Meu amigo ex-dependente químico

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Eu saio para o pátio da clínica pela última vez para observar as árvores que lá crescem. vejo Caroline e Tamara jogando Damas no centro do pátio e Eliseu mais para a esquerda cuidando de suas flores, sinto me contente em saber que eles não vão demorar muito para saírem também, pois no fundo sei que são pessoas boas.

  Pouco tempo depois, durante a minha antiga analise a certas árvores que guardavam escritas de outros pacientes seja interrompida por uma presença atrás de mim- O nosso horário já acabou- a pessoa trás de mim diz tentando parecer séria, porém quando eu viro para a ver a um sorriso mimoso exposto- Já? Nem parece que durou dois anos e meio- Eu olho pra ele com os olhos semi abertos em um teor irônico, ele abre levemente os braços de uma forma quase imperceptível e franze as sobrancelhas. Eu entendo o recado e passo as mãos envolta da cintura dele para um curto abraço.

- E pensar que quando nós dois entramos aqui foi por briga de bar porque ambos estamos completamente drogados e agora estamos saindo juntos - eu rio bobo lembrando de toda a confusão que causamos durante a nossa moradia na casa de recuperação- Não só juntos- Os braços de Thomas pressionam um pouco a minha cintura. Sem machucar - Namorando...feliz agora?- simulo aborrecimento e apenas recebo mais um aperto seguido de uma risada baixa. Meu peito fica quente.

A caminhada para casa foi um misto de sentimentos: liberdade, felicidade, autoconfiança e muitas letras do my chemical romance patrocinadas pelo meu recentemente recuperado celular. Nada era igual a antes, haviam novas lojas e pessoas no Lugar das antigas, mas a familiaridade do trajeto me levava para casa mesmo que eu me sentisse como um novato no lugar, Thomas me acompanhava de perto com as mãos nos bolsos da sua calça apertada. Eu e ele concordamos em pegar primeiro as coisas dele antes que os pais chegassem em casa, ele ainda tinha as chaves, para evitarmos lidar com a mãe dele por um tempo indefinido. No fim, não foi um grande desafio principalmente por Thomas saber entrar e sair como um fantasma.

O real problema começava agora. Subimos as escadas e conforme nos aproximamos do meu apartamento senti aquele orgulho sumindo dentro de mim, de repente o único som do ambiente, que era o meu celular tocando alguma música desconhecida que foi escolhida no modo aleatório, pareceu ser substituído por chiado aterrorizante digno de um canal sem sinal de tv a cabo. Eu sabia como aquele apartamento estaria e eu me sentia ameaçado de sequer entrar lá.

A porta mal estava aberta e já era perceptível o quanto o tempo sozinho não tinha feito bem a aquele apartamento. A poeira se acumulava entre qualquer brecha vista a olho nu, o chão tinha alguns cigarros antigos amassados e cheirava a vomito, havia recibos de contas atrasadas amassados encima da mesa de entrada junto de uma pilha de xícaras sujas e um pão tão mofado que estava verde. Me senti envergonhado e humilhado como uma criança após sua mãe berrar em seu rosto o quão idiota era de não cumprir uma tarefa tão simplória quanto arrumar a casa. Fiquei paralisado com a porta aberta com um nó na garganta, porém Thomas entrou como se não houvesse nada a temer naquela escória. Entrei atrás seguindo sua maré de confiança o máximo que podia.

Pegamos tudo aquilo que eu considerava cabível na mochila. O mais rápido possível, já que queríamos evitar uma crise de espirros por parte de qualquer um de nós dois ou até mesmo ânsia de vomito.

Esquecemos de tirar os sapatos na entrada e acabamos causando mais sujeira na casa, porém esta se mescla com a bagunça antiga e se torna quase Imperceptível. Pondero contratar alguém de confiança para limpar a casa e ir para casa de Edd com Thomas por um tempo se ele não se incomodar conosco. Decido ignorar esse pensamento por enquanto e termino de recolher as minhas tralhas do quarto.

— Não sabia que você tinha bom gosto— Vejo Thomas segurando um quadro empoeirado meu com uma maquiagem inspirada em bandas como Kiss e
vestindo um terninho preto junto dos meus pais, Paul e Patrick, na minha provável formatura da escola —E eu não tenho. Olha pro' meu namorado— Ele tufa um pouco as bochechas tentando parecer mais ofendido do que realmente ficou com a minha fala, me sinto um pouco menos mal pela casa estar tão mal cuidada e um sorriso me escapa tímido. Decido procurar outras fotos e acho a imagem de alguns amigos e familiares juntos, uma viajem a praia e uma foto fumando, a qual faço questão de rasgar mesmo antes de mostrar a Thomas.

Continuo a procura dentro das gavetas do meu armário por mais um tempo e me deparo com o meu antigo cinzeiro. O cheiro de queimado da nicotina ressurge no meu cérebro por breves segundos consumindo tudo envolta de mim como um buraco negro. Eu me sinto voltando para aquela noite e para os socos mal encaixados naquele maldito bar, na fumaça nos meus pulmões e as drogas correndo no meu sangue, dos meus lábios rachando por falta de comida descente e dos meus pais abraçados chorando em silêncio na primeira visita deles.

Tudo inesperadamente parou quando a mão de Thomas encosta no meu ombro rapidamente apenas como um lembrete de que a vida continuou depois disso e algumas lágrimas ameaçam cair dos meus olhos —A gente já resolveu oque tinha pra resolver.—  tento me firmar novamente na realidade com as palavras dele, não tiro o cinzeiro da mão e quase que mecanicamente o levo junto a mim — É. Vamos por isso no devido lugar.

Eu o arremesso o velho cinzeiro para dentro da caçamba de lixo velha do meu prédio e ele se estilhaça inteiro em vários pedaços de argila. Thomas segura minha mão tentando mostrar que aprovava a minha ação, mas ele não parece completamente seguro.

— Menos um — Sorri meio contente meio perdido olhando para o vazio dos olhos dele— De fato.— Ele me diz meio contrariado tirando do fundo da própria mochila sua antiga coqueteleira azul escura, me pergunto o porque disso por alguns segundos, porém antes mesmo de ter tempo de esboçar reação ele arremessa a coqueteleira na lixeira —A gente ta junto nessa.—  Meus olhos se arregalam em espanto por alguns segundos- Mas foi um presente do seu pai, não foi?— Eu olho nos olhos fundos de Thomas e ele apenas balança a cabeça—  Tenho outras memórias dele e estas são melhores do que uma velha coqueteleira.— Eu encosto minha cabeça nos seus ombros buscando conforto, tento afastar pensamentos negativos.

— Edd vai ficar bem orgulhoso.— digo me referindo a um de nossos melhores amigos que, por coincidência, conhecemos por ser o organizador principal do nosso setor na clínica de reabilitação. Thomas não verbaliza, mas parece concordar comigo.

— Bora ver um filme?— Ele me pergunta baixinho com o nariz entre meus cabelos sentindo meu shampoo cítrico — Se for no cinema eu crio ânimo de ver, desde a internação eu não piso lá— Me pergunto quais filmes estão em cartaz. Espero que seja algo que envolva piratas e espaço sideral, ou no mínimo,algo tosco. Thomas não faz nada muito profundo, apenas afasta o rosto dos meus cabelos e segura a minha mão na sua de um jeito firme e bruto que eu me acostumei com o tempo— Se você diz cinema, então, porque não, né?

A pipoca amanteigada que eu como no Hall de entrada tem um gosto que me lembra á minha infância e os diversos dias das bruxas que estrearam filmes icônicos de terror, comento com Thomas que amava vir para cá por essas comemorações e ele diz que gostava também, principalmente na adolescência ja que seu pai tinha gostos péssimos para filmes de terror, o que, no fim, acabava com eles indo ver filmes como "o Pneu do mal 2, a volta do pneu".

Vejo Thomas comprando nossos ingressos e sento em um banco vermelho perto de alguns adolescentes com máscaras de animais, uma provável referência a alguma série. Uma risada arranhada rompe pela minha garganta quando Thomas volta fazendo caretas bobas. De repente aquele banquinho velho com os pés desalinhados se tornou um trono de ouro e o homem a minha frente meu fiel escudeiro que em nenhuma hipótese sairia do meu lado.

— Qual será o filme, meu súdito?— Eu provoco empinado meu nariz. Estendendo minha mão para que a beije como uma dama faria a um honorário cavaleiro — "Yaas2 ;Bons não binários não mentem" é um terror mais atual e tals, parece legal, Vosso rei.—  Thomas entra na brincadeira minimamente e beija minha mão, quase derrubando as pipocas. Os adolescentes com máscaras de animais parecem demonstrar choque ao ver a demonstração de afeto, eu ignoro com facilidade.

— Me leve até a sala de cinema ou será esquartejado—  Levanto da cadeira assumindo a postura de um aristocrata, olhos frios como gelo. Thomas parece ter perdido a paciência e apenas coloca a mão livre na minha cintura e me conduz até a sala. Quando meus pés passam pelas luzinhas verdes da entrada do cinema eu finalmente me sinto pronto para voltar a mandar na minha própria vida. Agora não sendo um rei de brincadeirinha, mas sim o melhor de todos os reinos.

Mini contos TomtordDonde viven las historias. Descúbrelo ahora