CAPÍTULO ÚNICO

57 3 0
                                        

Ao longo da minha vida, nunca presenciei uma fila tão grande quanto essa que eu enfrentava agora. Não havia um final, nem um começo. Nem ao menos me lembro de como cheguei até ela. Na verdade, eu jurava estar em algum tipo de realidade paralela, ou só estava com amnésia? Será que eu bati a cabeça e acabei em um experimento maluco sobre o comportamento de humanos em longas esperas?

Tento inutilmente me lembrar de como vim parar aqui, mas minhas memórias sobre os dias anteriores eram um borrão em minha mente. A última coisa que me recordo, é que dei o troco da corrida que realizei a um passageiro. Eu sou motorista de aplicativo, ou pelo menos era, antes de me deparar com essa fila interminável.

Por vezes, tentei me comunicar com as outras pessoas que estavam ali, mas nenhuma delas conseguiam me informar o porquê daquela fila. Todos estavam igualmente confusos com os acontecimentos daquele lugar.

De vez enquanto, uma pessoa era chamada por uma voz estranhamente estridente, que me corroía por dentro. Essa tal pessoa, geralmente saia por uma porta branca a esquerda, outrora por uma mais escura à direita. Sempre me perguntei se aquelas portas já estavam lá, pois eu jurava que não. Mas tudo bem, quem seria eu para questionar algo? Afinal, não havia ninguém para me informar nada. Isso era aterrorizante.

Eu atipicamente não sentia dor nas pernas e nem vontade de ir ao banheiro. Filas sempre me deixavam ansioso, e por isso, ficava com uma vontade terrível de fazer xixi. Nessa fila em questão, nem mesmo sentimento eu conseguia expressar. Era como estar envolto em um estranho vazio, como possuído por depressão profunda, ou até mesmo, em estado vegetativo.

Ao observar as pessoas ao meu redor, percebia que não era somente eu a me sentir assim. Todos os adultos ali presentes estavam com o mesmo vazio no olhar. Uma senhora que aparentava ter 40 anos, me encarou por uns 5 segundos, e eu pude ver o vazio terrível que habitava em seu ser. Ao contrário de mim, ela vestia roupas vermelhas parecidas com o tom de sangue, e carregava na mão um papel resplandecente. Jamais havia visto um papel de beleza exorbitante como aquele. Tentei ler o que estava escrito em letras pretas igualmente brilhantes, mas aquela luz parecia cegar quem quer que o tentasse.

Também ali se encontravam algumas crianças, mas ao contrário dos adultos, elas se derramavam em lágrimas doídas e pareciam carregar muito sentimento dentro de si. Ao observar uma daquelas pequenas criaturas gritarem o nome dos pais para a multidão, meu coração se retorceu em dor. Ela parecia ter por volta de 5 anos de idade, tinha a pele escura, vestia um vestido branco como a neve e tinha cabelos crespos bem definidos. É, talvez eu não estivesse tão congelado como estava pensando.

Onde estariam os pais daqueles pequenos? E por que diabos ninguém ajudava ou dava auxílio para eles? Institivamente, tento dar alguns passos até a menina, mas um peso sobrenatural recai sobre meu corpo, me fazendo não conseguir avançar.

— Você tem que esperar no seu lugar da fila. — Um ser muito estranho disse para mim, não consegui identificar se era um homem ou uma mulher. Como ele havia chegado ali tão rápido?

O ser me puxou pela gola da camiseta, com estranha facilidade, e me colocou de volta na fila, atrás de um homem muito alto. Pelo menos eram duas posições à frente da que eu estava. Me dei conta que haviam pessoas responsáveis por aquilo, só não apareciam ali, nem mesmo quando uma criança inocente chorava desesperada. Agora, com meu simples ato de avançar na fila, um deles rapidamente foi me impedir. Que pessoas sem empatia eram aquelas?

— Você trabalha aqui? Por que estou aqui? Que tipo de lugar é esse? — Questiono para aquela "coisa", antes que a mesma desaparecesse.

— Cala-te. As coisas serão compreendidas quando tiverem que ser. — O ser diz com a voz firme, e simplesmente desaparece.

O CorredorHistórias para pegar e não largar. Descubra agora