Flashes, festas e uma vida agitada não são suficientes para fazer Michaela esquecer as merdas que fez no passado. Ela tentou seguir em frente, mas Yoi continua sendo seu único destino. Diante de um reencontro inevitável nos bastidores do mundo da mo...
Eu tento ser indiferente, mas se fecho os olhos, ouço sua voz
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── .✦ O jogo recomeçou
O mundo da moda não conhece a complacência.
Sob o brilho implacável e quase violento das luzes estroboscópicas que coroam as passarelas, o tempo parece suspender o próprio fôlego, congelando a realidade em um vislumbre efêmero de perfeição. Ali, as modelos não apenas caminham; elas flutuam, deslizando como entidades intocáveis de um mito moderno, transformadas em altares vivos que ostentam esculturas fluidas de seda, couro e algodão. Cada desfile se consolida como um ritual pagão de exatamente quinze minutos, uma missa negra de criatividade puríssima onde o estilista — uma mistura quase profana de divindade criadora e costureiro obstinado — oferece a própria alma ao julgamento impiedoso do público e dos críticos.
No entanto, por trás dessa névoa inebriante de perfumes importados e do tilintar constante de taças de cristal transbordando champanhe, a realidade sangra em tons urgentes e caóticos. Os bastidores revelam um labirinto asfixiante de fumaça de cigarro, alfinetes espalhados pelo chão e o calor humano do suor decorrente da pressa. São nesses camarins ocultos que mãos calejadas e anônimas bordam canutilhos minuciosos até a aurora surgir na janela, enquanto mentes exaustas e cafeinadas buscam desesperadamente a próxima paleta de cores que ditará o humor e a estética de todo o planeta.
Trata-se de um mercado voraz, uma máquina impiedosa que se alimenta continuamente de carne fresca e ideias virgens, exigindo de suas engrenagens uma reinvenção diária e massacrante. Afinal, quem dita as regras desse universo compreende perfeitamente a maior de suas verdades: a glória absoluta e o esquecimento mais profundo compartilham exatamente a mesma calçada. A moda, em sua essência mais nua, é uma mentira bela que todos nós, coletivamente, concordamos em acreditar; vestimo-nos na tentativa desesperada de esconder nossa nudez, mas, ironicamente, acabamos revelando os segredos mais íntimos de nossa alma.
Nesse cenário de aparências e garras afiadas, o nome que dominava os holofotes pertencia a Michaela Kaiser. A jovem alemã, que havia sido lançada ao estrelato como modelo e atriz desde os meros dez anos de idade, carregava o fardo de seguir fielmente os passos grandiosos de sua mãe, a lendária Alice Love. Mas onde a mãe exalava uma beleza tradicional, intocável e impecável de passarela — construída à base de cabelos loiros perfeitamente alinhados, uma pele clara e intocada pelo sol e uma restrição alimentar rigorosa que beirava a tortura —, Michaela subvertia tudo. Ela era naturalmente linda, dona de uma simetria que dispensava o menor esforço, ostentando um par de olhos azuis de fendas felinas que pareciam despir quem ousasse encará-la, emoldurados por um rosto de traços aristocráticos e perfeitos.