O fundo do abismo

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Tudo o que eu queria era ser amada de volta. Este era o grande objetivo da minha vida. Foi para isso que fiz tudo o que fiz e que deixei de fazer o que não fiz. Com o tempo, percebi que amor e ódio fazem parte da mesma moeda, então se o amor não era possível, eu odiaria. Mas ao contrário do que imaginara, eles não me odiaram de volta. Simplesmente não mudaram, nada mudou, pois eu era invisível.

"Não adianta tentar beber água de uma fonte seca, Vik", disse a psiquiatra. Aquelas palavras doeram, penetraram em minha alma, expondo todas as minhas tentativas inúteis de conquistar atenção e amor. Eu precisava desistir, mas como? Como fazer isso se toda minha vida tinha se baseado na busca incessante por compreensão?

Algumas pessoas nascem para serem pais e mães. Simplesmente têm esse instinto. Outras não nascem para isso, mas também têm filhos. Algumas possuem um coração enorme, outras têm espinhos no lugar do coração. Alguns pais amam seus filhos, outros odeiam, mas os meus não estavam nem na primeira e nem na segunda categoria. Faziam parte de uma terceira: os indiferentes. Jung disse que "onde o poder predomina, há falta de amor". É verdade. Meus pais estavam acima de mim, então não era amada nem odiada, porque não estava no patamar de receber esse tipo de sentimento.

Minha vida sempre girou em torno deles e para eles, até eu adoecer. Na verdade, seria mais fidedigno dizer que estava doente há muito tempo, mas havia piorado. Eu não queria que eles interferissem no meu tratamento, mas a psiquiatra me disse que precisava comunicar a família. Ela pediu para meus pais comparecerem à minha próxima consulta, em parte para poder observar as interações familiares, em parte para explicar-lhes o que estava acontecendo.

Eu não queria que eles fossem. Tinha medo de perder a psiquiatra, medo de que eles conseguissem manipulá-la como faziam como todo mundo, receio de ser vista como a louca da família. Antecipei todos os diálogos possíveis, todos os rumos de conversas, os movimentos, as reações. Não me preocupava com meu pai, mas minha mãe era outra conversa. Ela era excelente em cativar, era manipuladora e carismática. Tentei me preparar o melhor possível para esse encontro, mas como sempre, meus pais conseguiram me surpreender.

Ele chegou atrasado, por causa do trabalho. Ela foi comigo, então chegou no horário. Fiquei a primeira meia hora sozinha com a psiquiatra e depois eles entraram. Dra. Elena perguntou se eles sabiam o que estava acontecendo, o porquê deles estarem ali. Meus pais disseram que não tinham ideia. A primeira mentira. Eles sabiam que eu tinha depressão, pois não era algo recente. Desde criança eu tomava medicações antidepressivas, mas nunca tive um acompanhamento regular. Agora que estava adulta, sentia que precisava cuidar de mim, afinal, quem mais faria isso?

— A Viktoria está com depressão grave. Ela precisa da ajuda de vocês, de todo o suporte que puderem dar — disse a psiquiatra.

— Depressão? — perguntou meu pai.

— Sim, depressão grave...

— Não, ela não tem depressão... — continuou meu pai.

— Por que o senhor acha isso? — perguntou Dra. Elena.

— Ela sempre foi assim desanimada. É só o jeito dela.

— Então... O fato dela ser assim há bastante tempo é outra coisa preocupante do quadro. Ninguém é assim. As pessoas ficam assim.

— Não, mas isso aí é frescura dela - disse meu pai.

— Sr. Mauro, depressão não é frescura. Sua filha pode realmente morrer!

— Mas como ela morreria? — perguntou ele.

Houve um silêncio. Minha mãe estava estranhamente calada desde que entrou no consultório da médica, mas ela entendia de problemas mentais melhor que meu pai. Enquanto Dra. Elena procurava as palavras, minha mãe disse:

Loucura e PerversidadeTempat cerita menjadi hidup. Temukan sekarang