the letter

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Não demorou muito tempo até compreender que estava completamente apaixonado por ti, Clay. Não tenho ideia se culpo a minha imaturidade ou as minhas inseguranças por não te ter ao meu lado. Sempre estiveste consciente da minha falta de confiança e tentaste de variedíssimas formas fazer-me ver aquilo que tu vias em mim, no entanto, não quis ceder. Não quis ceder e tu impacientaste-te, como era previsto.
É um facto que não nascemos ensinados. Como poderia eu adivinhar que tudo aquilo que necessitava para ser feliz encontrava-se diante dos meus olhos? A uns quilómetros de mim, a uma chamada de distância.
A minha família gostava demasiado de ti. Estava patente que eles não tinham quaisquer problemas com a minha homossexualidade. Teria eu, então? Neste momento sou capaz de admiti-lo a mim mesmo, conscientemente, que estou completamente entregue a ti. Contudo, porque não o fiz quando me perguntaste nos olhos, quando olhei para ti e vi toda a mágoa que te causei, quando querias ter certezas?
Nunca foste inseguro. Sempre tiveste imensa confiança em ti. Sempre captaste a atenção de ambos os sexos, não só pelo tua beleza exterior, não só por esses olhos verdes brilhantes, não só através desse sorriso capaz de cortar a respiração, mas por causa de ti. Pela tua bondade, humildade, dedicação... Acho que não consigo ver qualquer defeito em ti.
Sempre fiquei com a ideia de que eu tinha o poder de te tornar inseguro. Nunca percebi porquê, mas nas nossas saídas olhavas-me sempre nos olhos como quem procura aprovação. Estás sempre encantador, Clay. Não foi por acaso que te comecei a chamar Dream. És o rapaz dos meus sonhos.
Escrevo porque é tudo o que sei fazer. É irónico, não é? Sou tão conhecido pela minha escrita, pela forma como consigo mexer com os sentimentos das pessoas, pela maneira como consigo descrever tão intensamente os acontecimentos marcantes dos meus livros. Desde que te conheci, apercebi-me que sou todo feito de tretas. Tudo o que escrevo está completamente errado. Não sei do que falo, ou melhor, não sabia. Desde pequenos habituam-nos à ideia de que eventualmente todos nós encontraremos o nosso príncipe encantado, que seremos felizes até que a morte nos separe. À medida que crescemos, essa ideologia de príncipe encantado fica cada vez mais difusa em nós, mas é certo que a esperança de amarmos e formarmos uma vida ao lado do "Tal" acompanha-nos no decorrer da nossa vida.
Amo-te, sim, não tenho quaisquer dúvidas. Mas é errado agarrarmo-nos à ideia de que essas pessoas são necessariamente as que permanecem ao nosso lado até ao fim.
Há tantas histórias de amor com finais trágicos. Filmes, livros, poemas, peças... Mas uma vida? Seria isto justo? Que sentido faz terminarmos longe da pessoa que consideramos ser a ideal perante tudo aquilo que acreditamos, vivemos ou, até mesmo, sonhamos?
            A dura realidade irrefutável é que, nomeadamente, o culpado sou eu. Fui eu que te deixei ir. Fui eu quem permaneceu calado quando me confrontaste com a situação tóxica em que, naquele momento, nos encontrávamos. Tudo devido às minhas incertezas, inseguranças.
            Todos comentam a normalidade da aparição de inseguranças numa relação. Eu não acredito nisso. Não quando o nosso parceiro, com a sua santa paciência, faz questão de assegurar que as inseguranças não passam de meros truques que o nosso lado emocional nos prega. Fiz questão de me defender com argumentos baseados nessa instabilidade que sentia e bem sei, pois via no teu olhar, que cada vez que o cuspia, partia um pouco mais desse teu coração mágico e incomum, visto que passaste a maior parte das horas em que te pedia segurança a garantir-me o mesmo. E eu não o quis ouvir. Envenenei-te com balelas que não correspondiam à verdade.
            Porventura, e com um pouco de sorte, um dia terei a chance de voltar a olhar para esses teus olhos esmeralda, para as tuas covinhas tímidas que dão à luz quando me mostras o teu sorriso perfeitamente alinhado. Pergunto-me se serei capaz de encontrar uma sinfonia tão indubitavelmente angelical como o teu riso. Se existe outrém com os mesmos tiques que tu, como a maneira como arremessas a tua cabeça para trás sempre que te ris de forma incontrolável ou a forma como puxas os cordões da camisola quando te sentes desconfortável ou irritado. Ultimamente, presenciei esse teu costume um número considerado de vezes. Questiono-me se haverá outro com um riso, francamente, tão atípico que se torna impossível não acompanhar e, muito menos, esquecer.
          Penso que se torna evidente que, efetivamente, me fazes falta. Não estou certo se me ocorrerão as palavras ideais caso, por chance, te cruzes comigo numa terça à noite, quando voltares a apanhar o mesmo transporte público que eu depois de um dia esgotante de trabalho. Lembras-te, Dream? O mesmo transporte público onde te pus os olhos pela primeira vez quando, atrapalhadamente, abrias a tua mochila preta, repleta de stickers de bandas de anos 60 e seguintes para retirares a tua carteira verde, com um smile horroroso. Nunca percebi, nem sei se algum dia o irei, essa tua obsessão por esse smile.
         Caso tal dia chegue, tenho plena consciência que, pelo menos, te direi o quanto te amo. Foi graças a ti, Dream, que desvendei o verdadeiro significado de amor. Se me entenderás, se continuarás com o mesmo brilho no olhar que aparecia sempre que olhavas para mim, se, dentro de ti, ainda existe luz, não sei. Sei, isso sim, que não te posso deixar partir sem teres noção da realidade. Que te amo com tudo o que sou, cada átomo que corresponde ao meu ser é apaixonado por ti. Essa é a realidade.
        Posso escrever páginas, folhas, cadernos, livros, enciclopédias. Posso morrer a escrever, mas sei que não vai atenuar e muito menos fazer desaparecer a dor e o vazio que sinto ao saber que já não me pertences, apesar de eu te pertencer a ti.
        A consciência é algo benéfico para o ser humano, mas consegue ser psicologicamente destruidora. O facto de sermos seres inteligentes, ou seja, com capacidades racionais para além das emocionais, faz de nós superiores aos restantes animais. Um benefício, claro, estamos sujeitos a direitos (e deveres) que os animais nunca se aperceberiam da existência. Estamos relativamente perto de ser dogmáticos, se a parte emocional pudesse ser excluída. Evidentemente que é uma realidade impensável e meramente fictícia e creio que nenhum Homem o optaria, uma vez que nos afastaria da ideia de emoções e nos aproximaria da ideia de máquinas. Em termos inovadores e científicos com certeza estaríamos avançados o suficiente para conhecer mais do que obtemos hoje, todavia, e o resto?
        É preciso coragem. Trocar sentimentos como a alegria, o prazer, o amor, a competitividade saudável, a adoração, a tristeza, o que nos torna animais, por mera inteligência "ilimitada"? De que vale, se na verdade não retiramos qualquer tipo de emoções positivas pelas descobertas inovadoras, se não temos ninguém com quem compartilhar as notícias magníficas, se não temos a necessidade de comemorar e de nos compensar pelo bom trabalho exercido? Não faz sentido. As emoções são uma mais valia, sejam elas positivas ou negativas.
        Se tenho medo de sentir? Como é óbvio. Se me quero manter na mediocridade de permanecer no conhecido? O George de há uns anos atrás, O George sem o Dream, sim. O George após conhecer o rapaz dos sonhos dele, não. Quero arriscar. Quero sentir tudo e quero compartilhá-lo. Não com alguém, contigo. Quero sentir tudo à flor da pele: borboletas na barriga, sorrisos espontâneos, arrepios, talvez dependência (num sentido saudável), adrenalina. Quero viajar, conhecer o mundo. Quero constituir uma família. Quero ser feliz ao teu lado, Clay.
        É, possivelmente, tarde de mais para o admitir, mas desejo passar o resto da minha vida ao teu lado e amar cada parte do que te pertence. Se for tarde de mais, se decidires partir sem um último adeus, não te condeno, porque a última coisa que quero é ser um obstáculo no teu caminho.

Sê feliz, manter-te-ei constantemente no meu pensamento. Para sempre teu, George.

The letter Stories to obsess over. Discover now