporto. Eu estacionei e Yuuji me pediu para ficar ali fora, o que eu contestei.

— Não quer que eu vá mesmo? Sei lá, caso ele tente fugir pra não voltar pra casa, ou... ?

Yuuji riu.

— Não Megumi... é exatamente sobre isso que eu preciso falar com ele, dar um resumo de tudo que aconteceu esses anos e falar pra ele se comportar. Sabe como é...

Eu não sabia, na verdade, mas concordei. Ele saiu do carro e depois de alguns minutos de muita ansiedade eu acabei saindo também. Encostei no meu Prius, recém lavado, de frente para a saída, para vê-los assim que aparecessem.

Mais alguns minutos de espera, eu já havia mandado uma mensagem para o meu pai dizendo que demoraria um pouco para voltar para casa e que talvez nem jantasse lá, já prevendo que a mãe do Yuuji, que me adora, fosse querer agradecer minha bondade com um delicioso prato de comida. Fazia eu me sentir em casa, o que meio que me iludia um pouco também. Yuuji é hétero, até onde nós três sabíamos... e ele não fazia ideia dos meus verdadeiros sentimentos.

Em meio aos meus pensamentos percebo a porta automática da área de desembarque do aeroporto se abrindo, podendo ver duas figuras idênticas, mas com roupas comicamente diferentes, saindo dali e se aproximando de mim, abraçados como verdadeiros irmãos. Era bizarro pensar que eles não se viam a tanto tempo. Yuuji havia me dito que no primeiro ano do irmão no internato, houve uma volta dele para passar o natal em família, a qual ele usou para roubar uma loja de conveniência e ficar bêbado pela primeira vez, aos treze anos. Desde então ele não teve mais o privilégio de saída.

— Sukuna, esse é o meu melhor amigo e nosso piloto de fuga, Fushiguro Megumi.

— Megumi? Isso não é nome de mulher?

— É uma longa história. — disse um tanto envergonhado.

— Fica tranquilo. Não sei o que o tampinha te disse mas eu não mordo não.

Ele riu, e era uma risada profunda. Sua voz era mais grossa também, e agora olhando melhor, ele era bem mais musculoso que Yuuji. O gêmeo que eu já conhecia era muito bom em qualquer esporte, e em atletismo também, e ele era extremamente forte, mas o irmão que estava conhecendo agora... ele tinha até uma postura diferente. A criação realmente muda até a nossa fisionomia, muito interessante.

Depois de algumas risadas um pouco constrangedoras e de ajeitar as coisas dele no porta-malas, entramos no veículo para seguir viagem de volta à civilização.

No caminho os irmãos conversavam animadamente, sobre fofocas da família, os "velhos tempos" de quando eram crianças e sobre o que já haviam aprendido nas matérias escolares para ver quem estava mais adiantado. Já que eu estava apenas servindo de motorista, decidi não prestar tanta atenção assim no que estavam conversando, um hábito meu que era especialmente odiado pela Nobara por eu nunca saber das fofocas mesmo estando bem ali, fiquei apenas murmurando as músicas que passavam na minha playlist.

Enquanto isso, eu usava o retrovisor para observar Sukuna, por pura curiosidade. A voz dele enchia o carro, era como um murmúrio constante, as vezes mesmo quando ele não estava falando. Sua presença era forte e até um pouco intimidadora, bem, isso para quem não tem um pai como o meu. De qualquer forma, sempre que eu o olhava, ele estava me olhando de volta. Talvez eu estivesse um pouco paranoico.

— Então, com qual professor eu tenho que tomar mais cuidado? Tem algum babacão que eu vou ter que riscar o carro na saída?

Sukuna perguntou, o que fez Yuuji estremecer um pouco no banco ao meu lado, percebi.

— Que isso, não vai riscar o carro de ninguém não, ouviu? Todos os professores são decentes, eu acho.

— Ué, não é você que sempre reclama do professor Masamichi? - questionei.

— Porque ele é rígido! E sempre grita na minha orelha...

Dei risada, tentando me intrometer um pouco no assunto, já que agora eu também podia responder.

— Mas o favorito do Yuuji é o professor Gojo. Por mim ele se acha demais mas tem muito talento, admito.

— Gojo, é? Vou prestar atenção.

Depois da última fala do irmão, Yuuji ficou quieto, o que é bem incomum. O silêncio seria ensurdecedor não fosse pela música do rádio, e assim permaneceu até eu estacionar em frente a casa deles.

Buzinei como sempre fazia, para a mãe dos dois saber que havíamos chegado, então saímos do carro. Sukuna estava sentado no meio do banco de trás mas ao sair, o fez na porta atrás da minha, se aproximando de mim tão sorrateiramente que eu nem consegui perceber.

— Só pra corrigir o que eu disse... eu não mordo, ao menos que me peça.

Piscou para mim ao se afastar depois da fala, com um sorriso ainda mais sacana do que o do irmão. Ele... estava realmente tentando flertar comigo? Sim, ele é um delinquente nato.

Tentei me fazer de idiota e ignorar o que tinha acabado de acontecer, tirando as malas dele do meu carro com a ajuda do Yuuji enquanto ele ia cumprimentar a mãe. Entramos, eles conversaram um pouco mais e, como eu já esperava, fui convidado para jantar lá. Sinceramente, depois daquele flerte meu estômago acabou revirando e eu perdi toda a fome, mesmo com o cheiro maravilhoso da comida já pronta. Agradeci e recusei, depois de uma desculpa para ir embora acabei me despedindo de todos, bem rapidamente quando se tratou de Sukuna, antes de voltar para casa.

Droga, eu nem tinha reparado que ele estava com um perfume forte até entrar no carro de novo, o qual estava infestado pelo cheiro (devo dizer bem másculo) dele. E eu sabia que era dele porque conhecia bem o perfume do Yuuji, e o meu que óbvia e definitivamente não era assim. O pior é que é bom.

Abri todas as janelas do carro e dirigi de volta, rezando para que aquele cheiro saísse logo.

Pensando melhor, se vamos estudar juntos, provavelmente ele também vai de carro com a gente pelas manhãs, e na volta, e ele provavelmente vai na festa na casa da Nobara na sexta. Droga.

Endless ThirstHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora