Últimas palavras?

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  Ensanguentado. Ofegante. Estático. Assim se encontrava a presa prestes a ser destruída pelo caçador. As paredes ensurdecedoras que abrigavam aquele evento eram compostas de estudantes no horário da saída atrás de um colégio público.

Seu rosto estava encharcado de sangue, tanto sangue que seu cabelo grudava em sua testa e as pontas de seu cabelo respingavam no chão. Tudo aquilo era puro entretenimento para os jovens que o cercavam. Mesmo de cabeça baixa, apenas evitando o contato visual, conseguia perceber que estava sendo gravado, humilhado e que as pessoas que apostaram contra ele estavam mais do que satisfeitas. Repentinamente sua cabeça é puxada para cima pelos cabelos.

- O que você achou que ia acontecer? Hein, frango? – O oponente indaga socando com força o estômago do garoto que contrai seu corpo de dor para dentro mas sem abrir a boca para reclamar de dor, afinal, foi ele quem pediu esta luta.

Lopes, um repetente (que está no primeiro ano do Ensino Médio com 20 anos), puxava o grito de sua plateia enquanto esmurrava um garoto de 16 anos. O ego de Lopes era alimentado com a admiração trivial que recebia dos jovens ao manchar seus punhos.

- É disso que vocês gostam, né? Seus doentes! – Lopes grita para sua plateia que então faz mais barulho e joga cada vez mais a lenha na fogueira.

O garoto se levantava e mantinha sua guarda desengonçada e trêmula. Recuperando seu fôlego respirando apenas pelo nariz, ele ainda estava de pé. Sangue saía do canto de sua boca, seu cabelo já estava ficando avermelhado, mas de algum jeito, ele aparentava estar preparado para mais daquilo e isso irritava profundamente Lopes.

- Seu merdinha... Você acha que é melhor que eu...? Desiste. – Murmurava Lopes ao olhar para trás e sentir ser seu orgulho e capacidade desafiados.

- Acaba com ele! – gritou uma voz feminina da plateia que fez Lopes desafixar os olhos carregados de ódio do rapaz.

- Então vamos! No três! Um... dois... Três! – conta Lopes regressivamente com seu público quando é interrompido.

- Para com essa merda, Lopes! Já deu! O moleque não aguenta mais. Você não vai ser melhor que ninguém chutando cachorro morto. – interrompe Manu, a meia-irmã de Lopes, segurando o seu braço;

Lopes empurra a garota pra trás com uma expressão sádica.

- O que disse, maninha? – ironiza Lopes que logo em seguida dispara um gancho no rapaz que espirra sangue no rosto de Manu que sentia mais nojo de seu meio-irmão do que a sujeira na sua cara.

- Doente. – Manu diz desistindo da situação e procura um cigarro no bolso de sua calça.

Lopes era louvado com suas mãos vermelhas de sangue e um sorriso cínico pela sua plateia, com excessão de Manu, que fumava sentada no capô do carro do seu professor de história.

Coisas como "Mata ele!", "Acaba com ele!" ou "Que babaca" podiam ser escutadas em diversos tons entre a multidão.

- Você escutou eles. – diz Lopes virando as costas para a sua plateia e alongando seus braços para destruir com qualquer resquício do que foi o rapaz em vida. - Últimas palavras, sua bixa?!

O garoto lentamente limpa o sangue que escorria de seu nariz e levanta mais uma vez sua guarda, agora de uma maneira mais firme do que antes, como se estivesse desafiando Lopes.

- VOCÊ É MESMO CABEÇA DURA, HEIN! – Lopes perde a cabeça ao se sentir humilhado e desafiado, disferindo um soco carregado de raiva em direção ao rapaz.

O golpe é parado pelo garoto, que torce e imobiliza o braço de Lopes. Repentinamente toda a gritaria havia se silenciado e Lopes se encontrava confuso e incrédulo. Ao olhar ao seu redor e ver todas aqueles que o aplaudiam quietos, fez com que rapidamente atirasse mais um soco com seu outro braço livre, porém, o rapaz segurou seu soco com a mão aberta e torceu seu pulso. O silêncio era ensurdecedor para Lopes e agora até Manu estava prestando atenção no evento.

- É... você tem razão... – disse o garoto pela primeira vez.

- Minha cabeça é bem dura mesmo! – o garoto abre um grande sorriso cínico avermelhado que faz pela primeira vez em muito tempo Lopes sentir medo.

O rapaz então cospe todo o sangue que acumulou em sua boca em direção aos olhos de Lopes o impedindo de enxergar, e então golpeia o nariz de Lopes com sua cabeça, fazendo o quebrar e jorrar sangue continuamente enquanto se ajoelha de dor.

- MEU NARIZ! – Lopes grita de dor não podendo arrumar o estrago por não sentir seus braços.

- Eu arrumo pra você! – exclama o rapaz que segura a cabeça de Lopes pelos cabelos e joga a cabeça em direção ao seu joelho, golpeando seu nariz novamente.

Lopes se encontra no chão, derrotado e gemendo de dor enquanto observa as pessoas ao seu redor fazerem mais barulho do que antes, até sua meia-irmã agora gritava. Lopes se deu conta que todo aquele louvor não eram sobre ser o preferido do público, mas sim daquele que for capaz de manchar mais o chão de sangue.

Zac, o garoto ensanguentado pisa no peito de Lopes com uma expressão sádica enquanto limpa sua boca suja de sangue.

- As minhas últimas palavras eram... dá a merda do meu dinheiro.

Fênyx: Mar de LavandaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora