Alguns meses atrás
Boone, Dakota do Norte
1 - Destino
A labareda erguia-se alta no céu, levando o irritante cheiro de tecido queimado a se espalhar ainda mais pelo quintal. Da segunda leva de colchas, lençóis e roupas que haviam sido empilhadas, mais da metade do monte já fora consumida pelas chamas, restando apenas a dor dilacerante da ausência em nossos corações.
Agarrado em minha cintura, Jules me abraça, observando com olhos lacrimosos as coisas de mamãe crepitarem na fogueira. Eram as últimas lembranças físicas dela sumindo como fumaça pelos céus de Boone. Mas assim mandava o protocolo sanitário, e eu regiamente o havia seguido. Como os folhetos e as palestras que tínhamos na escola nos diziam pra fazer.
Ainda que meus irmãos e eu quiséssemos nos agarrar a um pedacinho que fosse do que mamãe usara, qualquer contato com suas coisas já seria suficiente para passar a Praga Branca, e eu não permitiria isso. Desde que a doença matou nosso pai dois anos atrás, prometi a mim mesma que ela não levaria mais ninguém da família Falchuk. Posso ter falhado com mamãe, por estar fora do meu alcance a proteger da exposição na sua profissão de enfermeira, mas eu não falharia com meus irmãos.
Com a intenção de voltar à sala para encarar o resto dos procedimentos que nos esperavam, gentilmente tento afastar Jules para o lado, mas ele se agarra a mim no limite de suas forças, como se eu fosse me desintegrar no mesmo instante em que saísse de suas pequenas mãos. Da idade de três anos, ele não fazia ideia do que era a morte, mas sentia as consequências dela: solidão, desespero, abandono... Palavras grandes demais para uma criança tão pequena que ainda chupava dedo.
Levando-o ainda que a contra gosto pela mão, entro na cozinha e começo a caminhar em meio à fumaça que se embrenha pela casa, preenchendo a escuridão com seu odor. Ao menos ter vivido ali durante tantos anos me fazia poder andar pelos cômodos sem esbarrar em nada. Desde que nos mudamos de Boston, os móveis nunca haviam saído do lugar, parte porque papai e mamãe trabalhavam muito, parte porque eles simplesmente não davam a mínima para decoração. Quem daria quando metade do condado sobrevive com um dólar por dia, e há décadas é assolada pelo fantasma de uma doença mortal que se espalha pelo ar?
Quando entro na sala iluminada, as duas mulheres do governo nos esperam já visivelmente impacientes. A mais alta e com aparência de feto seco é a assistente social do governo, Leona Peterkin. A única coisa destoante em sua visual preto é a presença de uma máscara cirúrgica verde presa ao seu pescoço também adornado por um colar de pérolas obviamente falsas.
Eu já a tinha visto antes, enquanto perambulava com sua maleta pela vizinhança em visita às famílias que haviam sido dizimadas pela praga, mas nunca imaginei que um dia ela poderia vir à nossa casa pelo mesmo motivo. A outra mulher, enfiada em um vestido florido, se chama Elizabeth Rosehill. Ela poderia facilmente ser confundida como mais uma senhora rechonchuda de nosso Condado, se não tivesse sido me apresentada como uma tutora temporária de órfãos em situação de risco.
Assim que nota minha presença de volta a sala a assistente social cobre parte de seu rosto com a máscara cirúrgica, temerosa que a brancura excessiva de meu rosto seja resultado de uma anemia profunda. Um dos sintomas mais evidentes da praga.
Seu ato seguinte é pegar seu aparelho PaperTab na maleta para fazer as devidas anotações. Bugigangas tecnológicas assim eram tão raras no Condado de Boone, que nosso contato com elas se resumia as propagandas da televisão estatal. Meus pais até tinham condição de comprá-las - e eu sempre os implorava por isso-, mas preferiam investir todo seu suor e parte do dinheiro de seus salários em melhorias no Posto Médico do Centro Comunitário em que trabalhavam.
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Brigada Negra ( temporariamente em hiato)
Teen FictionAos 16 anos e recentemente órfã, Piper Falchuk se vê em um beco sem saída, tentando evitar ser levada junto com seus dois irmãos menores da pacata Boone para uma instituição infantil do governo. Enquanto isso, Frye Donnavan, o impulsivo filho do m...
