Prólogo

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[ algumas descrições deste capítulo podem ser perturbadoras ]

24 horas para o primeiro beep

Tudo começa de repente.

Sinto um latejar na nuca enquanto meus lábios secos tremem e meus olhos tentam focar em qualquer coisa em minha frente. Não há muito para ver, a pouca luminosidade contorna as extremidades de árvores distorcidas pelos borrões que correm todo meu campo de visão.

Como se tivesse acabado de ser atingida por um taco de baseball, minha cabeça gira mesmo sem que eu tivesse a certeza que a estava mexendo e uma ardência imediata queima meus olhos me obrigando fechá-los por longos segundos.

Não sinto o resto do meu corpo, apenas o formigamento que sobe pela espinha. Todos os meus músculos permaneciam completamente desligados e somente quando minha visão ganha nitidez que eu identifico o chão duro abaixo de mim.

Uma vegetação rasteira contrasta com o restante das árvores altas metros a frente. Tons alaranjados de uma pequena fogueira perturbam meus olhos e o calor que ela emana abraça minha pele, ligando ainda mais meus sentidos para a dor distribuída pelo meu corpo ainda imóvel.

Rastreio todo o perímetro observando a terra e folhagem seca que cobrem o chão. Então, uma gota invade meu campo de visão por alguns segundos, seguida de outra e outra. O cheiro de mercúrio embebido em podridão chega até minhas narinas e a cor vermelha passa a tomar parte da vista.

Um líquido vistoso percorre meu rosto até chegar aos meus lábios e confirmar o cheiro. Um estralado saindo do meu pescoço assim que eu rotaciono a cabeça para o outro lado. O cheiro ficando cada vez mais forte. A dor alcançando cada milímetro do corpo, acordando meus músculos com adrenalina.

Assim, eu a vejo. Uma cabeça esverdeada posicionada a centímetros da minha. Seus lábios entre abertos, seus olhos vidrados nos meus e sua pele apodrecida. Mergulhada em sangue.

Um grito permanece preso em minha garganta e nenhum membro do meu corpo ousa mexer enquanto a cabeça decepada me encara. Lágrimas se formam e ao fundo eu vejo o resto. Mãos, braços e pernas. Ensanguentadas, expondo ossos brilhantes e decompostas. Minha visão perde o foco e minhas pálpebras fecham e abrem involuntariamente. A dor em seu ápice pinicando todo o meu corpo, como se ele estivesse sendo aberto e dilacerado. Tudo o que eu percebo são gotas e gotas me cobrindo por completo.

Uma.

Duas.

Três.

- O que você está fazendo aqui? – um grito estridente chega aos meus tímpanos e me fazem abrir os olhos novamente – O que você está fazendo aqui? Sai daqui! Você tem que ir embora!

Duas mãos agarraram meu corpo e me chacoalharam. Minha visão fica turva novamente e meus joelhos cedem a ação de ficar de pé.

- Corra! Corra!

Um mar de sangue manchando tudo em minha frente. Minhas pernas tremendo e minha cabeça queimando, me fazendo abrir a boca para um grito que não saia.

- Você tem que ir embora, corra! 

É no meio dos gritos que vislumbro seus olhos castanhos e o pavor crava meu cérebro. Eu queria falar algo a eles, pedir, gritar, recuar, reconhecer, mas apago antes de fazê-los.

Sinners | Tom Holland Stories to obsess over. Discover now