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Azriel acabara de voltar de uma missão, depois de passar vários dias longe de casa. Sozinho, suas sombras sussuraram assim que ele chegou à Casa do Vento. Nesta e Cassian haviam saído, ele teria a casa toda só para si.
Então seguiu até seu quarto, tomou um banho quente para relaxar e sentou-se em frente ao piano. Fazia muito tempo desde que tocara pela última vez. Não importava a época, o Encantador de Sombras sempre arranjava alguns minutos para tocar piano, a música era seu refúgio desde a infância. Sua mãe sempre cantava para ele em suas raras visitas, e Azriel memorizava cada canção apenas para ter uma parte da mãe consigo na escuridão daquela cela.
Anos mais tarde, quando finalmente se viu livre das garras do pai e dos irmãos, Azriel começou a ter aulas de piano com a mãe de Rhys. Seu peito se apertou ao pensar na fêmea que salvou sua vida séculos atrás e que não estava mais aqui graças ao desgraçado primaveril que traiu a confiança de Rhysand.
A melodia começou a fluir, confusa no início assim como a bagunça dentro dele que se arrastava há séculos. O Mestre-Espião deixou seus sentimentos guiarem seus dedos sobre as teclas.
Suas últimas descobertas tomaram conta de seus pensamentos, assim como a guerra que batia às portas. Ele lutou para não pensar em todas as consequências que ela traria a sua família; como ela afetaria seus irmãos, sua Grã-Senhora, seu pequeno sobrinho recém-nascido, suas amigas, sua mãe e principalmente na bela sacerdotisa que a cada dia se tornava mais presente em sua mente, em seu coração.
Ele sabia que Gwyn lutaria quando a hora chegasse, que ela lutaria pelas irmãs, pela corte dela. Isso fez com que um sorriso surgisse em seus lábios, ele não tentou apagá-lo dessa vez. Não, dessa vez ele se permitiu sentir todas as coisas que Gwyn causava nele.
Gwyneth não sabia, mas aos poucos estava ajudando-o a fechar todas as feridas que a rejeição de Mor havia causado. De alguma maneira, a sacerdotisa conseguiu penetrar cada muralha que ele havia construído em torno de si com seus desafios, suas provocações, suas conversas... Ela arrumava um jeito de entrar mais todos os dias.
Azriel estava tão absorto em seus pensamentos sobre a sacerdotisa que não ouviu os leves passos ecoando pelo corredor, ele só percebeu que não estava mais sozinho quando ouviu a doce voz de Gwyn se misturando à melodia.
Se fosse qualquer outra pessoa suas sombras o teriam alertado sobre a aproximação, mas não Gwyn. Não, nunca com ela. Por alguma razão as sombras pareciam gostar mais da sacerdotisa do que do resto das pessoas. Isso ficava explícito a cada vez que Gwyn se aproximava, suas sombras sempre iam até ela, dançando ao seu redor.
Não foi diferente dessa vez. Azriel sentiu suas sombras deslizarem até a sacerdotisa, cantando de volta para ela.
Gwyneth se aproximou com passos lentos, sentando-se ao lado dele, e embora uma parte dele gritasse que deveria parar de tocar — que deveria manter essa parte dele em segredo — ele continuou tocando, queria dividir isso com ela, queria que ela visse essa parte dele que ninguém nunca havia visto.
A sacerdotisa sorriu em compreensão, entendendo o que aquilo significava para Azriel, mesmo que ele não o tivesse dito em voz alta. As lágrimas que surgiram nos olhos dela deixaram claro o quanto aquele gesto significava para ela também. Mas elas não atrapalharam o seu canto, pelo contrário, de alguma forma, só o tornaram mais belo.
Azriel se juntou a ela, apesar de sua timidez, e o sorriso enorme que surgiu nos lábios de Gwyn era mais brilhante que qualquer estrela no céu noturno de Velaris.
Gwyneth sentou-se ainda mais perto do Encantador de Sombras, descansando a cabeça sobre os ombros dele. As sombras de Azriel começaram a dançar entre os dois, celebrando sua proximidade. O peito de Azriel se encheu de orgulho com isso, Gwyn estava se tornando cada dia mais confiante com a presença masculina, principalmente com a presença dele.
A melodia ficou mais calma, mais suave. Seu canto ficou mais baixo. Azriel não pode deixar de apreciar a maneira como as suas vozes se encaixavam com perfeição. Como se tivessem sido feitas para cantarem juntas.
O Encantador de Sombras não se lembrava de ter estado tão leve quanto naquele momento, aquele era mais um dos efeitos "Gwyneth", como ele secretamente chamava, ela conseguia acalmá-lo mesmo em meio ao caos. Apenas estar perto dela era suficiente para ele.
Azriel tentava não pensar muito no isso significava, mas aquilo havia se tornado quase impossível nos últimos dias. Seu desejo havia se realizado, a Mãe e o Caldeirão finalmente o abençoaram.
A próxima melodia trouxe lágrimas aos olhos de ambos, em reconhecimento ao que era — ao que representava. A canção de suas almas.
Uma vez Gwyn havia lhe perguntado se ele cantava, bem, agora ele cantava apenas para ela.
