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     (SANTO INÁCIO, BA, 1997)

     ERA UM HOMEM BAIXINHO E MIÚDO, SEM OS DENTES DA FRENTE E com um boné azul escrito "Júlio Sisma - Um futuro melhor para a Bahia". Apesar de mirrado e desbotado, o boné parecia ter sido feito para ele. Combinava perfeitamente com sua cabeça achatada de poucos cabelos. Junto, usava uma camiseta branca borrada com diversas cores de tinta, e uma bermuda que há muito, mas muito tempo atrás foi uma calça jeans. Seus pés calejados e com respingos de tinta calçavam um chinelo de borracha, com um solado que devia restar apenas alguns milímetros de espessura.

Estava sentado na areia da praia à maneira dos meninos, com os pés para frente e os braços esticados para trás, completamente envolvido na difícil tarefa de olhar o mar. O dia estava nublado, mas era assim que ele gostava. Ter o sol quente sob sua pele, mesmo ela sendo escura era castigo dos mais duros. Não saberia dizer a quanto tempo fazia aquilo. Trabalhar de pintor e logo depois ir ver o mar era algo que começou como um conselho, e logo depois tornou-se prática diária. Zé Mercedes disse que para desintoxicar da tinta, aquilo era melhor que beber leite. E ele acreditou.

Não tinha compromissos à tarde, a não ser ir no mercado cobrar o "pintado" que João Tenório estava lhe devendo - aposta é aposta, tem que honrar! - mais um trocadinho da fézinha feita havia dois dias. Não era grande coisa, pois colocou só 1 real, mas já dava para fazer a feira da semana. Então por que não ficar ali, esticado, olhando o pouco de sol que restava, vendo as turistas passarem com suas roupas vistosas e coloridas do Sul? Por que não permanecer naquela areia e ver também o Sr. Gumercindo encher a cabeça dos outros turistas de lorotas, só para no final empurrar (certo ele!) para eles suas redes?

Não percebeu a presença do fotógrafo que se aproximou e lampejou um flash em sua cara. Naquela luz da tarde, aquele flash mais pareceu uma trovoada.

— Que que é que você "qué"? — perguntou Matagão ainda com os olhos doendo, levando instintivamente as mãos à frente para proteger-se.

— Ora Chico, faz-se de besta! — respondeu o fotógrafo franzino chamado Rufião — E cê não "tava" sabendo não que seu prêmio "tava" acumulado, é?

— E "tava"?

— E tirei sua foto "pra" botar no jornal que deve sair na semana que vem.

Matagão levantou-se rapidamente para tirar o excesso de areia do traseiro e das pernas. Ajeitou o boné na cabeça.

— E quanto é que deu, hein? — perguntou.

— Sei eu, mas se descontar o que você deve lá, não sobra muita coisa não! — Rufião tira outra foto.

Matagão riu.

— Cabra besta!

— Essa foi "pra" eu acabar com o filme! — Rufião sorriu — Eh, eh, eu gosto de tirar foto sua porque você não reclama.

— Tenório "tá" me devendo um pintado também!

— Não sei se vai pagar não! — concluiu Rufião.

— Ora, pois se vai! Tenório nunca zangou comigo! Vou sair de lá com o dinheiro numa mão e com o pintado na outra!

Matagão despediu-se de Rufião. Andou rapidamente em direção ao mercado (que a essa ora já devia estar fechando) mas no caminho seu chinelo de borracha se soltou. Com incrível destreza, como quem já passou vezes sem conta por aquilo, ele pegou o solado e levou-o à boca, consertou-o com os dentes de trás, e então tornou a calçá-lo.

A Malfadada SorteStories to obsess over. Discover now