oneshot.

1.2K 107 25
                                        


I.

Quando as grades de ferro se afastam, o barulho metálico que de tão frequente se tornara parte de mim chegando aos meus ouvidos, ela olha diretamente em meus olhos. Eu consigo dizer que, no fundo, ela está a tentando manter a postura de defensora a todo custo. Ela não parece tão experiente. Nem mais velha do que eu.

E o modo como ela me olha de cima me diz que ela definitivamente não acha que me libertar foi a melhor ideia que poderia ter.

Os olhos dela são azuis, o seu brilho sendo a única coisa que reluz na penumbra dos corredores da prisão, ou, pelo menos, é o que eu penso. Talvez por ela ter sido a pessoa a me tirar do literal fundo do poço e me trazer de volta à superfície, me permitindo ver pela primeira vez em anos a luz do dia. Ou talvez porque o azul deles me lembre da cor do céu em uma tarde de verão.

E a cor do oceano em fúria ao mesmo tempo.

II.

A fumaça pelo ar do bordel, trazendo um forte odor doce, parece deixar a minha cabeça mais leve. Os corredores parecem mais apertados do que nunca, as tendas exibindo seus tecidos aveludados e suas tão habituais decorações exageradas. Eu não consigo deixar de conter uma pequena risada em imaginar como Caitlyn está se virando por ali. Será que ela estaria assustada, tomando coragem para conversar com os clientes para conseguir informação ou estaria me esperando lá fora, com raiva de eu tê-la trazido até aqui?

E mais um passo à frente eu congelo, porque o que vejo na minha frente é o contrário de tudo o que eu poderia pensar.

Caitlyn está ajoelhada no sofá, sua mão passeando por uma das coxas nuas da mulher esparramada à sua frente, o contraste de sua pele pálida contra a cor morena da outra sendo visível sob a meia luz, e seus cabelos lisos caem como uma cortina em seu rosto quando ela se inclina e seus lábios se partem e sua língua desliza languidamente selando um beijo tão intenso que me arrepia inteira só de olhar.

Eu paro de respirar, só percebendo quando me sinto sufocar.

Minhas pernas continuam o caminho, tirando-as do meu campo de visão, mesmo que a minha cabeça ainda esteja travada naquela cena. Não tinha como eu estar vendo coisas, não é? Eu paro e me viro lentamente para a entrada da tenda, refreando o desejo de voltar lá e constatar tudo com os meus próprios olhos outra vez.

Eu deveria dizer alguma coisa? Tirar ela de lá? Por que eu quero tirar ela de lá?

Mas aquela última pergunta não é necessária, porque durante o tempo em que estou hesitando, tentando decidir o que fazer, a garota sai da tenda, prendendo os cabelos cacheados. Ela me olha com curiosidade por trás de sua máscara, ajeitando as roupas amassadas.

— Está esperando a Matilda? Ela é incrível. — ela sussurra em sua voz doce, piscando para mim e se aproximando devagar. — Tenho certeza que você vai adorar.

Eu recuo um pouco quando a mão dela para em minha jaqueta, mas ela não parece se importar, sorrindo de leve ao passar por mim, indo em direção a uma tenda maior.

Ainda parece que o ar ao meu redor não existe, e por que meu coração bate tão desesperado, assim, do nada? Eu corro para a entrada da tenda, e ela está de costas, seus cabelos escuros deslizando em seus ombros nus quando puxa as mangas de volta no lugar.

— Caitlyn? Tudo bem? — eu ofego, me sentindo a pior pessoa do mundo. — Você não precisava...

Quando ela se vira para mim, com uma expressão confusa, há uma taça de vinho em sua mão.

Ah. É como se uma luz subitamente acendesse em minha cabeça. Eu sou tão idiota.

— Não tem problema. — ela sorri, desviando o olhar para o chão, como se tivesse sido pega em um momento levemente constrangedor, sacudindo os ombros brevemente como se realmente não se importasse.

Midnight blue.Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora